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Sem poder sair às ruas, Testemunhas de Jeová agora evangelizam por telefone

Testemunhas de Jeová distribuem folhetos bíblicos no Lollapalooza em 2013 - Zulmair Rocha/UOL
Testemunhas de Jeová distribuem folhetos bíblicos no Lollapalooza em 2013
Imagem: Zulmair Rocha/UOL

Marie Declercq

Do TAB

06/05/2020 04h00Atualizada em 07/05/2020 15h34

"Olá, você teria um minuto para ouvir a palavra de Jeová?"

Se você mora em uma casa, possivelmente já ouviu essa frase em alguma manhã de domingo. São as Testemunhas de Jeová, denominação cristã milenarista conhecida mundialmente pelo trabalho de evangelização que fazem ao ir, literalmente, de casa em casa para falar dos ensinamentos da Bíblia.

Além do chamado "trabalho de campo" realizado de porta em porta, os fiéis também se posicionam em lugares públicos com grande circulação de pessoas para distribuir "A Sentinela" e "Despertai!", impressos gratuitos com ensinamentos religiosos. No entanto, com a pandemia da Covid-19 e, consequentemente, o isolamento social compulsório, Testemunhas de Jeová tiveram de ser rápidas para se adaptar à tecnologia.

Segundo Andre Vieira, porta-voz dos Testemunhas de Jeová do Estado de São Paulo, desde 20 de março as congregações — igrejas chamadas de "Salão do Reino"— fecharam as portas, e o emblemático trabalho de pregação teve de ser suspenso. As ruas e os encontros nas congregações saíram de cena para dar lugar a reuniões por videochamada e o trabalho de campo foi substituído pela ligação celular.

"As Testemunhas de Jeová consideram de extrema importância a proteção da saúde individual e coletiva", explica Vieira, que também é ancião (nomenclatura dada pelos TJ aos pastores) da congregação de Guarapiranga, bairro da zona sul da capital.

"As pessoas, de uma forma geral, estão muito acostumadas com nosso trabalho de evangelização de casa em casa ou em locais públicos, através dos nossos carrinhos e publicações", explica. " [Fazemos] alguns contatos através de celulares e chamadas de vídeo com parentes, conhecidos e vizinhos. Durante esse período de isolamento, não deixamos de ajudar as pessoas a entenderem a situação e nem de fornecer consolo, conforme a ordem bíblica em Atos 5:42."

Andre Vieira, ancião e porta-voz das Testemunhas de Jeová do Estado de São Paulo, diz que fiéis da denominação agora se reúnem através do Zoom para suas reuniões semanais - Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal
Andre Vieira, ancião e porta-voz das Testemunhas de Jeová do Estado de São Paulo, diz que fiéis da denominação agora se reúnem através do Zoom para suas reuniões semanais
Imagem: Arquivo Pessoal

De acordo com o porta-voz, existem mais de 800 mil Testemunhas de Jeová no Brasil, distribuídas em mais de 12 mil congregações espalhadas em todo o território nacional. A determinação é que todos respeitem a quarentena imposta em cada estado e façam suas tradicionais reuniões semanais pelo aplicativo Zoom, reunindo de 100 a 130 pessoas em cada sessão, além de realizar o trabalho de evangelização pelo celular com ligações e mensagens de WhatsApp enviadas para números aleatórios.

"Nosso trabalho consiste em dar esperança e consolo. Essa pandemia acabou afetando a vida de muitos de uma forma inesperada, fazendo com que as pessoas ficassem isoladas e sozinhas. A Bíblia nos ajuda muito a lidar com esses problemas", afirma.

'Objeção de consciência'

Ao redor do mundo, as Testemunhas de Jeová somam oito milhões de seguidores desde sua criação, nos Estados Unidos, por Charles Taze Russell, nas últimas décadas do século 19. Além do trabalho de evangelização, a denominação também é conhecida por um histórico de perseguições e pela recusa dos adeptos em se envolver com política e de prestar serviço militar. Esses atos são chamados de "objeção de consciência".

Na Alemanha nazista, entre as décadas de 1930 e 1940, mais de dez mil membros da denominação foram perseguidos e presos pelo regime por se recusarem a se filiar ao Partido Nazista. Eles se negavam ao alistamento nas Forças Armadas da Alemanha e não declararam lealdade a Adolf Hitler. Eram os "triângulos roxos" nos campos de concentração, onde mais de mil Testemunhas de Jeová morreram entre 1933 e 1945.

Não muito tempo depois da Segunda Guerra Mundial, foram mais uma vez perseguidos pelos mesmos motivos na União Soviética, em 1951, e enviados em massa à Sibéria na chamada Operação Norte. Em outros países, também foram perseguidos em menor escala pelos mesmos fatores, inclusive no Brasil, durante a Era Vargas.

Hoje em dia, apesar de ainda provocar polêmica, especialmente pela recusa de transfusões de sangue, a religião aceitou pacificamente a determinação de governos mundiais e da comunidade científica de que todos devem praticar o isolamento social para evitar o contágio da Covid-19 — mesmo que isso signifique o fechamento temporário das congregações.

No Brasil houve um debate intenso sobre a reabertura de espaços religiosos após o presidente Jair Bolsonaro aprovar um decreto que considera igrejas como atividade essencial. Vieira diz que a política não tem espaço nas reuniões e pregações das Testemunhas de Jeová. "Não entramos nessa discussão, pois é um assunto que envolve saúde pública, e a saúde é algo de extrema importância para nós. Se foi determinado que não poderia haver aglomerações, imediatamente aceitamos, porque a vida, para nós, é importante. Não houve nenhum questionamento, nós aderimos", esclarece.

"Sou rueira"

Essa é a primeira vez em mais de 45 anos que Isis Ribeiro de Souza deixa de sair às ruas para fazer trabalho de campo. Aos 76 anos, a professora de Português aposentada agora busca outras maneiras de continuar se dedicando à sua fé durante a pandemia. "Não vou mentir e dizer que não gosto de sair", conta Souza ao telefone, isolada há mais de 40 dias em seu apartamento. "Sou rueira, mas temos que nos adaptar à situação", conta.

Na foto, Isis Ribeiro de Souza (esquerda), está ao lado de uma "irmã" também Testemunha de Jeová fazendo o típico trabalho de evangelização da denominação religiosa antes da pandemia - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Na foto, Isis Ribeiro de Souza (esquerda), está ao lado de uma "irmã" também Testemunha de Jeová fazendo o típico trabalho de evangelização da denominação religiosa antes da pandemia
Imagem: Arquivo pessoal

Impossibilitada de bater perna e conversar com as pessoas ao vivo, Souza é uma das Testemunhas de Jeová que telefona para desconhecidos para realizar o trabalho de evangelização que normalmente faria na rua. "Ligamos aleatoriamente para transmitir uma mensagem positiva, porque todos estamos no mesmo barco, independentemente de religião. Gosto muito também de escrever, e já escrevi 160 cartas. Estamos agora envelopando tudo, colocando os destinatários, e quando essa situação toda der uma melhorada vamos sair para entregar nos prédios, para que as pessoas recebam a mensagem por meio das cartas".

Das reuniões semanais — são duas por semana — Souza participa por meio das transmissões via telefone, enquanto ainda não possui um celular mais moderno para usar o Zoom. Por ora, a professora aposentada afirma ter sido bem recebida pelas pessoas. "Até que me atenderam bem! Uns gostaram, e ficamos de talvez voltar a conversar. Não insistimos em nada nessas ligações, até porque se nem Jeová obriga os outros a nada, por que, então, nós faríamos isso?"

Errata: o texto foi atualizado
A primeira versão deste texto afirmava que o grupo tinha como fundador Joseph Franklin Rutherford. Na realidade, o primeiro a dar origem ao grupo foi Charles Taze Russell. Rutherford deu nome ao grupo, já no século 20.