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Eubrite, o artista brasileiro que desliza pelas calçadas de pedra de Lisboa

Jarbas Figueiredo Krull, 35, e sua personagem Eubrite - Natália Eiras/UOL
Jarbas Figueiredo Krull, 35, e sua personagem Eubrite
Imagem: Natália Eiras/UOL

Natália Eiras

Colaboração ao TAB, de Lisboa (Portugal)

16/07/2021 04h00

É impressionante ver Eubrite subindo a rua Nova do Almada, ladeira de pedras que leva até o Chiado, bairro turístico e boêmio de Lisboa. Visualmente, a performer já chama a atenção: com peruca loira e collant, anda carregando uma sacola reutilizável de uma grande rede de supermercado português com uma caixa de som tocando "Oops I Did it Again", de Britney Spears, no volume máximo.

A situação fica ainda mais surpreendente quando vemos que Eubrite faz o caminho equilibrada nas pontas dos pés, nos freios de um par de patins de quatro rodas. Tanto portugueses como turistas param para dançar, fazer vídeos ou tirar fotos com ela.

Desde o século 19, quando Lisboa foi reconstruída após um terremoto, a cidade é conhecida por suas calçadas de pedras que são lindas para as fotos, mas nada convidativas para patinadores e skatistas. Nada disso, entretanto, é páreo para as rodinhas de Eubrite. Ela termina a sua caminhada em frente à estátua de António Ribeiro, conhecido por "O Chiado", poeta satírico do século 16, contemporâneo a Luís Vaz de Camões. Ali, ela, que também se tornou uma figura artística do bairro, se arruma para a performance diariamente.

Eubrite se prepara para mais uma apresentação no centro de Lisboa - Natália Eiras/UOL - Natália Eiras/UOL
Eubrite se prepara para mais uma apresentação no centro de Lisboa
Imagem: Natália Eiras/UOL

Nasce uma estrela

Há pelo menos seis anos, o cabeleireiro, monitor infantil e artista Jarbas Figueiredo Krull, 35 — a pessoa por baixo da peruca e do collant da performer — escolheu o pavimento para ser seu palco. A vontade de ter patins existia desde sempre, mas era algo que não cabia em seu bolso no Brasil. "Até que, um dia, fui a uma loja de artigos esportivos comprar peças para a minha bicicleta e vi uma estante com aquele monte de pares de patins", conta, em entrevista dentro do metrô lisboeta. Foi, de acordo com ele, como encontrar uma joia preciosa. Adquiriu seus patins e decidiu testá-los no início da rua Augusta, já na calçada de pedras. Levou alguns tombos, mas tudo veio a calhar. "Meu show nasceu da frustração do Jarbas tentando andar em cima das rodinhas".

As restrições pela crise sanitária de covid-19 fizeram com que a noite no Bairro Alto, região cheia de bares e restaurantes que costuma atrair turistas, acabasse mais cedo. Às 22h30, os estabelecimentos precisam fechar as portas. Eubrite fica alerta, olhando para o relógio. É que ela pega o rescaldo da multidão bêbada que teve a festa interrompida pelas autoridades e garante a diversão por mais um tempo.

Ela desliza, faz movimentos de patinação artística, um moonwalk em cima das rodas e dubla canções de Ludmilla e Anitta. Em um momento, dá um rasante até uma parte mais afastada dos espectadores e começa a patinar, pegando velocidade. Sinaliza com as mãos para as pessoas se afastarem e se joga, pendurando-se na placa de sinalização. Em outro trecho da canção, vai em direção à estátua de António Ribeiro, escala o monumento e continua a performance sentada ao lado do poeta. Mas o truque mais famoso e que causa comoção é quando ela fica em pé de uma lata de lixo e, bum, cai sentada. Assusta e deixa a plateia maravilhada.

"Nunca tinha visto algo assim em Lisboa. Uma personagem em patins, andando nessas calçadas. Isso tudo me encantou muito", diz o brasileiro Leandro Pirett, 22. Há um ano, o jovem trabalhava em uma loja de presentes na região quando viu a apresentação de Eubrite pela primeira vez.

De fã, virou um amigo. Hoje em dia, Leo cuida das redes sociais da personagem. "Já tem vídeo dela que tem mais de 10 milhões de visualizações no TikTok. No Instagram ela também tem viralizado. Um dia, se Deus quiser, ela vai estar lá no Programa da Eliana no Brasil", torce.

Criador x criatura

Nas ruas do Chiado, Eubrite brinca com quem passa. Tira foto com fãs, fala com desconhecidos que a reconhecem da noite. Ri dos tombos e da peruca que voa em alguma manobra mais arriscada. Mas, em sua casa, na região do Parque das Nações — parte mais moderna e nova de Lisboa —, Jarbas é completamente diferente. Ele divide o apartamento com um de seus poucos amigos na cidade, Tancredo Ferrari, 41, também brasileiro. Por trabalharem em horários diferentes, Tancredo nunca viu Jarbas montado como Eubrite, mas percebe, nos vídeos, como os dois são opostos.

"Jarbas é fechado. Tanto que, ao longo do tempo, tenho dado empurrões para que ele seja mais comunicativo, possa falar com as pessoas. A Eubrite entra, dança, interage com o público. Ele consegue deixar toda aquela timidez e entrar na personagem", diz Tancredo.

O performer também entende que a personagem é uma válvula de escape que ele procurava desde os 26 anos. Natural de Teixeira de Freitas e criado em Porto da Mata, ambas cidades na Bahia, Jarbas mudou-se para Portugal porque estava "fugindo". "Queria me encontrar como ser humano, como profissional. Tinha características que não eram compreendidas na minha cidade", conta. Eubrite se tornou, então, uma maneira de extravasar. "Queria viver a liberdade da expressão dos meus próprios sentimentos que não tinha como eu próprio".

Formado em artes cênicas, o Tancredo era, inicialmente, contra as apresentações do amigo na rua. "Tinha medo que as pessoas rissem dele, não da performance", conta o cabeleireiro.

De fato, até surgir Eubrite há três anos, o caminho artístico de Jarbas foi tortuoso: o primeiro personagem dele foi a Nega Maluca, figura polêmica tida como um estereótipo pejorativo de pessoas negras. "Fui muito xingado pela comunidade negra, mesmo eu mesmo sendo também um afrodescendente", diz Jarbas. Apesar da frustração com a suposta falta de compreensão das pessoas, o artista decidiu tirar o personagem de circulação até que viu o clipe de "Oops I Did It Again", de Britney Spears. "Estava destruído e ressurgi das cinzas, como uma fênix", fala, com os olhos brilhando.

Jarbas estava fazendo um procedimento no cabelo de uma cliente quando assistiu o vídeo na TV do salão. Com o adiantamento de uma semana de trabalho, comprou uma caixa de som que estava em promoção, por 80 euros. "Aí faltava comprar o figurino, né? Decidi, então, usar
a caixa de som para dançar e conseguir mais dinheiro".

Sem firula, colocou um axé music para tocar e mostrou o seu gingado. "Peguei a quantia que precisava e fui direto para a loja de figurino." Comprou o collant vermelho por 32 euros e a peruca por 10. "Entrei em uma Zara e saí de lá montado." O nome Eubrite é uma brincadeira com a pronúncia "errada" do nome de Britney Spears ("brite"), mas também uma lembrança de que, apesar de tudo, Jarbas continua no controle ("eu").

Eubrite em um dos pontos altos de sua performance - Natália Eiras/UOL - Natália Eiras/UOL
Eubrite em um dos pontos altos de sua performance
Imagem: Natália Eiras/UOL

Sem militância

Enquanto a personagem patina pelo Chiado, é comum ouvir gritos de "Free Britney", referente ao processo em que a artista passa para recuperar o controle sobre a sua fortuna. Por mais que tenha se inspirado em Britney Spears, Jarbas nunca foi fã da cantora. "Comecei a acompanhá-la mais de perto depois da Eubrite", diz. Assim, ele prefere não opinar sobre o movimento Free Britney.

Jarbas, na realidade, se mantém longe de qualquer movimento político ou ativismo. Uma vez, em São Paulo, estava patinando vestido como Wolverine — cuja roupa é verde e azul — enquanto acontecia uma manifestação pró-Bolsonaro. Foi lido como parte do protesto e recebeu muitas críticas. Não levanta bandeira e nem pretende ser um símbolo do movimento LGBTQIA+ porque não quer se "restringir" a apenas esse público. "Não sou apenas um LGBT. Eu sou um cidadão e o cidadão pertence ao mundo. Eu sou das ruas, não apenas do palco gay", fala.

Eubrite caminha pelo centro de Lisboa - Natália Eiras/UOL - Natália Eiras/UOL
Eubrite caminha pelo centro de Lisboa
Imagem: Natália Eiras/UOL

O posicionamento não o impede, no entanto, de ser alvo de homofobia. Enquanto se apresentava no Chiado, um homem embriagado aborda Eubrite, acusando-a de se "esfregar" em um amigo dele. A personagem bate boca na rua, impedindo a passagem de um bondinho. "Está bom, já está na hora de parar, Homem-Aranha", alerta um dos policiais de Lisboa. "Vou sofrer isso, porque é como respirar", comenta Jarbas. "Mas eu não preciso viver dependendo apenas disso."

Por mais que, às vezes, discuta com pessoas bêbadas e suba no colo da estátua de António Ribeiro, Eubrite nunca teve qualquer problema com a polícia lisboeta. "Nunca fui pego no flagra. Antes de qualquer coisa, dou uma olhada 360 graus para ver se não há nenhum policial por perto e depois ativo o modo loucura", brinca.

Até o "rapa", policiais que procuram desfazer a aglomeração de boêmios no Chiado, se tornou parte de seu show. Mais especificamente, o encerramento. O giroflex azul começa a brilhar e a sirene toca, Eubrite grita, pega a sacola retornável com seu som e corre ladeira abaixo até o Rossio. Desce a cortina, deu 23h30, hora do recolher obrigatório por conta da pandemia. Mais Eubrite, só nos Stories do Instagram e no TikTok. Pelo menos até a noite seguinte.