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Excluído da Rappi por acusação falsa de furto, motoboy fez faxina por R$ 30

Diego Fernando de Almeida (ele prefere não mostrar o rosto), motoboy que recebeu indenização da Rappi por acusação falsa de furto - Fernando Moraes/UOL
Diego Fernando de Almeida (ele prefere não mostrar o rosto), motoboy que recebeu indenização da Rappi por acusação falsa de furto Imagem: Fernando Moraes/UOL

Felipe Pereira

Do TAB

30/04/2021 04h01

Como você reagiria a uma injustiça? O motoboy Diego Fernando de Almeida, 32, fez esta descoberta ingrata em outubro de 2020. O corpo respondeu com lágrimas e tremedeira à acusação velada de que era ladrão. Com a mulher grávida de sete meses, ter o nome limpo era requisito mínimo para a educação que pretendia dar à filha que estava chegando.

De nada adiantou fazer textão para explicar como tudo não passou de um mal-entendido na portaria de um prédio em São Paulo. Laís nasceu com o pai excluído da Rappi, aplicativo de entregas, por suspeita de furto. A família estava falida. Devendo para bancos e parentes, Diego não tinha dinheiro para pagar o Uber da maternidade até em casa.

A angústia começou ao entregar remédios para o porteiro de um prédio. A sacola não chegou ao destinatário: foi largada num balcão. O cliente acionou a Rappi e Diego voltou ao local para tirar a situação a limpo. Ouviu do síndico a insinuação de que teria surrupiado os produtos. Quando a confusão foi desfeita e os medicamentos, encontrados, não houve pedido de desculpas do síndico.

Deselegâncias à parte, o motoboy provou sua idoneidade. Mas nem isso bastou para romper a cadeia de notícias ruins. Antes mesmo de a situação ser esclarecida, a Rappi excluiu o motoboy de sua plataforma.

Enquanto chorava e tremia num banco perto do prédio, Diego escreveu uma mensagem contando o ocorrido em pormenores e pedindo recadastro no aplicativo. Foi ignorado. Restou ir à Justiça e o veredicto deu razão a ele. O juiz determinou indenização por dano moral e lucro cessante.

Diego não quis mostrar o rosto nas fotos para evitar exposição e preservar a privacidade da família. A empresa foi procurada e não quis se manifestar sobre o processo.

Diego, o motoboy - Fernando Moraes/UOL - Fernando Moraes/UOL
Imagem: Fernando Moraes/UOL

Data inesquecível

A história toda foi tão marcante que Diego narra com riqueza de detalhes o dia 21 de outubro do ano passado. O motoboy conta que estava na rua Frei Caneca quando apareceu uma corrida para pegar remédios numa farmácia, distante 900 metros. A remuneração era de R$ 4,84, o que não é mau negócio neste ramo. Ele lembra até da encomenda: Litocit 10 mg, um remédio para o rim; e citrato de sildenafila 50 mg, o popular Viagra.

A proximidade da farmácia permitiu chegar rápido ao prédio. Diego interfonou e o porteiro pediu que ele deixasse o pedido de quase R$ 200 no balcão. O motoboy continuou fazendo entregas para a Rappi durante a tarde e, perto das 18h30, o cliente que encomendou os medicamentos ligou.

"Diego, eu não recebi a encomenda. O porteiro falou que você não entregou."

O motoboy terminava uma corrida perto do estádio do Morumbi e ficou desconfiado. Ao encerrar o serviço, confirmou a suspeita: estava bloqueado na Rappi. Voltou ao prédio e conversou com outro porteiro — já era outro, por causa da troca de turno.

O homem falava que não sabia de encomenda. Diego pediu para chamar o síndico do prédio, que se negou a arbitrar o impasse. Recusou o pedido do motoboy para consultar as imagens das câmeras. O argumento foi de que a gravação provaria, no máximo, a entrega de uma sacola que poderia ter algo diferente dos remédios encomendados. Neste momento o motoboy percebeu a insinuação de ter surrupiado os produtos. Sentiu o desconforto de ser considerada mau-caráter.

Diego, o motoboy - Fernando Moraes/UOL - Fernando Moraes/UOL
Imagem: Fernando Moraes/UOL

Enquanto Diego insistia, outro motoboy da Rappi chegou com remédios para o mesmo cliente. Eram os medicamentos e o colega permitiu que fossem fotografados. Terminadas as fotos, o porteiro procurou embaixo do balcão onde trabalha e encontrou os remédios entregues mais cedo por Diego.

O cliente se desculpou por ter acionado a Rappi e afirmou que escreveria à empresa contando que foi um mal-entendido. O motoboy não sabe se a promessa foi cumprida, mas sabe muito bem que o aplicativo foi avisado por ele da situação.

Como a comunicação com a tela do celular não resolveu, na semana seguinte Diego foi à sede da empresa para falar com um ser humano. Explicou, mostrou print da tela e saiu com a promessa de que o caso seria avaliado. Historinha. Nunca foi contatado.

Dívidas se acumulam

A cabeça fervia por causa das contas. O motoboy paga prestação de R$ 500 da moto e as despesas com aluguel, luz e água consomem mais R$ 700. Ainda havia os gastos com exames pré-natal e montagem de enxoval.

Na Rappi, ele tinha corridas a todo momento. Excluído, Diego saiu se cadastrando em todos os aplicativos de entrega, dos conhecidos iFood e Uber Eats aos obscuros. Também começou a fazer bicos de faxina. O desespero não permite ser seletivo: ele limpou apartamento por R$ 30. Nem assim conseguia chegar perto da renda anterior.

Passada uma semana da visita à sede da empresa, estava claro que a Rappi não tomaria providências. Um amigo sugeriu entrar na Justiça e passou o telefone de um escritório de advocacia. Conselho seguido, mas a ação ia demorar e a necessidade de dinheiro era urgente.

"Eu pedi R$ 500 emprestados para meu pai. Minha filha nasceu em 11 de dezembro no [hospital do] M'Boi Mirim e eu não tinha dinheiro para fazer um lanche enquanto esperava a cesariana. Liguei para um primo e pedi dinheiro emprestado. Ele me deu R$ 100. Com o dinheiro, pude pagar o Uber para levar minha mulher e filha para casa."

Apelando para o cartão

Estágio final de gravidez é um momento muito sensível e exige dinheiro para fazer frente às necessidades. Diego apelou para o cartão de crédito. Usou todo o limite que tinha e o cartão da mulher. Acumulou dívida de quase R$ 5 mil, mas deu a Laís tudo de que a bebê precisava.

Mas a situação saiu do controle. Diego tem pais, ex-mulher e dois filhos morando em Sergipe. No começo do ano, ele atrasou o pagamento da pensão dos meninos. Explicar a delicadeza do momento não sensibilizou a ex-mulher. Uma conselheira tutelar ligou avisando que era uma dívida que dá cadeia. Antes de o risco de prisão se tornar maior, o motoboy quitou a obrigação.

Sua situação financeira e emocional teve alívio em 22 de abril, data da decisão judicial. O juiz Christopher Alexander Roisin foi contundente em sua decisão quanto à responsabilidade do condomínio e da Rappi no martírio experimentado por Diego.

"Tivessem sido mais diligentes os prepostos do condomínio, o cliente não teria estado em erro e não reportaria a subtração das mercadorias à ré Rappi que, por isso, não bloquearia o autor de sua plataforma. Assim, sua responsabilidade [do condomínio] pelo evento é inequívoca. Melhor sorte não tem a ré Rappi. Intransigente, iníqua, bárbara. Ignora o sacrossanto direito de defesa do entregador e mesmo a prova de sua inocência."

Assustando o frentista

O advogado ligou para Diego, que trafegava de moto pela marginal Pinheiros e não atendeu. Quando parou num posto de combustível, encontrou o tão aguardado áudio de WhatsApp. A mulher estava na carona e os dois comemoraram juntos. O motoboy rezou todos os dias e se excedeu nos agradecimentos.

"Eu comecei: 'Glória a Deus! Glória a Deus! Glória a Deus'. Falava tão alto que assustei o frentista do posto."

O juiz determinou pagamento de R$ 10 mil por dano moral e R$ 51 por lucro cessante no período em que Diego foi excluído do aplicativo — de 21 de outubro até 26 de abril. Os cálculos do advogado apontam indenização de cerca de R$ 20 mil.

A Rappi e o condomínio têm 15 dias para entrar com recurso. Caso desistam da ação, ambos têm outros 15 dias para depositar a quantia. O motoboy afirmou que passou tanto nervoso que deveria receber mais. Mesmo assim, está contente em poder pagar as dívidas e sonha em dar entrada numa casa. Ele mora na Cidade Ipava, bairro do extremo sul de São Paulo, na região da represa Guarapiranga.

Diego admite que muitas vezes temeu pelo desfecho. Ele considera que a Justiça brasileira favorece os poderosos e endinheirados. O motoboy comemora estar errado e agradece ao amigo que entregou um cartão do advogado. O caso ficou aos cuidados de Arthur Bicudo Furlani.

O advogado conta que, no primeiro contato, percebeu que Diego estava bastante emotivo com a exclusão do aplicativo e a insinuação de que era ladrão. O exame de prints, fotos e documentos mostrava que ele tinha razão. A situação é classificada como um grande mal-entendido pelo advogado. Mas a consequência é um grande aprendizado.

Bicudo Furlani considera que os motoboys ficarão mais atentos a seus direitos. Os aplicativos serão forçados a ter mais cuidado com os prestadores de serviço.

Diego admite que já passou por sua cabeça ir ao prédio e falar para o síndico e o porteiro que está provado que não é ladrão. Mas seria um erro se apegar ao passado. Melhor é olhar para frente. Laís está para completar quatro meses.