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'Me chame de Isabelly': a lida de uma mulher trans num WC público feminino

Isabelly, 31, trabalha no banheiro feminino do Shopping Popular - Bibiana Belisário/UOL
Isabelly, 31, trabalha no banheiro feminino do Shopping Popular Imagem: Bibiana Belisário/UOL

Bibiana Belisário

Colaboração para o TAB, do Crato (Ceará)

29/05/2021 04h00

Às 4h30 o despertador toca acordando Isabelly de seus sonhos. Residente e natural de Dom Quintino, a 26 km do município de Crato, Ceará, ela encara de segunda a sábado a rotina de ser responsável por um dos maiores antros de polêmica entre transexuais e de pânico para quem vive a pandemia: o banheiro público.

"São 45 minutos, com as paradas, lá de onde moro até a cidade. Pego o carro fretado às 5h e chego quase na hora que abrem as portas, às 6h." O ponto final é no antigo Camelódromo do Crato — atual Shopping Popular. Em 2018, o espaço sofreu uma reforma e sua estrutura passou a comportar novas áreas de convivência, de vendas e de uso coletivo.

Sentada ao lado da porta do banheiro feminino, Isabelly me encarou como que indagando se iria ou não pagar a entrada no recinto. De imediato, perguntei seu nome e ela respondeu sem entender: "Augusto, mas pode me chamar de Isabelly, quero que me chamem assim". Após entender que se tratava de uma entrevista, perguntou: "Então quer dizer que vou sair na internet?".

Humanidade adoecida

"Eu fui tipo o vírus num tamanho menor aqui para algumas pessoas, cheguei, impactei, mas hoje é comum", diz Isabelly ao TAB.

Mulheres e crianças entram e saem do lugar constantemente — algumas com naturalidade, outras com olhar de receio ao ambiente. A verdade é que os cuidados já não são os mesmos e os protocolos de segurança são realizados cada vez mais como um hábito corriqueiro da prática diária. Tudo ali foi modificado durante a pandemia: há fila pra entrar, obrigatoriedade de usar álcool em gel nas mãos, pias instaladas nas portas de entrada do shopping. "Mas tá todo mundo acostumado, já, não foi difícil me adaptar. Às vezes um comerciante pega covid-19, fica todo mundo com medo de pegar também, mas passa."

Isabelly, 31, trabalha no banheiro feminino do Shopping Popular - Bibiana Belisário/UOL - Bibiana Belisário/UOL
Isabelly, 31, trabalha no banheiro feminino do Shopping Popular
Imagem: Bibiana Belisário/UOL

Abrir, limpar, organizar, monitorar, cobrar e fechar. "Tudo aqui eu sou a responsável", conta Isabelly. Para o uso do banheiro, é paga uma taxa de 0,50 centavos. O dinheiro fica sob a responsabilidade da ACIC (Associação dos Comerciantes Informais do Crato), e é revertido em compra de produtos de limpeza e de higiene pessoal para os clientes e donos dos pontos, como explicou a presidente da associação, Marta Fontes.

"Aqui do lado, no banheiro masculino, quem é responsável é o Wilson", contou Isabelly apontando para um rapaz com aparentes 20 anos de idade, que entregava papel higiênico a um dos senhores na fila.

Na hora do almoço, o box de Damiana é seu destino. Antes de trabalhar no banheiro, ela era sua ajudante na cozinha. "Sou tratada com muito carinho pela maioria das meninas aqui dos cafés, das lojas de roupa, dos acessórios, sempre me apoiaram. A costureira do ponto ali da frente é que costura meus sutiãs, os conhecidos daqui hoje convivem bem comigo".

O uso do artigo "o" e da palavra "menino" para se referir a Isabelly pelos que só passam é frequente. "Meu filho, quanto é para usar o banheiro?", perguntou uma cliente que se aproximava da porta. "O menino vai te dizer onde é", afirmou um homem para sua esposa que o perguntou em que lugar ficava o chaveiro. "Ô Moço, criança paga?", questionou uma jovem com uma menina no colo. Pacientemente, Isabelly respondeu um a um, sorrindo com os olhos por trás da máscara.

Isabelly, 31, trabalha no banheiro feminino do Shopping Popular - Bibiana Belisário/UOL - Bibiana Belisário/UOL
Isabelly, 31, trabalha no banheiro feminino do Shopping Popular
Imagem: Bibiana Belisário/UOL

Se a incomodou? Ela diz que é tempo pra se acostumarem, pois também não nasceu sabendo. "No primeiro dia [trabalhando aqui], uma mulher se negou a entrar no banheiro porque eu estava lá. Falei pra ela que não tava lá pra olhar nada de ninguém não, que era uma profissional e que era mulher. Ela saiu e depois foi pedir desculpas".

Em 12 de dezembro de 2018, o MPU (Ministério Público da União), passou a prever a garantia do uso de banheiros, vestiários e demais espaços divididos por gênero, quando houver, de acordo com a identidade de cada indivíduo. As discussões acerca do tema tiveram grande repercussão em 2013, em Florianópolis, quando um projeto de lei determinava que shoppings centers, supermercados, restaurantes, cinemas e locais de diversão seriam obrigados a oferecer um banheiro masculino, um feminino e um unissex — a ação acabou reforçando a exclusão de pessoas trans em ambientes públicos.

"Aprenderam a me respeitar." É assim que Isabelly descreve a conquista de espaço em seu ambiente de trabalho. "As pessoas, o homem tá doente faz é tempo. Fico vendo quem passa por aqui e age com indiferença, ou acha ruim. Mas não dói mais tanto em mim, não. Sei que o problema é neles".

Entre lares e famílias

Filha de Diógenes e Antônia, Isabelly foi criada em Dom Quintino ao lado de seus três irmãos. "Com 13 anos eu me assumi gay. Não foi muito difícil, todo mundo já sabia. Mas como mulher mesmo eu só vesti a roupa aos 20 e eles me pediram pra ter mais cuidado. Você fica mais visto, né? É perigoso".

Em 2014, Isabelly foi embora para Belo Horizonte a fim de trabalhar em uma casa de família. Fixou residência na capital mineira por oito meses, até que teve de retornar para casa, pois sua avó adoeceu e precisou de seus cuidados.

Depois disso, não parou mais em nenhum trabalho. "Sempre dava problema em algum lugar, ou por preconceito ou por ser só temporário mesmo. Depois de uma semana ou um mês, me dispensavam". Em 2019, voou novamente a BH com a ideia de não voltar mais ao Ceará. "Lá é melhor, tem mais oferta de trabalho e as pessoas respeitam mais a gente", explicou. Mas o cenário pandêmico não facilitou.

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Isabelly, 31, trabalha no banheiro feminino do Shopping Popular
Imagem: Bibiana Belisário/UOL

Seus chefes mineiros comercializavam itens de tecnologia e perderam dinheiro durante o isolamento social, não podendo mais pagar o salário de Isabelly — que voltou ao Crato, onde a maior parte do comércio se manteve fechado de março a agosto de 2020.

Nesse período, ela fez faxina em casas da região central e, depois que já estava trabalhando no Shopping Popular, o local também passou um grande período fechado por conta da pandemia. Os salários não foram pagos, e Isabelly não poderia ganhar auxílio emergencial nesse cenário. Acabou voltando a fazer faxinas em casas de família. Agora, está de volta à labuta no shopping.

Quando a luz diminui no corredor dos banheiros, Isabelly sabe que o final do expediente chegou. Organiza a bagunça no recinto e, às vezes, faz a limpeza geral antes de sair. Normalmente, prefere deixar essa missão para o outro dia de manhã. "Depende da movimentação, e o dia é sempre puxado".

De mochila nas costas, atravessa o portão de saída do centro comercial às 17h. Ao chegar em casa, a linha e a agulha de mão já estão aguardando. É o que faz enquanto assiste seriados e espera o próximo toque do despertador.