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'Todos podem ser honestos', diz dono de loja 24h sem trancas em Pernambuco

Luiz Carlos, proprietário da Loja Pé da Serra - Rafael Bandeira/UOL
Luiz Carlos, proprietário da Loja Pé da Serra
Imagem: Rafael Bandeira/UOL

Elaine Guimarães

Colaboração para o TAB, de Jaboatão dos Guararapes (Pernambuco)

09/07/2021 04h00

Há um estabelecimento 24 horas sem paredes, grades, portas ou sistema de vigilância no meio de uma área de Mata Atlântica — chamada Cova de Onça —-, localizada em Jaboatão dos Guararapes, município do estado de Pernambuco. Na "entrada", um banner e uma placa ajudam na localização da Loja Pé da Serra. O mostruário a céu aberto, que ultrapassa o espaço do negócio, e ausência de funcionários ou de qualquer responsável pelo local, causam estranhamento àqueles que o visitam pela primeira vez.

De estrutura simples, com prateleiras e chão de madeira, teto e iluminação improvisados, a Pé da Serra vende de tudo um pouco: plantas, vasos, pipoca, picolé, água e outros "brebotes", tudo organizado de forma setorizada. Em cima da geladeira, que ocupa o centro da loja, uma pequena xícara branca funciona como caixa registradora. Para acompanhar as exigências do mercado, há também as opções de pagamento com cartões de débito ou crédito e Pix. Todo processo de venda e finalização da compra é realizado pelo próprio cliente no estilo self-service.

Chamado de doido até mesmo pela esposa, Luiz Carlos da Rocha, o dono, há cinco anos aposta na honestidade alheia como principal moeda para dar continuidade ao empreendimento.

Sentado em um assento do que um dia foi uma cadeira de escritório, ele mantém os olhos atentos à tela do celular na tentativa de ler as mais de 400 mensagens dos grupos dos quais participa. Sua presença no estabelecimento é rara. No entanto, como tinha falado com a reportagem de TAB no dia anterior, Luiz se manteve à espera, mas avisando que tinha uma reunião marcada.

A Loja Pé da Serra, vista do alto - Rafael Bandeira/UOL - Rafael Bandeira/UOL
A Loja Pé da Serra, vista do alto
Imagem: Rafael Bandeira/UOL

Faz fiado?

Nascido e criado em Cova de Onça, Luiz Carlos é figura popular entre os moradores da área. Enquanto conversávamos, chegamos a ser interrompidos muitas vezes por cumprimentos e conversas com vizinhos, clientes e pessoas que aproveitavam o sábado de sol para explorar o pedaço de Mata Atlântica existente no local.

Ao apresentar as instalações e falar sobre a loja, ele mostra a geladeira quase vazia e explica que houve uma festa na noite anterior, por isso, a ausência de mercadorias. "Eu deixei duas caixas de cerveja aqui, mas como provavelmente teve festa lá pra cima, a turma levou. Depois eles pagam", fala com tranquilidade, mesmo sem saber quem realizou a compra.

A reportagem de TAB procurou por um bom tempo algum caderno, bloco de anotações ou folha de papel onde, possivelmente, estariam escritos as vendas do dia, valores e quem pagou ou deixou de pagar pelo produto com o número de telefone ao lado. Questionado sobre isso, Luiz soltou um sonoro "anotar?" como se a pergunta fosse a mais absurda do dia.

"Não perco tempo não, mulher, com isso. Tenho muita coisa para fazer. Eu não anoto nada. A preocupação é só para não deixar faltar mercadoria. Ficar de olho para saber o que tem pouco para repor", afirma.

A Loja Pé da Serra, em Cova de Onça, funciona 24h e num regime de autoatendimento, onde os clientes depositam o pagamento numa caneca sobre uma geladeira - Rafael Bandeira/UOL - Rafael Bandeira/UOL
A Loja Pé da Serra, em Cova de Onça, funciona 24h e num regime de autoatendimento, onde os clientes depositam o pagamento numa caneca sobre uma geladeira
Imagem: Rafael Bandeira/UOL

Herança

Luiz Carlos não cursou faculdade, tampouco iniciou no ensino médio. As noções de empreendedorismo são reflexo da época em que trabalhou como açougueiro. Ao todo, foram 18 anos na função. Cansado da rotina "puxada", como ele mesmo descreveu, decidiu trabalhar por conta própria.

Com os dias que têm início às 4h da manhã e são finalizados à meia-noite, o homem que quase nunca dorme se divide entre diversas atividades ao longo do dia. Além da Pé da Serra, Luiz é proprietário de uma empresa de construção civil e outra de jardinagem, presidente da associação de moradores de Cova de Onça, presidente e patrocinador do time de futebol (que leva o mesmo nome da localidade) e tem um canal no YouTube. Ao tomar conhecimento disso, fica fácil entender o porquê da sua ausência na loja. No entanto, não é essa a justificativa para que o comércio funcione de forma autônoma.

Durante a conversa com TAB, ele lembra novamente da reunião marcada. Mas, como bom contador de histórias que é, não perdeu a oportunidade de explicar como iniciou o negócio. Voltamos a 2016. Talvez, fosse necessário voltar um pouco mais já que, em vários momentos, Luiz relembra que as lições de honestidade e confiança no outro são herança da bisavó.

"Fui criado por ela. Quando eu chegava com algo novo em casa, que não era meu, ela dizia: devolva! Chegava, muitas vezes, em casa com uma borrachinha e dizendo que foi um colega quem deu, ela 'ia' até a casa dele para confirmar a história. Índole ninguém muda, né? Pé da Serra é uma forma de mostrar ao povo que todo mundo pode ser honesto", explica.

Loja Pé da Serra, em Cova de Onça - Rafael Bandeira/UOL - Rafael Bandeira/UOL
Loja Pé da Serra, em Cova de Onça
Imagem: Rafael Bandeira/UOL

O que soa conservador e rígido para uns, para ele é motivo de orgulho. Pai de duas adolescentes, Luiz tenta passar, além dos ensinamentos aprendidos com a bisavó, o manejo com os negócios -- nem sempre com sucesso.

"Uma vez eu separei um canto da Pé da Serra para minha filha mais velha vender produtos de limpeza. Quando ela começou a ver o dinheiro entrando, começou a gastar com as amigas da escola. Aí não teve dinheiro para repor os produtos. Eu ajudei da primeira vez. Só que aconteceu de novo, a avó ajudou. Na terceira, eu disse: vai trabalhar pra mim ", conta em meio a risos. O mesmo ocorreu com a filha mais nova, e ambas se tornaram "funcionárias" do pai.

"Devo, não nego, pago quando puder"

Sem anotações, mas com uma memória e conhecimento financeiro de fazer inveja, Luiz sabe os lucros da loja "porque dá para comprar mercadoria nova. Se não tivesse lucro, eu não conseguiria repor o estoque. Para vocês terem uma ideia, eu nunca precisei colocar dinheiro aqui".

Mesmo sem funcionário e vigilância 24 horas, Luiz Carlos garante que, nestes cinco anos de existência da Pé da Serra, nunca teve medo de levar calote. Ele relembra que, certa vez, estava na área comercial do Curado, bairro próximo à Cova de Onça, e uma pessoa avisou que tinha comprado algo na loja e que pagaria depois. Esse tipo de aviso é mais comum do que se imagina.

As reações de quem conhece a dinâmica do lugar pela primeira vez também fazem parte das histórias do comerciante. "Uma vez, eu ia passando e uma senhora me chamou para perguntar se eu conhecia o dono da barraca. Eu disse que conhecia, inclusive, era gente boa. Ela contou que duas mulheres tinham parado o carro e colocado umas plantas dentro dele sem ninguém ver. Avisei que era assim mesmo que as coisas funcionavam na loja e ela perguntou se aqui era Europa. Respondi que não, ali é Cova de Onça, Brasil, Pernambuco".

Simpático e prestativo, Luiz não nega plantas para quem não tem dinheiro para pagar por elas para a alegria de algumas senhorinhas que caminham por lá. A paixão pela jardinagem o fez realizar um curso na área. Por isso, não aguenta ver um jardim mal cuidado que arruma um tempo para dar um jeito sem receber por isso.

Luiz Carlos, proprietário da Loja Pé da Serra - Rafael Bandeira/UOL - Rafael Bandeira/UOL
Luiz Carlos, proprietário da Loja Pé da Serra
Imagem: Rafael Bandeira/UOL

Vida de youtuber

Alheio à tecnologia por muitos anos, Luiz Carlos já acumula muitos likes e compartilhamentos desde que entrou para as redes sociais. Seu primeiro celular foi conquistado há dois anos. Antes disso, era completamente offline. Hoje, tudo mudou: participa de diversos grupos no WhatsApp, administra comunidades no Facebook e se arriscou a criar um canal no YouTube -- que já conta com mais de mil inscritos.

"Eu estava mexendo no celular quando apareceu a opção criar canal e foi assim que comecei no YouTube. O primeiro vídeo, não sei se você chegou a ver, sou eu chamando o pessoal para conhecer a loja. Lá, eu também falo sobre preservação do meio ambiente".

Como a maioria dos youtubers, Luiz também é adepto aos tutoriais. Nos vídeos, que não ultrapassam os 10 minutos, é possível aprender a produzir maxixe em garrafa pet e até a escolher a terra mais adequada para a sua planta. O canal também funciona como vitrine para a loja e conta com o feedback de alguns clientes satisfeitos com as plantas que dão os primeiros sinais de nascimento dos frutos.

Antes de finalizar a conversa, Luiz quer mostrar à reportagem um pouco de Cova de Onça, convida para almoçar e oferece algumas plantas de cortesia. Enfim, Luiz pôde seguir para mais uma reunião.