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Novo coronavírus é "barril de pólvora" para população de rua em São Paulo

Recém-curado de uma pneumonia, Cosme Santos Silva é uma das milhares pessoas do grupo de risco vivendo nas ruas - Henrique Santiago
Recém-curado de uma pneumonia, Cosme Santos Silva é uma das milhares pessoas do grupo de risco vivendo nas ruas Imagem: Henrique Santiago

Henrique Santiago

Colaboração para o TAB

26/03/2020 04h00

A expansão do novo coronavírus em São Paulo tem provocado uma série de ações por parte da prefeitura. Entre elas estão a quarentena, o fechamento de equipamentos públicos e cancelamento de eventos com aglomeração de pessoas. Já a população de rua da cidade mais afetada pela doença no Brasil — com 40 mortes e mais de 800 casos confirmados até quarta-feira (25) — não tem recebido a devida atenção da atual gestão, segundo especialistas. Junto a ativistas, eles cobram ações assertivas da prefeitura para impedir o avanço da covid-19.

O atual cenário é de medo e preocupa o desconhecimento do novo coronavírus entre as 24.344 pessoas em situação de rua na capital. Carmen Santana é psiquiatra e coordenadora do projeto A Cor da Rua, trabalhando com essa população há 12 anos. Desde a semana passada, porém, ela interrompeu os atendimentos presenciais e, agora, tem trabalhado via WhatsApp. Santana conversa com um grupo de aproximadamente 50 pessoas que estão mais instruídas sobre o avanço da doença — mas isso está restrito à parcela que tem acesso ao celular.

Além de temer pelo comprometimento da saúde física de seus pacientes, ela teme pela piora da saúde mental da população de rua — em especial daqueles que sofrem de ansiedade e depressão. O uso de substâncias como álcool e drogas ilícitas como o crack, além da rotina de violência e privação de direitos, são agravantes para esse grupo. "Acredito que muita gente que está na rua, principalmente os mais vulneráveis, que têm surtos psicóticos, nem saiba o que está se passando agora", diz a especialista.

Segundo a reportagem apurou, alguns centros de acolhida têm proibido a permanência de usuários dentro do espaço até as 16h. Há relatos de pessoas que têm problemas respiratórios, como bronquite, vagando pelas ruas da cidade desde a manhã à tarde até — quando chega o horário permitido para se instalar em algum dos abrigos.

Uma possível tragédia

Alexandre Frederico viveu nas ruas de São Paulo por 15 anos e só recentemente conseguiu alugar uma casa. Nesse tempo, passou intacto pelas crises de dengue, H1N1 e zika vírus, mas contraiu doenças como tuberculose e sífilis. Hoje em dia, milita pela população de rua e mantém contato diário com esse público. Para ele, falta diálogo com as pessoas vulneráveis. "Não adianta entregar panfleto nas mãos de quem tá na rua. Quem tá na rua tem fome, sede, pode estar na 'noia'. Eles querem atenção. Tem que pegar no ouvido, na conversa, olho no olho", avalia.

A psicóloga Eroy Aparecida da Silva cobra participação do poder público na atuação do combate à covid-19 entre a população de rua. Ela faz trabalho voluntário em coletivos e aponta que a precariedade dos serviços existentes, somada à falta de iniciativas nesse sentido, pode ocasionar uma tragédia de proporção inimaginável. Serviços emergenciais que incluam higiene pessoal, maior espaçamento entre camas e alimentação são apontados como forma assertiva de prevenção nos centros de acolhimento.

O poder público precisa de comprometer de verdade. Se essa população não for cuidada e inserida de maneira adequada, serão as primeiras mortes em massa anunciada. É uma necropolítica.

Eroy Aparecida da Silva, psicóliga e voluntária

A reportagem ouviu de uma fonte que preferiu não revelar sua identidade que existe um número grande de casos suspeitos de coronavírus na população de rua. A Secretaria de Assistência e Desenvolvimento Social (SMADS) foi questionada sobre essa possibilidade, mas não respondeu até a publicação desta matéria.

"É um barril de pólvora"

Cléber* representa uma ONG e administra um núcleo de convivência da prefeitura em São Paulo. As atividades de aglomeração foram suspensas por determinação da prefeitura, mas refeições têm sido oferecidas diariamente, das 8h às 17h. Desde a última semana, ele viu o número de pessoas em busca de atendimento aumentar significativamente — passando de 300 para mais de 450 ao dia. Cerca de 30 funcionários realizam esse trabalho, mas o quadro diminuiu, pois existem trabalhadores que fazem parte do grupo de risco, como os idosos."Todo mundo que trabalha com esse público está muito preocupado. Eles são muito vulneráveis. É um barril de pólvora pronto para explodir", disse Cléber.

A abertura de espaços públicos para esta população — como escolas, por exemplo — é encarada pelos especialistas como uma alternativa para oferecer serviços de higiene e moradia temporários para a população de rua. No Reino Unido, hotéis serão oferecidos para esse público, enquanto na Califórnia (EUA), o governo estuda abrir acampamentos e abrigos.

Em São Paulo, a prefeitura anunciou na noite de domingo a criação de abrigos emergenciais para atender pessoas em situação de rua com suspeita de covid-19. O primeiro deles será na Vila Mariana, com endereço ainda não divulgado. Além deste, mais quatro serão abertos até o final desta semana, com 400 vagas no total. O objetivo é "esvaziar um pouco" os centros de acolhida já existentes, explica a nota.

Chuvas evidenciam negligências

O agravamento do coronavírus se transformou em uma nova preocupação das pessoas que vivem nas ruas. A reportagem acompanhou os resultados da enchente de 10 de fevereiro e ouviu pessoas em situação de vulnerabilidade, além de especialistas, para entender o que tem sido feito para atender essa parcela da população. Naquela segunda-feira, um temporal parou a cidade. Enquanto a população se dividia entre a agonia de voltar para casa e o conforto do home office, as pessoas em situação de rua encaravam outra necessidade: a luta pela sobrevivência.

Rosemeire Alves dos Santos, 39, descreve as horas de desespero que passou. Ela se instalou na Avenida Nove de Julho e, ao acordar de madrugada para ir a um banheiro improvisado, deparou-se com a calçada completamente inundada. Perdeu roupas, a carteira e documentos — menos o RG, que estava seguro na "boca de rango", restaurante comunitário para a população de rua. "Eu choro quando perco minhas coisa. É tão difícil você conquistar, por mais que seja doações, mas eu conquistei. Aí vem a chuva e leva. A gente passa mais dificuldade na chuva e no frio", lamenta.

 Rosemeire Alves dos Santos enfrentou dificuldades na chuva durante a gravidez - Foto : Henrique Santiago - Foto : Henrique Santiago
Rosemeire Alves dos Santos enfrentou dificuldades na chuva durante a gravidez
Imagem: Foto : Henrique Santiago

Essa circunstância, no entanto, está longe de ser novidade para Rosemeire. Sem um teto para morar há quatro anos, a baiana de Salvador coleciona uma série de experiências de desalento em São Paulo. Em 2017, grávida da filha que hoje vive na Bahia, ela quase perdeu a vida — e a vida da criança — em uma enxurrada. "A chuva levou a minha barraca na Nove de Julho. Não podia nem correr. Não sabia se salvava a barraca ou se me salvava, porque o temporal estava quase me levando também. Deixei levar tudo", recorda Santos, que atualmente vive com um salário mínimo proveniente da aposentada por invalidez. Ela pertence ao grupo de risco no surto de covid-19, já que sofre de problemas cardíacos e pressão alta.

Quando a chuva traz doenças

Antônio Rodrigues Soares, 46, esteve recentemente entre a vida e a morte depois de contrair uma infecção bacteriana nas ruas. Ele costuma ironizar suas dificuldades com a palavra "sucesso". Passou semanas com dores e vômitos, visitava igrejas em busca de cura, até que decidiu ir a um posto de saúde para se tratar. Até hoje ele não sabe ao certo por onde a bactéria entrou, mas lembra com clareza dos mais de 365 dias que passou entre a dor e recuperação, somente no início deste ano. Ele vestia a mesma roupa há uma semana.

Eu pegava muito relento e andava em calçada com aquela água podre de esgoto. A febre já tinha tomado conta de mim. Num conseguia tomar banho. Ficava deitado, jogado nas praça debaixo de chuva. Aquela dorzona. Pensei que era doença nos rins ou pedra na vesícula, e a bactéria circulando...

Antônio Rodrigues Soares, morador de rua em São Paulo

Nascido em Independência (CE), Soares já estava com a saúde comprometida antes de chegar a São Paulo, há quatro anos. Operado da traqueia, ele exibe duas cicatrizes que cobrem seu pescoço de ponta a ponta, tem apenas 75% da visão e vive uma rotina de consultas médicas em hospitais e postos de saúde. As coceiras na pele causadas por piolhos e micoses que acompanham papelões e cobertores só são interrompidas com o uso de uma loção específica. Ele é mais um dos muitos moradores de rua que fazem parte do grupo de risco para covid-19.

 Antônio Rodrigues Soares dorme em CTA, mas não recomenda o serviço - Foto: Henrique Santiago - Foto: Henrique Santiago
Antônio Rodrigues Soares dorme em CTA, mas não recomenda o serviço
Imagem: Foto: Henrique Santiago

"Nem me cubro mais com as mantas [de doação]. Já coloco nos pés porque a coceira vai só para lá. As bicha anda, as bicha avoa", conta. Ele interrompe a fala, diz que precisa se despedir para pegar uma doação de comida a poucos metros dali e pede desculpas por ter de sair.

A coordenadora de projetos da organização Rede Rua, Andreza do Carmo, questiona as políticas de acolhimento adotadas pela prefeitura de São Paulo sob gestão de Bruno Covas (PSDB) nessa época do ano. Mensalmente, o município gasta R$ 17,4 milhões em serviços destinados à população de rua.
De acordo com ela, a "comoção" se resume às campanhas anuais de inverno: as vagas aumentam temporariamente e as doações de roupas e cobertores feitas durante a estação mais fria do ano se perdem quando chegam os temporais de verão, exemplifica.

"A prefeitura não entende que o verão também traz necessidades. Consegue pensar em ações emergenciais no inverno, mas no verão, uma época de tempestades e de calor intenso, acha que o clima é aceitável. É vida que segue para a próxima chuva", critica a profissional, que também relembra a dificuldade no acesso à água potável nos dias mais quentes do ano. Agora, com o surto de covid-19, a situação se torna ainda mais tétrica.