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As odisseias de Ulisses Utida, um nadador brasileiro do outro lado do mundo

Depois de ver naufragar o sonho de uma vaga na Olimpíada de Pequim (2008), Ulisses Utida se tornou operário no Japão, venceu torneio inédito e agora treina para ultramaratona aquática - Rodrigo Sicuro/UOL
Depois de ver naufragar o sonho de uma vaga na Olimpíada de Pequim (2008), Ulisses Utida se tornou operário no Japão, venceu torneio inédito e agora treina para ultramaratona aquática
Imagem: Rodrigo Sicuro/UOL

Juliana Sayuri

Colaboração para o TAB, de Kosai (Japão)

08/02/2021 04h00

Fazia 6°C na manhã de 30 de janeiro, um sábado de sol com sensação térmica de 0°C e ventos de mais de 25 quilômetros por hora. Nevara na noite anterior, um fato incomum no inverno historicamente ameno da cidade industrial de Kosai, na província japonesa de Shizuoka. A pequena praia de Arai Benten, uma pontinha de areia branca aberta ao Oceano Pacífico, estava deserta. Ou melhor, quase deserta. "O mar... O mar é meu destino", definiu Ulisses Utida, 36, enquanto caminhava pela orla.

Ex-nadador profissional, Ulisses está treinando para nadar o estreito de Tsugaru, trecho de 19,5 quilômetros de largura entre as ilhas de Honshu e Hokkaido que liga o mar do Japão ao Oceano Pacífico. É uma das sete maiores travessias em mar aberto do mundo, o circuito conhecido como "Ocean's Seven" — as outras seis são os estreitos de Cook (Nova Zelândia) e de Gibraltar (entre Espanha e Marrocos), e os canais do Norte (entre Escócia e Irlanda), da Mancha (entre França e Inglaterra), de Catalina (entre Ilha de Santa Catalina e Los Angeles) e de Moloka'i (Havaí).

Desde 2008, quando se consolidou o circuito de ultramaratona aquática, apenas 21 nadadores conseguiram cruzar os sete pontos, segundo dados da LongSwims Database. E, desde 1990, 52 conquistaram Tsugaru, passagem imprevisível lembrada por tubarões, tempestades e fortes correntezas que pode durar mais de 15 horas.

Dois japoneses cravaram recordes nessas águas disputadas: a mais jovem a cumprir o trajeto (Honoka Hasegawa, aos 17 anos) e o mais velho (Toshio Tominaga, aos 73 anos), ambos no verão de 2016. Ulisses pretende tentar a travessia no verão de 2022 e, quem sabe, tornar-se o primeiro brasileiro a realizar a proeza. A 17 meses da aventura, ele treina na piscina da Hamanako Swimming School e na praia de Arai Benten, onde encontrou a reportagem de TAB.

Utida em Kosai, na província japonesa de Shizuoka - Rodrigo Sicuro/UOL - Rodrigo Sicuro/UOL
Utida em Kosai, na província japonesa de Shizuoka
Imagem: Rodrigo Sicuro/UOL

Jornada do herói

Já foi uma odisseia até aqui. De Panorama, cidadezinha de 15 mil habitantes no interior de São Paulo, Ulisses foi nadador profissional na juventude, passando por cidades como Presidente Prudente, São Paulo e Santos. Treinado por Ricardo Prado entre 1999 e 2001, medalhista de prata nos 400 metros medley dos Jogos Olímpicos de Los Angeles (1984), Ulisses passou por clubes como Hebraica (São Paulo) e Santa Cecília (Santos), participou do Troféu Brasil e chegou a tentar seletivas para os Jogos Pan-Americanos do Rio (2007) e a Olimpíada de Pequim (2008). Mas naufragou: "A do Pan, nem concluí a prova, não consegui, passei mal", lembra.

Na casa dos 20, sob pressão, ele sucumbiu a uma depressão profunda e teve síndrome do pânico. "Uma noite, em Santos, pisei o pé no mar de madrugada. Minha vontade era me jogar, não pra deixar a onda me levar, mas pra nadar longe, longe, longe até o Japão", conta. Não muito tempo depois, ele se afastou das piscinas e voltou para a casa dos pais, no interior paulista.

Lá, tirou da gaveta o livro "Revolution 9", uma biografia da nadadora brasileira Renata Agondi, que morreu aos 25 anos tentando cruzar o canal da Mancha, em agosto de 1988. A morte marcou a época e provocou mudanças importantes nas regras para maratonas aquáticas. "É interessante o destino. Acredito que posso fazer meu caminho, trocá-lo, mas eu vou ter que passar por certas coisas que estão escritas no destino, que não dá pra fugir. Entende?", ela escreveu no diário, por ela própria intitulado "Revolution 9", em junho de 1984, uma referência a uma música dos Beatles.

Ulisses entendeu. Embora tenha ficado um tempo sem molhar os pés na água (e engordado a ponto de passar dos 110 quilos, o que julgava demais para seu 1,74 metro de altura), inspirou-se para voltar a nadar, mas, desta vez, noutro estilo e sem tantas cobranças dos outros.

"Foi, foi, foi vingando, até que voltei a nadar de verdade. Por mim", relata. Primeiro, ele foi a nado até a Ilha do Mel, a cerca de 22 quilômetros de Paranaguá, no Paraná. Depois, fez 43 quilômetros entre os portos de Antonina a Paranaguá, o que levou cerca de 10 horas e 33 minutos. Segundo ele, uma maratona aquática depende "60% do psicológico e 40% do físico".

"Sempre estivemos dentro d'água. É uma família aquática", Paulo Roberto dos Santos, o pai de Ulisses, definiu à TV Fronteira, que noticiou um treino de Ulisses de 12 horas no rio Paraná, em 2017. Ex-nadador, Paulo também já fez suas façanhas: em 1997, entrou no Guinness Book como o primeiro a nadar 138 km direto no rio Paraná, zarpando de Castilho, em um 30 de abril, e ancorando em Presidente Epitácio no dia 1 de maio de 1996.

Do outro lado do mundo

A maré virou de novo em 2017. Foi quando Ulisses (à época Carvalho dos Santos) encontrou a nutricionista nikkey Janaína Utida, que o motivou a retornar às competições. Eles se conheceram em fevereiro e se casaram em setembro, lembra ela, conferindo a data na aliança que leva no anelar esquerdo.

"Ele é mais aventureiro, 'tudo ou nada'. Eu sou mais 'foca e faz'", diz Janaína, 34. "Ela me motiva demais. Foi 'o plus' para minha volta", diz Ulisses. Em novembro, ele participou da travessia aquática 14 Bis, 24 quilômetros de Bertioga a Guarujá, no litoral paulista -- ficou em 10º lugar, com 5 horas e 44 minutos.

Em 2018, o casal cogitou tentar a sorte no Japão, trabalhar por um tempo e voltar ao Brasil. Em 2019, imigraram de verdade, como dekasseguis (trabalhadores temporários). Ulisses incorporou o sobrenome da família japonesa de Janaína, Utida, e tocou o barco.

Ulisses e a esposa Janaína Utida - Rodrigo Sicuro/UOL - Rodrigo Sicuro/UOL
Ulisses e a esposa, Janaína Utida
Imagem: Rodrigo Sicuro/UOL

Kosai foi a cidade escolhida pelos ienes, isto é, os salários mais altos das fábricas ali. Janaína trabalha em uma fábrica de autopeças; Ulisses, na linha de montagem de motores da Suzuki, no sistema "nikotai", de turnos alternados -- uma semana durante o dia, uma semana à noite e assim por diante. "Se estou de 'yakin' [turno noturno], treino na piscina a partir das 12h30, duas horas se consigo rodar. No 'hirukin' [turno diurno], a janela é das 18h30 às 20h. Também faço 40 minutos de treinamento funcional", diz. Nos finais de semana de tempo bom, Ulisses prefere treinar no mar. Antes de encontrar o TAB, ele tinha trabalhado das 5h da tarde de sexta-feira às 2h da manhã de sábado, "uma jornada tranquila até", segundo suas palavras.

Foi graças a um amigo, também operário e brasileiro, que Ulisses descobriu um clube aberto para treino. "Um clube japonês que aceitaria um brasileiro, não-descendente e tatuado", frisa ele, que conta mais de 20 tatuagens no corpo -- entre elas, as palavras "maratona aquática" riscadas nos antebraços.

"Nadar é propósito. Sei que o tempo de tentar ser atleta olímpico já passou, tenho pé na realidade. Sei que tenho limites e barreiras. Nadar não me paga contas, mas me pede investimento. É nadando que sou feliz. É o que faz tudo valer a pena", pondera.

Na casa dos 30, já enquadrado na chamada categoria "master" (como ele diz, a dos "não tão jovens"), o brasileiro arriscou e se afiliou à federação japonesa. Depois de inspeções relacionadas às tattoos (tabu no Japão, onde muitos endereços, como clubes, estâncias termais e piscinas públicas costumam proibir a entrada de tatuados), ele foi liberado e, ao fim, escolhido pelo clube da Hamanako para participar de um torneio nacional de natação em Hamamatsu, no fim de 2019. Venceu e levou duas medalhas de ouro para casa.

Em 2020, a pandemia foi um respiro para o novato-veterano que, na condição de imigrante, entre Suzuki e Swimming School, se desdobra para nadar contra a corrente — um tempo sem competições para que ele pudesse se programar e treinar para Tsugaru. "Japão é totalmente diferente do Brasil, um tanto hostil até. Mas cá estou, nadando de novo."

A baía de Kosai, na província japonesa de Shizuoka - Rodrigo Sicuro/UOL - Rodrigo Sicuro/UOL
A baía de Kosai, na província japonesa de Shizuoka
Imagem: Rodrigo Sicuro/UOL

Dos atuais 87-88 quilos, ele quer voltar a 80. "Na piscina, precisa ficar fino. Para águas abertas, geladas, precisa ficar mais forte, com uma certa porcentagem de gordura para equilibrar a temperatura e manter o corpo quente. São condições diferentes", diz Ulisses, que aderiu à dieta japonesa de arroz branco, chá verde e peixes, sob supervisão de Janaína.

Das odisseias de Ulisses (Utida), uma narrativa não-linear entre nadar, desistir, mergulhar na depressão, voltar a nadar, migrar como operário, virar-se para ser aceito para treinar e voltar a ser atleta, vencer campeonato e se aventurar mais uma vez, falta a trama do regresso. Na "Odisseia" original, o clássico épico da Grécia antiga atribuído a Homero, Odisseu (Ulisses) enfrenta uma longa jornada para voltar para casa após a Guerra de Troia. Mas voltar ao Brasil, por enquanto, não está no horizonte. "É deste lado do mundo que está meu destino."