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Conduzindo a morte: chefe da frota do IML tem vida dupla como cantor

Edilton Azevedo é o coordenador da recolha de corpos do Instituto Médico Legal de São Paulo - Fernando Moraes/UOL
Edilton Azevedo é o coordenador da recolha de corpos do Instituto Médico Legal de São Paulo
Imagem: Fernando Moraes/UOL

Rodrigo Bertolotto

Do TAB

26/04/2021 04h01

Sua versão de "Quero que vá tudo pro inferno", de Roberto Carlos, não pode faltar no repertório dos shows. Mas o destino das almas dos mortos não está entre as tarefas do cantor Ed Azevedo. Seria acumular função demais. Afinal, ele já se ocupa de seus corpos, como coordenador da frota do IML (Instituto Médico Legal) de São Paulo.

Outra noite quem morreu foi o próprio carro de transporte, com quatro cadáveres no baú. Como os demais veículos estavam longe, o telefone dele tocou enquanto dormia. Vizinho do IML Central, atravessou a rua Teodoro Sampaio, no bairro de Pinheiros, pegou um carro e foi ao resgate. "Aqui não tem sábado, domingo nem dia santo. Pra mim, não existe horário. É cada bucha na minha mão, meu amigo", resume o baiano Edilton José Barros Azevedo, 30 anos na colheita de finados.

Com oito discos gravados, inclusive com duetos com o ídolo popular Odair José, ele diz que só não realizou seu sonho de juventude de fazer sucesso como artista porque "não estava no lugar certo na hora certa". A música virou hobby. E Azevedo foi trabalhar com quem "estava no lugar errado na hora errada": todas as mortes violentas ou com suspeita de crime na megalópole são transportadas pela equipe dele.

"Senti o impacto no começo. Depois, passa a ser rotina. Felizmente, nunca tive problemas psicológicos. Nem sonho com o que vejo no expediente. Mas alguns colegas sofrem, se deprimem e pedem afastamento", relata.

Tentando por vezes a sorte em programas de calouros, Azevedo foi corretor de imóveis até os 27 anos, quando um delegado amigo seu avisou que havia um concurso público para "agente policial para a recolha de corpos". Estudou, foi aprovado e passou a ganhar a vida conduzindo a morte. Até que, um dia, os papéis se invertam. "Morrer é uma certeza para todos. Não me preocupa nem me incomoda."

Pretérito mais-que-perfeito

Em seu escritório no primeiro andar do IML, a mesa é cercada por pacotes e mais pacotes de papel toalha, luvas descartáveis, EPIs (os equipamentos de proteção individual, essenciais em tempos de pandemia) e sacos para transportar corpos (de dois tipos, um comum e outro reforçado, para casos já em decomposição).

Na tela do computador piscam 12 serviços que estão em andamento, entre eles, três suicídios e uma "morte suspeita" em um motel. Na comunicação oficial, os corpos são chamados de "talões", e cada um tem uma numeração. No jargão da repartição, "abrir o talão" é receber o pedido de retirada, e "fazer o talão" significa efetuar a recolha do cadáver.

Chefe da recolha de corpos do IML - Fernando Moraes/UOL - Fernando Moraes/UOL
Em seu escritório no IML, Edilton Azevedo acompanha pela tela do computador os casos em andamento de recolhimento de cadáveres
Imagem: Fernando Moraes/UOL

Há 11 anos, Azevedo passou a ser o chefe, comandando uma equipe de 45 agentes que trabalham em turnos de 12 horas. A frota de 16 veículos com tração 4x4 tem a inscrição "polícia científica" nas laterais. "Não queria nada de IML ou rabecão na lataria para não baixar ainda mais o astral dos familiares, justo quando vivem o pior momento de suas vidas", explica.

Dois carros são adaptados para levar obesos, sem grades dividindo o baú e com a maca de aço inoxidável com o dobro da largura. "Temos cada vez mais casos em que precisamos chamar os bombeiros para ajudar com a escada magirus e até quebrar a janela, porque o falecido tem mais de 300 quilos e não entra no elevador."

Há quatro equipes diurnas e quatro noturnas. Em média, cada uma busca sete corpos por jornada. Quando está movimentado, são até 14. Mas, em dias trágicos, como o de 17 de julho de 2007, com a colisão de um avião em prédio vizinho ao aeroporto de Congonhas, que vitimou 199 pessoas, o trabalho se multiplica. "Ficamos dez dias seguidos sem voltar para casa", lembra.

Em duas outras tragédias aéreas, Azevedo saiu do gabinete e acompanhou no local o resgate dos corpos do presidenciável Eduardo Campos, em 2014, e de Thomaz Alckmin, filho do então governador Geraldo Alckmin, morto em acidente de helicóptero em 2015. "Quando o caso é de repercussão, eu sigo de perto para que dê tudo certo."

A covid-19 faz recordes diários, mas o movimento no IML diminuiu após a quarentena. "Com as pessoas mais em casa e os bares restritos, não tem tanta gente bebendo, brigando, atropelando e causando acidente. Eu calculo que, desde abril do ano passado, reduzimos em 25% nossos atendimentos", conta o coordenador.

Os vivos e os mortos

A maior parte do atendimento do IML é para pessoas vivas, para fazer exames de lesões corporais, violência sexual, sanidade mental, entre outros. Os mortos demandam 30% do serviço.

Por lei, há três situações que exigem necropsia por lá: morte violenta, suspeita de crime e falecimento natural de pessoa não identificada. Como o instituto é da Polícia Civil, os resultados das análises fazem parte das investigações em curso.

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Edilton Azevedo está há 30 anos no serviço de recolha de corpos do IML de São Paulo
Imagem: Fernando Moraes/UOL

Por vezes, a retirada do corpo se dá em meio a ameaças. Isso acontece quando há algum assassinato cometido por facção criminosa, e o defunto na rua serve de recado para o entorno.

"Se há resistência, levamos um papo, explicamos que recolher a pessoa é um ato administrativo e um direito legal. Se a marra continuar, pedimos apoio da Polícia Militar. Nossos agentes têm treinamento e estão armados, mas prefiro um carregador vivo que um policial morto. Não adianta dar uma de valentão diante de bandidos com metralhadoras e fuzis", avalia Azevedo, que se formou em Direito depois de se tornar funcionário público.

Ele encomendou um uniforme para sua equipe com jaqueta onde se lê a inscrição "polícia científica" nas costas. A vestimenta também pode ser usada do avesso, sem nada escrito, para evitar virar alvo em locais perigosos.

Sem cantar no serviço

Se o cotidiano de Azevedo inspiraria mais letras de death metal, sua arte vai pelo caminho contrário, em direção ao romântico. De sua discografia, dois álbuns são com músicas próprias. "Solteiro sempre, sozinho nunca", ele se baseia nos relacionamentos passados para escrever suas canções.

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O coordenador da recolha de corpos do IML segura pôster de seus shows como cantor Ed Azevedo
Imagem: Fernando Moraes/UOL

Outros seis discos são de regravações, a maioria de Odair José, cantor e compositor goiano famoso pelas canções "Eu vou tirar você desse lugar" e "Uma Vida Só (Pare de Tomar a Pílula)". "Temos um amigo em comum, o Angelo Máximo [cantor cujo principal sucesso foi "Domingo Feliz", nos anos 1970], que me apresentou e desenvolvemos uma amizade. O Odair foi muito generoso permitindo que cantasse suas músicas", conta.

Até a pandemia parar com tudo, ele distribuía os CDs em seus shows em bares, restaurantes e eventos beneficentes promovidos pela polícia. Em seu canal no YouTube, as músicas, dois clipes e apresentações em programas de TV estão disponíveis. Se a carreira artística está devagar, sua função pública é cada vez mais reconhecida. Em 2019, ganhou o prêmio "Policial Nota 10" do governo estadual.

Azevedo não é do tipo que gosta de cantar no serviço, seja para relaxar ou alegrar os colegas. "Aqui fico bem concentrado, porque é muito problema para resolver. Sei separar as coisas." De qualquer forma, em um canto do escritório guarda brochuras com as letras cifradas dos anos 1960 que canta quando o show é de covers. De outra sala, tira um pôster com seu nome artístico e seu rosto no melhor ângulo.

A travessia final

Em dias quentes, o cheiro ácido da morte chega até sua mesa, vindo das salas de exame logo abaixo. Nessas horas, Azevedo recorda quando respirava direta e diariamente o ar putrefato desse serviço público.

"Tinha alguns macetes, como trabalhar a favor do vento ou prender a respiração. Mas o pior era transportar os corpos em furgões que tinham ligação entre a carga e o motorista. O fedor era tão insuportável que passava por qualquer máscara. Os olhos lacrimejavam, e não dava para dirigir", lembra. Agora, os mortos e os vivos viajam bem separados.

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Edilton Azevedo verifica um dos veículos da frota que recolhe corpos para o IML paulistano
Imagem: Fernando Moraes/UOL

Na sua sala, um cartaz reforça as prioridades: os casos em via pública, residência e suicídio. O objetivo é retirar no máximo uma hora após a perícia terminar e, assim, reduzir o incômodo dos presentes na cena fatal.

Logo ao lado fica o almoxarifado, com as reservas de pneus e baterias para os carros; álcool e detergente para os carregadores; e etiquetas de identificação e barbante para amarrar no dedão do pé dos mortos.

Na cultura ocidental, a morte representa uma passagem, seja na figura grega de Caronte, o barqueiro que carrega os recém-mortos, ou na mitologia cristã, com o caminho das almas para o Céu, o Inferno ou o Purgatório. A equipe de Azevedo, na verdade, cuida da penúltima viagem da pessoa sobre a Terra, para ser recebida pela ciência (melhor dizendo, pela polícia científica). Do IML, os corpos saem em carros de funerárias para o trajeto final.