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'Deus me usou', diz prefeito que chorou em live após mortes de pai e irmão

Márcio Melo Gomes, prefeito de Mongaguá (SP), fala em seu gabinete segurando um terço na mão direita - Avener Prado/UOL
Márcio Melo Gomes, prefeito de Mongaguá (SP), fala em seu gabinete segurando um terço na mão direita
Imagem: Avener Prado/UOL

Rodrigo Bertolotto

Do TAB, em Mongaguá (SP)

09/04/2021 04h01

"Não foi o Márcio. Eu não teria a força de mandar essa mensagem para o Brasil todo. Naquele momento, eu fiz a vontade Dele, não a minha. Fui um instrumento de Deus. Ele está me usando para conscientizar."

Um nó na garganta e uma lágrima no olho surgem em cada pessoa que vê a live oficial em que Márcio Melo Gomes, prefeito de Mongaguá (SP), fala das mortes recentes de seu pai e seu irmão e da necessidade de priorizar as vidas antes da economia.

Católico fervoroso, ele usa máscara com imagem de Nossa Senhora Aparecida. Na mão direita, segura um terço que não larga há três anos. O gabinete todo tem imagens e orações de santos como São Miguel Arcanjo, São Cristóvão, São José, São Bento e Santa Faustina. Há também uma pilha de folhetos com o Salmo 91, que fala: "mil cairão ao teu lado, e dez mil à tua direita, mas tu não serás atingido" pela "peste que anda na escuridão".

"Eu não ia te mostrar, mas, já que falou da questão espiritual, olha esse vídeo." Na sequência, ele pega o celular e reproduz um trecho da oração online que o padre Roger Luis fez às 4h da manhã do dia 26 de março, véspera da morte de seu irmão. "Eu quero dizer ao prefeito que está orando conosco nessa hora, a partir de agora o Senhor fará uma grande obra de transformação na sua vida. Deus te usará poderosamente", disparou o religioso, sem saber que entre os mais de 250 mil espectadores estava o político caiçara.

Para muitos, poderia ser apenas uma coincidência. Para ele, foi um sinal. Depois, uma sequência de fatos levou Márcio ao comovido pronunciamento que viralizou nas redes e gerou dezenas de entrevistas na mídia. "Aqui falando com você já me segurei para não chorar. Eu trocaria essa fama para ter meu pai e meu irmão de volta. Não quero comover ninguém, não quero emocionar com minha dor. Só quero que as pessoas entendam a gravidade do problema."

O prefeito de 43 anos perdeu o pai no dia 20 de março e o irmão uma semana depois. De luto, adiou várias vezes seu costumeiro pronunciamento pelos canais online da prefeitura, para informar as ações e orientações durante a pandemia. No último dia 30, marcou a live.

"Você pega a íntegra e vê que foi uma live técnica, focada. Minha ideia era só agradecer no final às demonstrações de apoio. Ali era o Márcio prefeito, que tem de governar uma cidade com 56 mil habitantes que não têm nada a ver com minha dor."

Tudo mudou depois de aparecer na tela um comentário de um opositor, dizendo que a medida municipal de fechar parte do comércio era "de propósito" para prejudicar os empresários. "Foi uma fala maldosa, de alguém que queria alimentar o ódio. Naquele momento perdi o controle. Juntou tudo que eu estava vivenciando. Estava destruído emocionalmente. Foi um desabafo."

Instrumento divino

Na manhã seguinte, seu filho avisou que alguém tinha postado o trecho emocionado no Twitter e estava viralizando em todas as redes sociais. Pouco depois, as TVs e os jornais ligavam para a assessoria de imprensa da prefeitura atrás de entrevistas. De início, ele recusou.

"Não queria falar, porque estava sofrendo muito. Mas à tarde estava orando com meu tio, que é padre, e ele tocou no assunto e disse: 'Deixa Deus te usar'. Percebi que Deus aproveitou esse momento para sensibilizar as pessoas de todos os cantos", relata.

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Márcio Melo Gomes, prefeito de Mongaguá, no litoral sul de São Paulo, reza durante expediente em seu gabinete
Imagem: Avener Prado/UOL

Além do tio padre, ele tem duas tias freiras. Vai ao santuário de Aparecida mensalmente há uma década e também faz peregrinação três vezes ao ano para a cidade de Bandeirantes, no Paraná, onde há um culto de teor carismático a São Miguel Arcanjo.

Durante a quaresma, acordava diariamente às 4h para acompanhar pela internet a vigília comandada por frei Gilson, da comunidade dos Freis Carmelitas mensageiros do Espírito Santo. Só se ausentou por dois dias. "Depois da morte de meu irmão, eu fiquei revoltado. Como qualquer ser humano, sou falho e senti muita raiva. 'Por que comigo? Por que tinha que sofrer essa dor insuportável?', eu ficava me perguntando. Mas quem somos nós para querermos uma explicação de Deus? Depois voltei aos meus compromissos e à minha fé."

Católico entre evangélicos

O rosário saiu de seu bolso e foi parar definitivamente na sua mão em 2018, quando uma investigação sobre desvio de verba para a merenda escolar afastou o então prefeito. Márcio, que era o vice, assumiu a prefeitura, mas acabou também sendo investigado. "Só semana passada saiu a última decisão sobre minha inocência. Foi uma avalanche, um momento de provação e fé", diz.

Ele foi vereador por dois mandatos e depois vice-prefeito duas vezes, até o escândalo alçá-lo à condição de mandatário municipal. Em 2020, foi reeleito para o cargo. Antes ele deixou o PSDB e se candidatou pelo Republicanos, partido ligado à Igreja Universal do Reino de Deus. Márcio afirma que explicou bem aos líderes evangélicos que era "extremamente católico". "Atualmente, eles estão mais abertos para outros direcionamentos. Partido é a mesma coisa que religião: há muitas posições diferentes dentro de cada denominação", resume.

Durante a entrevista ao TAB, ele avisou que em algum momento iria parar para rezar, o que aconteceu após duas reuniões com seus auxiliares. "No meio político, quando você está bem, tem 10 mil pessoas do seu lado, mas no momento em que eu mais precisei, no meio daquele rolo todo, somente Deus segurou minha mão."

A partir daquele momento, cumpre um ritual de orações e vigílias que já entraram no cronograma de seus compromissos. "Não sou melhor que ninguém, não sou anjo, não sou perfeito, muito pelo contrário. Mas decidi não ter vergonha do meu Deus e da minha fé."

O espírito e a carne

Márcio foi coroinha na igreja matriz de Mongaguá. Também na infância, começou a ajudar o pai no açougue da família. "Aos nove anos, já estava no caixa. Depois aprendi a desossar, cortar as carnes. Já tive restaurante, mercadinho, fui representante de frigorífico. Como meu pai, sempre fui comerciante e político", lembra.

Vindo de Sergipe, Givaldo se estabeleceu no balneário paulista e foi eleito vereador. Ultimamente, o pai morava em Peruíbe, onde tinha uma pousada, e morreu no hospital regional de Itanhaém. O irmão de Márcio, também chamado Givaldo, tinha um restaurante em Mongaguá e morreu na Santa Casa de Santos. "Com essa doença, não adianta você ter dinheiro ou não, você vai morrer. Meu pai foi internado pelo SUS em hospital público. Meu irmão tinha plano de saúde e morreu do mesmo jeito."

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Diante de cartaz de Jesus Cristo, o prefeito de Mongaguá (SP), Márcio Melo Gomes, reza terço da misericórdia após reuniões em seu gabinete
Imagem: Avener Prado/UOL

Ele lembra do esforço para que o irmão de 33 anos, consciente na UTI e com celular sempre à mão, não soubesse da morte do pai, de 64. "Meu pai era muito querido, e muita gente queria fazer homenagem. Ficamos atrás para que as pessoas não postassem nada ou deletassem para a notícia não chegasse e abalasse meu irmão. Mesmo assim, ele piorou e se foi."

A chuva bate na janela do gabinete do prefeito. Lá fora tudo cinza no céu e no mar. Fora de temporada e com o comércio fechado, Mongaguá parece uma cidade fantasma. Dentro, Márcio reza diante de uma vela acesa. Repete dezenas de vezes a frase: "Pela sua gloriosa paixão, tenha misericórdia de nós e do mundo inteiro".


Fervor eleitoral

O político devoto diz que o problema atual do Brasil é o fanatismo político. "O presidente errou grotescamente com relação à vacina no início. Mas precisamos virar a página, e vamos atrás da maior quantidade possível de vacina. As pessoas estão se matando politicamente porque ano que vem tem eleição, com políticos e juízes querendo um aparecer mais que o outro. Não estão pensando no presente", avalia.

Márcio diz que faltou união e direcionamento na pandemia, principalmente no falso dilema entre salvar CPFs ou CNPJs. "Sem vida não tem economia. Ela vem em primeiro lugar. Meu próprio irmão me criticou por fechar o comércio, mas tive que fazer. Se as pessoas usassem máscara e álcool em gel e mantivessem o distanciamento, poderíamos reabrir, mas muita gente não obedece."

Mongaguá deve aumentar de R$ 80 para R$ 150 o auxílio emergencial municipal para mais famílias carentes — hoje são 200 famílias atendidas, e o número vai passar para R$ 500, nos próximos meses. Além da pandemia, o começo da baixa temporada é tempo de poucos recursos por lá. Quando a região metropolitana de São Paulo decretou feriado prolongado de dez dias, Mongaguá, como outras cidades da Baixada Santista, reforçou as barreiras sanitárias nas entradas e as restrições ao comércio para afugentar os turistas vindos da capital (hoteis fechados, praias interditadas e até supermercados com horário reduzido). A mensagem é evitar a transmissão do vírus.

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Gaivotas formam a única aglomeração na praia de Mongaguá (SP) durante dia nublado fora da temporada de veraneio
Imagem: Avener Prado/UOL

Ao lado da prefeitura, um parque de diversões está às moscas. Uma faixa nos cavaletes diz: "Proteja quem você ama". Atrás dela, está a atração "Drácula e Cia" com desenhos de zumbis, caveiras e demônios. Eles não botam mais medo que o monstro pequenino que está levando milhares de vidas diariamente.

Márcio diz que sua missão é evitar que outras famílias vivam tragédias semelhantes à sua. "Dor não se discute, não se compara. Durmo e acordo chorando, mas tenho que reconfortar minha mãe, minhas irmãs, minha cunhada e minhas sobrinhas. Sou obrigado a ser forte."