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"Mais estrangeira que Marte": ilustradora explica Wuhan antes da covid-19

Laura Gao em autorretrato: Frustrada por ninguém conhecer Wuhan - Laura Gao
Laura Gao em autorretrato: Frustrada por ninguém conhecer Wuhan Imagem: Laura Gao

Tiago Dias

Do TAB, em São Paulo

24/03/2020 04h00

A ilustradora Laura Gao cresceu frustrada toda vez que falava de sua cidade natal. "Eu sou de Wuhan", dizia. Diante das perguntas pitorescas que ela ouvia de volta, parecia que o importante centro comercial da China, na verdade, não estava em nenhum mapa. "Wuhan era mais estrangeira que Marte", diz.

Essa realidade ficou no passado. Desde dezembro de 2019, Wuhan finalmente se tornou conhecida, mas da pior forma possível. A capital da província da China central é o berço do novo coronavírus, epicentro da pandemia que afeta e apavora quase o mundo inteiro hoje.

Agora, com 23 anos e morando em São Francisco, nos Estados Unidos, Gao não passa uma hora sem ouvir o nome de Wuhan, acompanhado sempre de observações negativas, quando não preconceituosas. "Vocês todos merecem isso por comer coisas estranhas" foi o que ela mais ouviu quando o vírus ainda estava restrito à China.

Após notícias do coronavírus, Gao  passou a ouvir: "É verdade que o vírus foi criado pelos chineses para dominar o mundo?" - Laura Gao
Após notícias do coronavírus, Gao passou a ouvir: "É verdade que o vírus foi criado pelos chineses para dominar o mundo?"
Imagem: Laura Gao

Ela tomou conhecimento da covid-19 em janeiro, quando avisou no Twitter, empresa onde trabalha (área de produtos), que tiraria uma semana de folga para visitar seus avós em Wuhan. "Um deles me avisou que tinha ouvido falar de um vírus mortal por lá", conta. Como muitos, achou que se tratava de apenas uma gripe. Dias depois, notícias sobre a covid-19 ganharam destaque nas ruas, onde passou a ser chamada de forma pejorativa, inclusive pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de "germes de Wuhan".

"Quando a notícia foi divulgada, minha etnia estava definitivamente no topo das minhas preocupações", contou, em conversa com o TAB. "As pessoas lançavam olhares estranhos e amedrontados quando eu mencionava que era de Wuhan. Também tive uma pequena tosse nessa época, que não era grave, e fiquei constantemente com medo de que gritassem comigo na rua ou no trabalho."

Retrato de família em um dos cartões postais de Wuhan - Arquivo pessoal
Retrato de família em um dos cartões postais de Wuhan
Imagem: Arquivo pessoal
Gao deixou Wuhan aos 3 anos e sua relação com a cidade foi se moldando a partir de viagens esporádicas, mas principalmente através das memórias dos seus familiares. Recentemente, ela resgatou uma foto de sua família diante do grande cartão postal da cidade, a Torre do Grou Amarelo, construído pela imperador Sun Quan no ano 220 de nossa era -- "e que, no sol, brilha como ouro", ela observa. Veio a vontade de resgatar pedaços de uma história que ficaria enterrada de vez.

"A história é sempre escrita por aqueles que têm a voz mais alta e, infelizmente, algumas das vozes mais altas no momento são preconceituosas e mal informadas", observa.

Gao se viu, como muitos de nós, numa realidade dura, onde o espaço mais seguro para se estar é dentro de casa. Com o tempo livre, passou a dedicar mais tempo à ilustração. Criou então uma curta história em quadrinhos para mostrar, como diz o título, a "Wuhan que eu conheço".

Ela conta um pouco sobre a mudança na arquitetura da cidade, com cartões postais da época de antigos imperadores, resistentes a pandemias e guerras, além de falar da culinária, que ela acredita ser "incomparável" em sabores e histórias, distante da visão estereotipada na crença popular. Uma das fake news que circularam no início do ano foi a de que o vírus tinha se espalhado por conta do hábito dos chineses sw tomar sopa de morcego — uma das muitas fake news que circularam sobre a cidade.

"É incrivelmente importante ajudar a dissipar a imagem feia que muitos têm de minha cidade natal e lembrar as pessoas da beleza e humanidade de Wuhan", diz.

Laura Gao
Imagem: Laura Gao

A experiência a fez se conectar com muitos estrangeiros nos Estados Unidos — alguns preocupados com seus familiares em países onde o surto atingiu picos assustadores, outros que relatam sofrer experiências racistas.

"A resposta aos meus quadrinhos me conectou a estranhos no Twitter, que também estavam preocupados com o racismo porque eram asiáticos, iranianos, italianos etc. E aqueles que nunca ouviram falar de Wuhan, mas agora estão em seus principais lugares para visitar a lista", comemora.

Ela diz que praticar a arte traz alívio para quem faz e consome, mas tem um papel mais fundamental em termos obscuros como esse. "Capturar experiências humanas deste momento importante das histórias."

Notícias de Wuhan

Gao conta que acompanhou as notícias do fechamento e quarentena em Wuhan com apreensão. "Visito Wuhan a cada cinco anos. Estávamos planejando viajar no aniversário de 80 anos da minha avó, quando cancelamos por conta das notícias sobre o vírus", conta. Semanas depois, Wuhan estava isolada. "Estaria presa lá. Uma loucura pensar nisso."

Para aplacar a saudade e ter notícias, ela tem ensinado os avós a fazerem transmissões ao vivo pela internet. O contato a fez ter noção de como está a vida na primeira cidade a paralisar, e que já contabiliza três meses de quarentena.

A área rural onde os avós moram tem baixo índice de contágio e, por isso, elas já começam a fazer curtos passeios, autorizados apenas em espaços abertos e verdes, como praças e parques.

Os itens no supermercados não estão em falta, mas, para facilitar o processo, esses comércios montam kits, como uma cesta básica, para a venda. Ainda assim, os mantimentos são comprados e transportados por um funcionário do governo. Há um em cada bairro, para atender a população de risco em cada bairro. Como os táxis são de propriedade estatal, muitos carros estão sendo adaptados como veículos de emergência, caso alguém precise ir ao hospital.

Na última chamada por vídeo, Gao avisou os avós sobre o apoio e repercussão em torno de sua história sobre Wuhan. "Eles agradeceram muito por pensar neles e na cidade deles", disse.

Ela acredita que a arte vai ajudar a entender esse momento inédito no mundo. Sem ter seu trabalho paralisado, Gao cede ilustrações para ajudar campanhas em prol dos trabalhadores já afetados pela pandemia. "Na Califórnia, na semana passada, 20% da força de trabalho ficou desempregada! Tenho tentado retribuir essas pessoas doando dinheiro para fundos de emergência ou comprando serviços remotamente e incentivando outras pessoas a fazer o mesmo."

"Esse é o papel da arte agora — conectar as pessoas através do amor e da compreensão."