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'Não quero magoar ninguém': como é uma consulta de harmonização facial

Harmonização facial é um conjunto de procedimentos estéticos para alcançar a simetria e o padrão de beleza do Instagram - René Cardillo/UOL
Harmonização facial é um conjunto de procedimentos estéticos para alcançar a simetria e o padrão de beleza do Instagram
Imagem: René Cardillo/UOL

Marie Declercq

Do TAB

24/05/2021 04h00

Nos últimos anos, milhares de rostos nas redes sociais parecem sósias — ou, no mínimo, parentes distantes — das Kardashians. Queixo marcado, olhos puxados, lábios carnudos e maçãs do rosto levantadas. A idade é indefinida, de modo que uma influenciadora de 18 anos pode aparentar ter 35 ou uma celebridade de 35 pode aparentar 18.

Esse conjunto de características já foi chamada de vários nomes, mas "rosto de Instagram" é o mais certeiro. O rosto padrão domina as feições das celebridades que nos sorriem em stories, vídeos do YouTube e programas de auditório, enquanto vendem algum produto imperdível.

Com o botox e os preenchimentos com ácido hialurônico, nunca foi tão possível virar uma suposta versão melhor de si mesmo, como em uma atualização de aplicativo. Mulheres, das famosas às desconhecidas, se manipulam em busca da tal perfeição. E, ao atingirem esse estado, sem falhas no rosto, rugas nem flacidez aparente, adentram um lugar imaginário conhecido como "vale da estranheza", um termo que define a sensação incômoda de estar diante de um robô que se parece demais com um ser humano.

Esse efeito de ciborgue vem de duas palavrinhas mágicas: harmonização facial. É um conjunto de procedimentos pouco invasivos aplicados para corrigir o que seriam imperfeições do rosto, deixando as faces as mais simétricas quanto possível. Parece algo saído de um romance de Phillip K. Dick, mas resulta de um longo processo que nasce de um vácuo de satisfação. Para entender essa mecânica, marquei consulta em duas clínicas de São Paulo. O objetivo era descobrir até onde estaria disposta a ir para encontrar minha própria harmonia facial — e quanto gastaria nisso.

Bunker da beleza

A Human Clinic é exatamente como se imaginaria uma fortaleza dedicada ao embelezamento. Depois dos seguranças na porta, o complexo estético abre os braços. Meia-luz, poltronas confortáveis, música agradável, funcionárias simpáticas e médicos com jalecos personalizados subindo e descendo escadas. Assim que pisei na clínica, me senti figurante em um reality show de ricos e famosos.

Mulheres elegantes adentravam silenciosas a área de espera, com os olhos colados em telas enormes de iPhone e bolsas a tiracolo que reconheço de editoriais de moda. Entram bonitas e saem igualmente belas, mas com discretos curativos perto das sobrancelhas. Peles reluzentes, cabelos sem frizz. Um rastro de perfume paira no ar quando vão embora.

Foi simples encontrar a clínica. Digitei no Google "harmonização facial", "médico" e "celebridades". Em milésimos de segundo, o jovem dermatologista Ivan Rollemberg apareceu sorrindo com sua cabeleira generosa, ao lado de celebridades como Grazi Massafera, Henri Castelli e Gabriela Pugliesi. Eu estava ali para ter uma pequena amostra da "bolsa Chanel" dos procedimentos estéticos.

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Aplicativo disponível na clínica de Ivan Rollemberg te permite manipular seu rosto para chegar até o resultado desejado
Imagem: Marie Declercq/UOL

Em um vídeo de 13 minutos, que serve como um tipo de pré-consulta, Rollemberg menciona sua linhagem, composta por médicos desde seu tataravô, e seus olhos de águia para detectar a beleza que as pessoas procuram. É pragmático: o segredo está na proporção áurea, manifesta em rostos como os de Gisele Bündchen e Angelina Jolie. Lábios carnudos, queixo marcado, olhos amendoados, nariz afinado, maçãs proeminentes. O suprassumo do que chamam de "padrãozinho".

"Sempre fui muito bom em matemática", conta Rollemberg, dessa vez ao vivo, na sala em que atende a nata do entretenimento brasileiro, acompanhado por duas médicas lindas e loiras. Na parede, um retrato seu nos observa. "Por isso sei exatamente quais medidas perfeitas fazem um rosto."

Rollemberg deixa claro que passar pelo seu consultório não é fazer compras na Louis Vuitton. "Aqui quem manda sou eu", diz, com uma entonação de quem está acostumado a falar com a imprensa. "Paciente que chega com foto de celebridade na mão provavelmente não vai fazer nada comigo. Não é assim que funciona, ninguém vai sair parecendo a Angelina Jolie."

O cartão de visitas de Rollemberg são as mais de 4 mil pessoas que passaram por seu consultório nos últimos anos. Hoje ele é referência em harmonização facial e pioneiro do procedimento "fox eyes" no Brasil — fios que puxam as sobrancelhas, dando um aspecto felino ao olhar. Seu sucesso, conta, vem do fato de "ser chato" e não aceitar fazer procedimentos que possam cruzar para o território do esquisito. "O tal padrão de boneca que vemos no Instagram."

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Harmonização facial é um conjunto de procedimentos estéticos para alcançar a simetria e o padrão de beleza do Instagram
Imagem: René Cardillo/UOL

'Não quero magoar ninguém'

Explico a Rollemberg que, se eu pudesse mudar algo em meu rosto, seriam as olheiras que tenho desde pequena e um excesso de gordura abaixo do queixo, que permanece ali independentemente do quanto estou pesando. O médico das celebridades reluta ao aplicar seus cálculos matemáticos na minha face.

"Não quero magoar ninguém aqui, entende? Quando uma pessoa entra no meu consultório reclamando de alguma coisa, não falo que ela poderia mexer em outra coisa. Enxergo coisas que as pessoas nem sabem. E não quero que a pessoa saia daqui sabendo de uma coisa que nem tinha percebido", adverte.

Insisto. Anos de internet me moldaram para aguentar alguém que não conheço me chamando de feia. Qualquer mulher que respira, anda e existe já passou por isso.

Com um lápis branco na mão, Rollemberg faz uma análise express. "Você tem o olho caído, especialmente o direito. Imagino que durma mais desse lado, porque sua boca tende a cair mais também", avalia. "Eu levantaria a sobrancelha para mostrar mais os olhos, isso diminuiria a testa e também afinaria o nariz, que não é grande, mas por causa dos olhos mais caídos parece ser maior. No queixo também colocaria preenchimento, visto que é quase inexistente. Também aplicaria botox nos dois lados da mandíbula para suavizar seu rosto, que é mais quadrado."

Com as mãos, puxa pontos da minha face como se fossem massinha de modelar. Vejo meu rosto se abrir e ganhar um aspecto que não conhecia, como em um filtro de Instagram ao vivo. Ainda sou eu, mas em uma versão melhorada. Como em uma atualização de software humano. Ele volta para a cadeira. "Você viu como nem falei das olheiras e da papada?", sorri.

A experiência no consultório de Rollemberg me intrigou, mas não chegou a me abalar a ponto de entrar para as estatísticas de procedimentos estéticos no país — que só perdem para os EUA. Mas não porque estou satisfeita com meu reflexo no espelho, e sim por causa do valor. Para fazer os procedimentos, desembolsaria cerca de R$ 20 mil. E eles não duram para sempre.

Em média, quando a harmonização é feita por um bom profissional, usando bons materiais, o novo rosto dura em torno de um ano a um ano e meio. Depois vêm os retoques, que custam mais dinheiro.

Rollemberg sabe o poder que os preenchimentos de ácido hialurônico e algumas bicadinhas de toxina botulínica têm sobre a autoestima. "Sim, vicia", admite. "Mas dificilmente aceito pacientes que não possam bancar os retoques. Senão eles vão se endividar, e quando voltarem para o retoque ainda estarão pagando a primeira aplicação."

Ácido hialurônico na hora do almoço

Como o consultório agradável e convidativo de Rollemberg não conseguiu me fazer botar a mão no bolso, imaginei estar imune ao impulso de harmonizar meu rosto. Obviamente, me enganei. E foi em um shopping center, no meio de uma pandemia, que considerei fazer uma harmonização facial.

Marquei uma avaliação em uma das dezenas de unidades de uma rede especializada em procedimentos não invasivos. O plano de negócios é sagaz: grande parte das clínicas ficam em shoppings e oferecem planos de pagamento bem realistas. É o suficiente para aumentar os lábios na hora do almoço e voltar para o trabalho depois.

A clínica de Rollemberg e uma rede popular de harmonização facial têm em comum o atendimento: em ambos, me senti tratada como uma princesa. Fui elogiada, as pessoas me faziam perguntas olhando nos meus olhos e ofereciam café ou chá.

Fui bem recebida na clínica de luxo, mas me senti intimidada por não fazer parte daquele ambiente. Na versão mais popular, enquanto aguardava a avaliação, me senti mais calma assistindo a uma mulher limpando os dedos lambuzados de sorvete do filho no corredor do shopping.

Puxei conversa com os atendentes, que logo me mostraram os procedimentos feitos no trabalho. Todos tinham a pele brilhante, com o viço característico do botox, e os lábios sem rugas nem vincos saltaram de trás das máscaras. Era um catálogo vivo de procedimentos.

Com a cabeça munida de preconceitos, imaginei a dentista que faria minha avaliação gratuita me empurrando todo tipo de intervenção, a ponto de eu sair da unidade parecendo a Luísa Sonza. Mas foi o contrário. Botox nos pés de galinha e na testa, preenchimento nos lábios, bigode chinês e sessões para eliminar a gordura abaixo do queixo. "Mais do que isso não precisa, ainda mais que é sua primeira vez", me aconselha a jovem de 25 anos.

Ela me mostra seus lábios cheios e rosados, contando que faz aplicações no rosto desde os 19 anos. "É viciante, porque você vai percebendo outras coisas que poderia melhorar no rosto", diz. Ouvi a mesma coisa nos dois consultórios: uma vez que você começa, o desafio é deixar de procurar partes do rosto que poderiam ser aperfeiçoadas.

Fechamos um pacote de preenchimento labial e um procedimento para tratar da papada. O valor não só era possível para mim como poderia ser parcelado. Foi quando senti a piscadela do cartão de crédito no bolso enquanto eu olhava para meu rosto virgem no espelho.

Redes sociais & Narciso

O Brasil é vice-campeão mundial de procedimentos estéticos. Apesar disso, demorei algum tempo para encontrar alguém disposto a conversar sobre as próprias intervenções. Quem topou foi Ully Correa, 28, diretora de arte e influenciadora que fez pequenos preenchimentos no rosto para aperfeiçoar o nariz e os lábios.

Correa se considera parte do "padrãozinho" de Instagram, mas adverte que até mesmo gente como ela encontra coisas para corrigir. Em grande parte porque seus rostos estão sempre sujeitos ao escrutínio de terceiros e de si mesmos.

"Com certeza passei a me preocupar mais com algumas coisas quando passei a me fotografar mais e a me filmar. E também porque as pessoas são muito más na internet. Se você tem uma coisa que te incomoda, pode ter certeza que uma pessoa escondida por trás de um perfil falso vai aparecer para mencionar isso", conta ao TAB.

Ela não faz parte da tropa de influenciadoras harmonizadas do Instagram e também afirma que é contra manipular traços do rosto e corpo em programas de edição de imagem, mas acredita que é influenciada pelas milhares de fotos que consome diariamente nas redes. Para Correa, um dos atrativos dos procedimentos está no fato de serem temporários e relativamente acessíveis, mas lembra também da própria ficção que todo mundo conta na internet. Grande parte das imagens com as quais nos comparamos é, no mínimo, retocada.

"Todas as fotos que a gente vê no Instagram são editadas", contou Rollemberg, enquanto me mostrava fotos de procedimentos que fez em rostos conhecidos. "Tem profissional, inclusive, que edita fotos do 'depois'."

E assim, pensando no tipo de ficção que quero contar nas redes sociais, lembro que até mesmo a face ciborgue do Instagram não existe no mundo físico. Até um rosto harmonizado pode ser manipulado com programas de edição de imagem. Desisto de procurar uma versão melhorada de mim mesma. Essa busca nunca terá fim.