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'Me identifico com o bobo': em Berlim, Rafucko faz performance de protesto

Rafael Puetter, 35, e sua performance na Embaixada Brasileira em Berlim, na Alemanha - Akira Oettinger/UOL
Rafael Puetter, 35, e sua performance na Embaixada Brasileira em Berlim, na Alemanha Imagem: Akira Oettinger/UOL

Felipe Maia

Colaboração para o TAB, de Berlim (Alemanha)

25/07/2021 04h00

No início dos anos 2010, o nome Rafucko era algo conhecido da sátira brasileira que fugia à grande mídia. Numa época em que o Facebook começava a ditar os rumos da vida digital do país, o WhatsApp ainda era beta e o YouTube ganhava espaço como plataforma de conteúdo robusta, Rafucko triunfava com seu anti-humor fleumático na internet.

Em entrevistas e performances em vídeo, ele atacava com a mesma intensidade a homofobia das novelas da Globo e o aumento das passagens na barca de Niterói. E o ritmo de produção seguiu até arrefecer por volta de 2016. Ali, Rafucko sumiu. Ou foi pra Record? Nem um nem outro. Em 2021, Rafucko reapareceu como a morte.

De capa e capuz pretos, com uma cajado na mão e uma faixa presidencial brasileira a tiracolo, Rafael Puetter, 35, o Rafucko, surgiu à meia noite do dia 19 de março defronte à Embaixada Brasileira em Berlim, Alemanha. Dali, ele fez uma caminhada tétrica até o parlamento alemão, passando pelo famoso Portão de Brandenburgo — monumento que voltou a conectar as partes oriental e ocidental de Berlim após a queda do muro.

A performance se repetiu por semanas. Na parte de trás da sua roupa lia-se a frase "SOS Brasil". Ao fim de cada trajeto, Rafucko contava sementes de girassol em um copo: uma para cada vida ceifada pela pandemia de covid-19 no Brasil.

Sorriso amarelo

Algumas das sementes estavam prestes a ser plantadas pelo artista no dia quente em que ele encontrou a reportagem de TAB. Assim como sua primeira performance, esse novo ato não fora previamente autorizado pela prefeitura local nem pela embaixada brasileira, em cujo gramado as flores amarelas deveriam nascer. "Eu só tenho medo de alguém cortar os girassóis", disse o artista, agora vestindo um conjunto azul que destoava do preto sinistro da morte. "Mas se irritar alguém, eu venho e planto de novo."

Ao menos uma das sementes lançadas por Rafucko germinou - Akira Oettinger/UOL - Akira Oettinger/UOL
Ao menos uma das sementes lançadas por Rafucko germinou
Imagem: Akira Oettinger/UOL

Rafucko vem de uma linhagem de artistas e produções brasileiras irrequietos por linguagem e ímpeto. A esses é difícil delimitar uma caixinha onde permaneçam, e raros são os casos de unanimidade. É algo que remonta a Gregório de Matos e sua boca do inferno, passa pelo jornal "O Pasquim", toca o repórter Ernesto Varela (personagem de Marcelo Tas no programa Olhar Eletrônico, da TV Gazeta) e charges de Laerte. É algo que gera um sorriso nervoso, que não poupa Chico nem Francisco. "Eu fico lisonjeado de ser chamado de humorista, mas tenho dúvidas sobre esse rótulo", diz à reportagem. "O humor não é o que eu quero fazer às vezes. É mais um riso amarelo".

Críticas ao crítico

A trajetória de comédia torta começou em fins dos anos 2000. Rafucko acabara de concluir os estudos em comunicação social e havia estagiado na Globosat, adquirindo habilidades no ramo audiovisual.

Em 2012, postou um vídeo no seu canal do YouTube em que pessoas comuns mostravam apoio à homofobia. Era uma ironia, jogo de cena com atores — e teve pouco menos de 50 mil visualizações, bons números para a época. Outras produções vieram, assim como outras pautas: questão indígena, Marco Feliciano, moral e bons costumes, Eduardo Paes, violência policial, jogos olímpicos. Ao passo que ganhava mais alcance, o olhar de Rafucko se transformava em crônica peculiar das convulsões do país.

"Existe um papel social com o qual me identifico que é o papel do bobo", diz ele. "Um bobo é alguém que trabalha como um espelho, refletindo os problemas da sociedade. Um papel de crítica, de direito à crítica, porque os bobos podiam criticar os reis sem ser enforcados. O bobo vem muitas vezes da piada, do absurdo, às vezes de trejeitos físicos ou talentos, mas também da crítica, com o que me identifico. Ele critica todo mundo, ele é sozinho. Ele vai ser chato."

Bobo sem corte e sem rei, Rafucko virou objeto de controvérsia popular em 2016 por conta da instalação "Monstruário Olímpico". Nessa espécie de lojinha, em uma sala do Centro Municipal de Arte Hélio Oiticica, no Rio de Janeiro, era possível encontrar produtos que aludiam à violência policial sofrida por jovens negros na cidade. Lideranças do movimento anti-racista entenderam a obra como uma banalização da dor, uma exploração daquela mesma violência que Rafucko dizia atacar. O homem que criticava era, então, criticado.

À época, Rafuck acatou os apontamentos levantados pela militância. "Era preciso apenas ter empatia", diz ele. "Mas hoje consigo entender muito melhor as críticas ao meu trabalho dos Jogos Olímpicos, que partiu de grupos que têm seus direitos negados, porque tenho uma experiência periférica mais intensa".

Pós-bolsonarismo

Sua ida a Berlim se deu exatamente em 2016, quando decidiu estudar mais sobre arte e política. A promessa de melhor qualidade de vida também foi um chamariz. "Enquanto homem gay, aqui há mais possibilidades", explica Rafucko. "No Brasil eu tenho certos privilégios por ser homem, de classe média e por ser branco. Aqui sou um homem branco, e isso ainda me traz privilégios, mas no ponto de vista burocrático eu sou um colonizado. Isso me ensinou muito do ponto de vista decolonial."

Essa sensação ambígua também estava no mundo acadêmico. Mestrando na Akademie der Künste, a prestigiosa escola de artes de Berlim, o artista se viu em meio a amarras que não condizem com seu trabalho. "Vi que a academia não é muito minha praia, e tinha de trabalhar para conseguir dinheiro".

Pouco mais de um ano depois de retomar os estudos, ele largou o mestrado e voltou a seus projetos artísticos, sem deixar de lado o trabalho. Hoje é assim que toca a vida: ora pensando e criando performances, e boa parte do tempo administrando as contas de uma sauna em Berlim. Boa parte do tempo também ele é Rafael Puetter, um sobrenome que vem do lado alemão da família. "Eu ouvia muito minha avó, que nasceu no sul do Brasil, falar sobre a Alemanha, mas eu vim pra cá sem conhecer ninguém."

Enquanto Rafael e Rafucko foram ajustando seus lugares, na segunda metade da última década, surgiu uma nova figura política: Jair Bolsonaro.

Para o artista, a direita e o bolsonarismo conseguiram guiar uma narrativa: "eles não a criaram, mas se apropriaram disso e souberam se apresentar como solução para problemas reais", afirma ao TAB. "Pessoas que já eram preconceituosas viram no Bolsonaro a oportunidade de externar seus discursos, sem vergonha alguma. Às vezes são ideias preconceituosas, racistas, e às vezes também politicamente questionáveis, como legalizar queimadas na Amazônia."

Ferrenho crítico da imprensa — em uma ocasião, Rafucko se opôs frontalmente ao então diretor de redação d'O Globo, Pedro Doria —, o artista também credita a jornais e canais de TV a gestação da figura política de Bolsonaro. E ele não esquece tampouco que a ascensão de uma certa ala das igrejas evangélicas também foi importante nesse processo. Para Rafucko, é tudo questão de dar liberdade a grupos que não vêem a liberdade como fundamental.

"Eu acho que é importante diferenciar o que é direito de crença e o que é violência. É o paradoxo da tolerância", diz ele, lembrando do teorema social em que, ao promover a tolerância irrestrita, estaríamos sujeitos a abrir espaço a políticas intolerantes. Mas frisa que não deve haver liberdade para a violência.

Rafucko em Berlim - Akira Oettinger/UOL - Akira Oettinger/UOL
Rafucko em Berlim
Imagem: Akira Oettinger/UOL

Rafucko reflete sobre tudo isso em um país para sempre marcado pelo flagelo do holocausto. O paralelo torna-se inevitável. "Hitler morreu nos anos 1940 e até hoje tem gente que o apoia na Alemanha", lembra o artista. Ele também afirma que por melhor que sejam as soluções pós-Bolsonaro, os brasileiros terão de lidar com a narrativa que justificou o bolsonarismo pelo resto de nossas vidas.

Se essa narrativa persistir mesmo, conta o artista, seu trabalho ganha força. A sátira política tem uma relação de simbiose com a tragédia: uma não surge sem a outra. "Espero que minha crítica encoraje pessoas a botar em xeque os sistemas que nos governam, e também espero que ela seja cada vez menos necessária", diz Rafucko, enquanto caminha em direção à Embaixada do Brasil na Alemanha. "Mas acho que vou ter trabalho para sempre."

Em frente ao solo brasileiro em Berlim, ele rega os brotos de girassol, convicto de que terá de fazer isso mais e mais vezes.