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Resgate de humanidade pode vir de uma situação de crise como o coronavírus?

Pessoas utilizam máscaras de proteção contra o coronavírus em hospital de Brasília (DF) - ADRIANO MACHADO
Pessoas utilizam máscaras de proteção contra o coronavírus em hospital de Brasília (DF) Imagem: ADRIANO MACHADO

Marie Declercq

Do TAB

17/03/2020 17h28

Não se fala de outra coisa. Quarentena, isolamento social, álcool em gel, crise, crise e crise. Desde o dia 11 de março, quando a OMS declarou a pandemia do novo coronavírus, grande parte da população mundial passa pela situação extrema de ter de controlar as consequências imprevisíveis de uma nova doença. Enquanto não existe uma vacina, a sociedade conectada segue trocando informações em tempo real — e se une para compartilhar experiências e dicas de sobrevivência. O novo coronavírus poderia, afinal, restaurar a humanidade e a empatia em tempos de individualismo?

Pequenos atos na Itália e na China demonstram como é possível ter empatia com o próximo e despertar um senso de comunidade que tinha desaparecido da vida cotidiana antes da covid-19. Em um vídeo que circulou na internet, um italiano improvisa uma discotecagem em sua varanda para os vizinhos também em quarentena, tocando um hit de Gigi D'Agostino. Amigos jantam conversando pelo Facetime para driblar a solidão. Cada vez mais pessoas se mostram dispostas a compartilhar conhecimento, informação e atividades para que todos passem pela crise da melhor forma.

Mas é preciso ter cautela. Em momentos de crise, nem tudo é lindo ou solidário como os vídeos de aulas de ginástica gravados na Espanha. Situações-limite também despertam o lado mais primitivo do ser humano, no esforço de garantir a própria existência. Em diversos países, pessoas correram aos supermercados para estocar papel higiênico, deixando as prateleiras quase zeradas — apesar de o produto não ter nenhuma relação direta com a prevenção do vírus. Álcool em gel, produtos de limpeza e máscaras se esgotam a todo momento. Há ainda quem se aproveite da crise para tentar lucrar. Tempos difíceis são os mais férteis para seres humanos revelarem excentricidades e manias difíceis de explicar racionalmente — seja em atitudes mais egoístas ou em pequenos atos de empatia.

É hora de se unir, mesmo que à distância

Para Christian Dunker, psicanalista e professor titular do Instituto de Psicologia da USP (Universidade de São Paulo), o que está acontecendo é um evento único, e é evidente que atos de individualismo extremo virão à tona. Mas o psicanalista também acredita em um resgate da solidariedade, já demonstrado ao redor do mundo por nações em quarentena.

"Temos agora um acontecimento que se impõe a todos nós. Não é um assunto de opinião, onde um lado está ganhando ou perdendo. Todos estamos perdendo. Acredito que essa situação retoma uma ideia bem parecida com as narrativas que ao longo da história inspiraram solidariedade, humildade e atos do tipo," explica. "A resposta que me parece mais inteligente é todos nós enfrentarmos a situação juntos. A história mostrou que isso é efetivo em casos de crise".

Mesmo para quem tem condições de se confinar em casa para evitar o contato com o vírus ou se tornar vetor de transmissão, o isolamento social não é nada fácil. Mas o resguardo e a conscientização de amigos e família têm se mostrado importantes para lembrar do próximo, que precisa estar na rua, trabalhando. Parece óbvio e até um tanto otimista, mas considerando que um período longo de isolamento social está no horizonte, não é hora de cortar laços.

O isolamento pode ser uma forma de repensar nossas relações familiares — e também de enfrentar nossos próprios fantasmas. "O cuidado começa pelo reforço das nossas relações, falar com aquele tio, com a avó, agora é a hora de ligar e falar com eles. Como vamos fazer com as crianças que estarão em casa, para tirá-las de uma situação de solidão repentina? Como vamos cuidar dos nossos idosos, dos nossos avós? Essas inovações serão também uma manobra de solidariedade".

Explicar a realidade para os outros é uma forma de empatia

A humanidade já passou por outras pandemias — bem piores, inclusive. Esta, porém, é a primeira dessas dimensões a acontecer em uma sociedade ultraconectada e globalizada, em que grande parte das interações é mediada pela internet. A rede é uma fonte preciosa de informações, mas também um ótimo instrumento para se desconectar do mundo concreto lá fora.

A negação da realidade não chega apenas por correntes de WhatsApp mas também integra o discurso de governos, como temos visto no México, em parte nos EUA (com Donald Trump afirmando se tratar de um "vírus estrangeiro") e também no Brasil, com o presidente Jair Bolsonaro declarando em entrevistas que a comoção em torno do novo coronavírus é "histerismo".

"A confusão ou a negação da realidade são extremamente humanas", diz Péricles Pinheiro Machado Jr., psicanalista filiado à Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo e pesquisador do LipSic (Laboratório Interinstitucional de Estudos da Intersubjetividade e Psicanálise Contemporânea). "De um lado, todo mundo sabe que é um problema grave; do outro, a gente também resiste a perceber que essa é uma situação que sim, afeta todos nós".

Para o psicanalista, é essencial manter uma rede de conexões, mesmo que virtual. "Nas situações mais concretas — como o bilhete pendurado no elevador oferecendo uma ajuda ao velhinho para fazer compras — as pessoas demonstram a capacidade de reconhecer e empatizar com o sofrimento dos outros. Porém, penso que uma coisa mais anterior ainda do que poder ajudar alguém é conseguir ajudar as pessoas a processar e digerir esses aspectos tão violentos e assustadores da realidade, que estão se revelando aos poucos".

A ficha está para cair no Brasil

O Ministério da Saúde e os governos estaduais demonstram preocupação e estado de alerta com o novo coronavírus, mas a percepção das dimensões reais da pandemia ainda parece escapar aos brasileiros. No último fim de semana, apesar do aumento do número de casos no país (SP e RJ já declararam que a transmissão do vírus é comunitária), imperou a normalidade. Assim como aconteceu em Portugal, na Espanha e na Itália, ocorreu uma revolta tácita pela manutenção da rotina. Praias lotaram, barzinhos encheram e baladas abriram. No Brasil houve o agravante dos protestos a favor do presidente Jair Bolsonaro, ocorridos em mais de 200 cidades — e validadas por ele, que escapou do isolamento recomendado pelos médicos para abraçar e tirar fotos com apoiadores.

No momento são quase 300 casos de covid-19 confirmados pelo Ministério da Saúde, com uma morte confirmada e mais de 8 mil suspeitas de estar com a doença. Mas há dissonâncias entre as autoridades brasileiras a respeito de como devemos encarar a crise. A descrença do chefe de Estado colaborou bastante não apenas para um possível enfraquecimento político do Executivo, mas também para elevar a desconfiança em relação ao novo coronavírus.

"Estamos vivendo um momento que não veremos de novo, um evento único que não temos com o que comparar. Não, isso não se parece com a vez em que o PCC parou São Paulo em 2006, não se parece com o 11 de setembro. Talvez uma bisavó nossa possa até falar remotamente do que foi a gripe espanhola, mas é algo que está muito distante. Quando nos deparamos com coisas sem precedentes, uma atitude muito simplória é negar — e a negação precisa ter uma certa certificação coletiva que se aproveita de delírios que já estavam disponíveis, como a China estar envolvida na epidemia, a história dos morcegos. É a soma dos males que já estavam nos aterrorizando," diz Dunker.

Negar um fato não só atrasa possíveis políticas de prevenção como também gera uma sensação ilusória de consenso. Por isso, em tempos de desconfiança com a ciência, procurar e compartilhar informações embasadas seria uma das maiores formas de solidariedade. Considerando a repercussão negativa de atos de chefes de Estado como de Bolsonaro, ao negar a seriedade do problema, os especialistas acreditam que é uma mera questão de tempo até a ficha cair.

"Uma situação como essa contribui para um sentimento de que a realidade pode ser recusada, de que reconhecer a gravidade do problema seria simplesmente uma questão de escolha, quando na verdade não é. Poder reconhecer e pensar a realidade é uma condição necessária para tomar atitudes que possam modificá-la", explica Machado.

Bolsonaro faz selfies com apoiadores em frente ao Palácio do Planalto, em Brasília - Felipe Pereira/UOL - Felipe Pereira/UOL
Bolsonaro faz selfies com apoiadores em frente ao Palácio do Planalto, em Brasília
Imagem: Felipe Pereira/UOL

Nem sempre a crise pode trazer a redenção, mas pode fortalecer políticas sociais

Para Túlio Custódio, sociólogo e curador de conhecimento da Inesplorato, o cenário atual não representa uma oportunidade de despertar surtos de empatia e humanitarismo, e tem poucas chances de promover algum tipo de redenção. Mas pode ser uma chance de levantar discussões sobre a efetividade da atual política econômica neoliberal, especialmente no Brasil.

Prevendo os impactos do isolamento social em trabalhadores autônomos — especialmente nos setores de serviços e cultura — muitas pessoas estão estimulando que contratantes paguem por serviços de limpeza não realizados por conta da pandemia ou não peçam reembolso imediato de eventos cancelados, de forma a diminuir o prejuízo desses setores. Atos de solidariedade na esfera privada são bons para exercitar o bom senso, segundo o sociólogo, mas não podem substituir a importância do Estado na garantia do básico para a população em momentos extremos como o atual. "Quem pode fazer uma ação dessas pertence a uma classe média alta, que pode dispor desses recursos sem necessariamente ficar em débito. Essa não é uma realidade da maioria", explica.

Apesar da recusa do governo brasileiro em aceitar a realidade da pandemia do novo coronavírus, nações vizinhas como os EUA, surpreendentemente, já estão discutindo medidas nada liberais — como a renda mínima, que visa garantir o mínimo de condições para cidadãos de um país já em isolamento social e que funcionará com sua capacidade muito reduzida. O sociólogo enxerga uma oportunidade de trazer à luz discussões urgentes sobre desigualdade social e precarização do trabalho formal e informal.

Para Custódio, a atitude de Bolsonaro demonstrou que dificilmente o Brasil verá o governo tomando medidas necessárias para garantir a segurança de seus cidadãos, mas a situação pode despertar um debate mais politizado e certeiro sobre a importância de políticas sociais e econômicas para o futuro. "Só de a gente estar pensando nisso e sair desse discurso do Estado mínimo, acho que talvez já seria um saldo positivo em termos de politização do discurso e do debate público", afirma.

Serão longos meses pela frente e ainda pouco sabemos como isso nos afetará, mas uma coisa é certo: nada mais será o mesmo depois da pandemia do novo coronavírus. Incluindo nós mesmos e a forma como nos relacionamos.