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Mitigação: Brasil está na segunda das quatro etapas de combate à pandemia

UTI da Santa Casa de São Paulo - Joel Silva/Folhapress (4.7.2018)
UTI da Santa Casa de São Paulo Imagem: Joel Silva/Folhapress (4.7.2018)

Mateus Araújo

Colaboração para o TAB

23/03/2020 12h00

Isolar pessoas ou decretar toque de recolher em todo o país. Fechar fronteiras aéreas e terrestres ou fazer exame em todo mundo que chega de viagem. Essas decisões se tornaram cada vez frequentes para os governos no mundo inteiro, desde o primeiro alerta da China sobre o novo coronavírus, em 31 de dezembro de 2019. No Brasil, elas foram impostas mais recentemente, quando estados e cidades intensificaram as medidas de combate à covid-19.

Todos esses procedimentos, no entanto, fazem parte do plano estratégico de especialistas para o controle da transmissão de pandemias. Dividido em quatro fases distintas, como explica o epidemiologista Guilherme Werneck, essas estratégias incluem não só procedimentos médicos como também medidas sanitárias e políticas, fundamentais para controle e atendimento da população.

Fase 1: contenção

A primeira fase, chamada de contenção, começa antes mesmo das notificações de casos no país. "A gente sabe que existe uma doença transmissível, com capacidade de transmissão rápida, e que vem se disseminando — e isso gera alerta da possibilidade desse vírus chegar em outros países. É a fase de preparação para que o vírus não se estabeleça de forma contínua", conta Werneck, que é vice-presidente da Abrasco (Associação Brasileira de Saúde Coletiva) e professor da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e da UERJ (Universidade Estadual do Rio de Janeiro).

A contenção é um momento de cuidado com as pessoas que entram no país vindo de regiões onde já haja o surto. "Basicamente, você vai iniciar um rastreamento muito ativo dos passageiros que estão chegando do exterior. Nessa fase, é necessário submeter as pessoas a um tipo de avaliação — se tem sintomas de gripe, se esteve com alguém infectado, se sabe para onde vai", explica o médico. Na pandemia do novo coronavírus, segundo ele, a fase de contenção foi muito bem feita em Taiwan, Singapura e Hong-Kong, próximos à China — onde surgiram os primeiro casos da covid-19.

Os três países implementaram rapidamente respostas eficazes, como investigação minuciosa de todas as pessoas que tiveram contato com alguém infectado, a criação de postos de medição de temperatura em aeroportos, portos e terminais, a quarentena de turistas e o isolamento social dos moradores.

Tripulação embarca em voo com máscaras no aeroporto de Wuhan, na China  - Hector Retamal/AFP
Tripulação embarca em voo com máscaras no aeroporto de Wuhan, na China
Imagem: Hector Retamal/AFP

Fase 2: mitigação

A segunda fase de estratégias para enfrentamento à pandemia é a mitigação, na qual estão o Brasil, a Europa e os Estados Unidos, onde as transmissões já acontecem de forma comunitária — quando não há a possibilidade de saber a origem da contaminação. No último balanço divulgado pelo Ministério da Saúde, na sexta-feira (20), o órgão declarou que em todo o território nacional há casos desse tipo.

"Quando a transmissão comunitária passa a acontecer, aquela fase de contenção já não faz mais sentido, é insuficiente. Agora, temos que fazer com que a transmissão interna seja reduzida", frisa Guilherme Werneck. Aí se iniciam as orientações de cancelamento de eventos, paralisação das aulas e diminuição da circulação de pessoas; ou, em situações mais drásticas, começa a fase de supressão, com a quarentena obrigatória da população e fiscalização rígida do governo.

Fase 3: supressão

Em análise divulgada no último dia 16, pesquisadores do Imperial College, na Inglaterra, defendem que a supressão seja o plano mais eficiente no controle da pandemia da covid-19, porque, segundo eles, pode reduzir em dois terços a demanda de assistência médica no pico das infecções.

Os pesquisadores criaram um estudo com base nos dados da gripe espanhola, de 1918, que matou quase 50 milhões de pessoas no mundo todo. De acordo com o texto, "a eficácia de qualquer intervenção isolada provavelmente será limitada, exigindo que múltiplas intervenções sejam combinadas para ter um impacto substancial na transmissão".

A pesquisa conclui que "a mitigação da epidemia ainda resultaria em centenas de milhares de mortes e na sobrecarga do sistema de saúde (principalmente unidades de terapia intensiva)", e que "o grande desafio da supressão é que esse tipo de pacote de intervenção intensiva — ou algo equivalente na redução da transmissão — precisará ser mantido até que uma vacina esteja disponível (em 18 meses ou mais) —, uma vez que a transmissão voltará rapidamente se as intervenções forem relaxadas".

Para os pesquisadores, a experiência na China e agora da Coreia do Sul mostram que a supressão é possível a curto prazo. "Resta saber se é possível a longo prazo e se as condições sociais e os custos econômicos das intervenções adotadas até o momento podem ser reduzidos". "Para os países capazes de implementá-la, a supressão é a opção política ideal", garantem.

Fase 4: recuperação

A última fase é a de recuperação, quando a pandemia dá sinais consistentes de que está acabando, principalmente com a diminuição de número de infectados. "Em geral, essas coisas acontecem após um tempo. A covid-19 ainda permanecerá por alguns meses, mas, em algum momento, ela dará sinais que vai involuir", explica o professor. Essa última fase, porém, requer uma organização política para reestruturar o país social e economicamente. "As pessoas vão perder por muito tempo sua fonte de renda, perderão pessoas, fizeram gastos, empresas fecharam, grandes empresas entraram em crise, populações imensas ficaram vulneráveis."

Brasil demorou

Para os especialistas ouvidos pelo TAB, a primeira fase de enfrentamento, no Brasil, não foi bem sucedida. "A resposta inicial foi errática. Houve, de certa forma, algumas manifestações minimizando o problema. Diziam: 'isso não ia chegar aqui', 'é um país tropical', 'é calor', 'é mais uma gripe', inclusive de parte de membros do governo", cita Werneck, referindo-se a declarações do presidente Jair Bolsonaro. No início de março, em Miami, o chefe do executivo disse que o vírus estava sendo "superdimensionado".

Médica sanitarista e professora da UFRJ, a pesquisadora Ligia Bahia reforça a opinião de Werneck e destaca a preocupação com o aumento acelerado da curva de casos da doença no Brasil. Para ela, a preparação insuficiente do país no início da pandemia preocupa sobretudo pela superlotação do sistema público de saúde. "O nosso SUS não tem potência para responder a uma sobrecarga como a que estamos vendo em outras partes do mundo. Seria importante que a fase inicial tivesse sido mais bem sucedida. Uma fase que não envolve atendimento médico, mas de 'polícia médica', de controle e isolamento."

"Não é que os casos não vão ocorrer; mas o trabalho é para que a velocidade de propagação do vírus seja menor, é a tentativa de retardar a curva de crescimento dos casos — que no Brasil tem aumentado bastante", explica Bahia. "Terça-feira (17), tivemos a primeira morte no Brasil e hoje já uma multiplicação de números. Não sabemos quem está com infecção, porque a maioria das pessoas contaminadas não tem sintomas. O que sabemos é que existem pacientes em estado grave, inclusive entre profissionais da saúde."

Governo Federal em negação

Divergências dentro da atuação do Estado, como aponta o médico sanitarista Gastão Wagner, professor da Unicamp, também atrapalharam na articulação eficaz. "O Ministério da Saúde precisa estar o tempo todo tomando medidas integrado com os estados e este com os municípios", afirma ele, ex-secretário-executivo da pasta, durante o governo Lula (2003-2005).

"Nos últimos 15 dias, noto que os governadores e prefeitos tomaram as principais medidas de isolamento, enquanto a coordenação federal se mostrou ausente", avalia Wagner. "O ministro [Luiz Henrique Mandetta] vinha atuando de forma autônoma, mas o presidente [Bolsonaro] discordou de medidas como o fechamento de comércio, de shoppings, fronteiras (a principal estratégia de achatamento da curva) no início da crise, porque, para ele, a paralisia inevitável da economia seria mais grave que a epidemia."

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