'É meu lazer e meu sustento', diz pipeira com mais de 500 mil seguidores

O céu está estrelado, mas é dia. Estrelas de todas as cores — rosa, azul, verde, preto — disputam espaço no firmamento aberto do meio-dia. Do chão, dezenas de pessoas controlam suas estrelas na batalha dos céus. Mexem as mãos com destreza, dando a impressão de que controlam o ar com as próprias mãos, como se fosse mágica. Mas o sol a pino bate no chão e revela a linha entre os dedos que controlam, com movimentos sutis, a pipa cortando o vento.
É hora de almoço durante a semana, mas o terreno baldio no Terminal de Cargas Fernão Dias está lotado. Carros e motos não param de chegar. Moleques passam de bike tunada entre a vastidão de pessoas. Dos porta-malas, marmanjos descarregam uma quantidade imensa de pipas coloridas para se juntarem aos outros.
Com o rolo de linha num braço e o celular na mão, um pipeiro passa um áudio para um amigo. "Tem muita pipa, cê não faz ideia". Pedaços de linhas se acumulam no chão, se enroscando nos pés de todo mundo. Vez ou outra se vê um corre-corre de meninos, os "xepeiros", disputando alguma pipa cortada que cai do céu. A regra é clara: o dono é quem pega primeiro.
No meio da multidão, reluzem os cabelos castanhos longos e os óculos furta-cor de Rafaella Fioravante. Com um copão na mão, cheio de energético, e o celular na outra, apitando notificações sem parar, ela nos resume o que está acontecendo. "Bom, as coisas saíram um pouco de controle. Era pra todo mundo empinar pipa com linha simples ao mesmo tempo, mas o pessoal começou a empinar arraia, aí quando vi já tavam cortando [o corte é quando você consegue cortar a linha de outra pipa no céu] tudo".
Rafaella ri, satisfeita. Ela e parte da comunidade de pipeiros da quebrada da Zona Norte de São Paulo passaram as últimas semanas organizando um encontro para homenagear o funkeiro MC Kevin, morto tragicamente no último 16 de abril. O evento marcou um mês da perda de uma das promessas do funk, amigo de infância de Fioravante na Vila Medeiros.
Em determinado momento, uma pipa gigante com o rosto do MC Kevin foi solta. Um carregamento de fogos de artifício começa a estourar em celebração à vida do artista. Do chão, a pipeira se emociona, sentindo saudade do amigo que se foi precocemente. "Ele sempre me incentivou a seguir meu caminho no mundo da pipa", dirá Fioravante semanas depois. De luto, preferiu não conversar muito no evento no Terminal de Cargas. A memória fresca de Kevin ainda batia forte.
Da zona norte de SP para o Brasil
Rafaella Fioravante tem 20 anos e, desde os 16, exibe grande parte de sua rotina em um canal de YouTube — hoje com mais de 500 mil inscritos. O conteúdo é fiel ao que a jovem passa o tempo inteiro fazendo (e pensando): pipa. Diariamente, Fioravante vai até o Terminal de Cargas — um dos poucos pontos favoráveis para soltar pipa em São Paulo — para gravar vídeos e se encontrar com outros pipeiros.
A homenagem a MC Kevin foi apenas uma amostra da dimensão do universo de pipeiros em todo o Brasil e, sobretudo, nos extremos da cidade de São Paulo. Em especial na Zona Norte, onde a jovem nasceu.
A ideia do canal surgiu em 2015, quando Fioravante foi para o Festival Rio x São Paulo em Osasco — um dos maiores eventos do país. Na época, ela era apenas mais uma pessoa entre os milhares de obcecados por pipas que lotaram o festival. Mas quando soltou sua peixinho, começou a cortar todas as pipas que estavam no céu. Alguém filmou, postou nas redes sociais e o vídeo explodiu. "Era gente me mandando mensagem o tempo todo, gente me falando pra abrir um canal. Hoje a pipa é meu lazer, meu hobby e meu sustento", conta, desta vez falando com o TAB sem estar cercada por uma multidão de fãs pedindo uma foto ou um salve para algum canal.
Sua primeira lembrança é de uma lata de leite condensado que ganhou do pai aos 4 anos de idade para enrolar a linha. Seu pai soltava pipa todos os dias, muitas vezes na laje da casa em que mora, na Vila Medeiros. Foi assim que ela conheceu José Luiz Salla Ramos, o Beloty, primeiro brasileiro a conquistar o título de campeão mundial de pipa esportiva e dono da loja Beloty Pipas.
"Nasci já nesse universo", ela resume. Crescendo entre moleques, a pipa virou sua principal forma de lazer e obsessão. Ao contrário do que acontece com muita gente, a fixação persistiu. Atualmente, por conta do canal, Rafa Pipeira é uma das figuras mais conhecidas do meio, e uma das poucas mulheres.
"Ainda tem muito preconceito com mulher. Nos campeonatos, o pessoal manda lavar louça, te corta de sacanagem", conta. "Mas fico feliz de ver que tem cada vez mais minas curtindo por causa dos meus vídeos". Nas mãos da pipeira está a prova de que ela vive para isso: pequenos cortes nos dedos, que já modificaram suas digitais. Ao soltar pipa é comum cortar a mão, mas ela conta que nem percebe mais.
Quando aparece em encontros de pipeiros, não são poucas as crianças que param para pedir fotos e conversar. Algumas chegam a se emocionar. Mesmo com tanto reconhecimento em festivais e eventos pelo país, Fioravante sente que é possível levar o esporte mais além. Seu sonho é ver a pipa atingindo o mesmo nível de reconhecimento do futebol e das corridas de Fórmula 1. Quiçá transformar a pipa em esporte olímpico. A ilegalidade e o preconceito atrapalham. "O grande problema que as pessoas têm com pipa é que vem da periferia. Se fosse coisa de playboy, seria outra história".
A cidade cresce, a pipa diminui
Os posters pendurados na loja colorida de José Luiz Salla Ramos são prova viva de que o Brasil é uma referência mundial no circuito de pipa esportiva — que inclui países como Chile, França, Índia e China. Um deles exibe uma foto de Beloty segurando um troféu na cidade de Dieppe, na França, onde foi campeão por dois anos seguidos no Festival Internacional de Pipas.
Por conta de sua paixão, Beloty já viajou o Brasil e o mundo para competir e participar de festivais, além de já ter recebido pipeiros de outros países em sua casa, também na Vila Medeiros — a mesma em que nasceu 55 anos atrás e onde, em 1995, montou sua loja especializada.
Em um dos andares do prédio, construído com o passar das décadas, funciona uma linha de montagem 100% manual de pipas de todas as formas e tamanhos. Um funcionário desce de tempos em tempos com uma leva fresquinha de pipas para a loja, enquanto outro sobe com materiais para seguir adiante com a fabricação. Na estimativa de Beloty, mais de 200 mil pessoas no Brasil dependem de pipa como sustento. Apenas em sua loja, são 40 funcionários registrados.
Aos olhos de Rafa, Beloty é mais do que um parceiro de pipa, mas um segundo pai e mentor. Ele a acompanha nos eventos, patrocina as pipas que a jovem solta todos os dias no Terminal de Cargas e a incentiva a representar o movimento na cidade de São Paulo.
A vontade de ambos é encontrar uma forma de legalizar o rolê. Atualmente, diversas cidades brasileiras proíbem a venda de linha chilena ou a fabricação de cerol por causa do potencial de causar acidentes trágicos, especialmente contra motociclistas. O grande desafio (e a maior solução) é achar um local adequado: que tenha vento, poucos prédios em volta e um espaço farto sem vias movimentadas no entorno. Lembrando da mania da capital paulista de ocupar qualquer espaço vazio com prédios de arquitetura duvidosa, parece uma missão quase impossível.
'Não quero ser a melhor'
Além da ilegalidade, outro obstáculo se abateu sobre a pipa. Assim que a pandemia se espalhou, triplicou o preço da matéria-prima necessária para a produção, do algodão à linha. Assim, uma pipa peixinho simples aumentou de algumas dezenas de centavos para mais de um real.
A pandemia fez com que mais adultos se interessassem pela pipa, mas afastou as crianças. "Como uma criança vai pagar mais de 200 reais em um carretel de linha que antes custava 60?", lamenta Fioravante.
Ainda assim, não faltam crianças de olho no entorno do terminal de carga, prontas para caçar pipas que caíram do céu. A xepa é a salvação do esporte. "Pipa tem um potencial de afastar um moleque das drogas, de ser um escape pra quem não tem aquela família de propaganda de margarina", afirma.
Mesmo possuindo uma habilidade invejável no corte, Fioravante diz estar longe de ser boa na arte de soltar pipa, e que isso nem é seu interesse. Sua meta é organizar um Brasileirão de pipa e expandir ainda mais esse universo. "Não quero ser a melhor e cortar todo mundo. Quero só levar a diversão pras pessoas", conta.
Apesar de não pretender investir na parte competitiva, Rafa Pipeira gosta de lembrar que soltar pipa vai além de treino e disciplina diários, de saber a direção do vento e todos os tipos de corte a serem dominados. Soltar pipa, para ela, é entender que o esporte depende também de sorte. "Às vezes você tá ali e leva corte de criança. O Beloty, que tem mais de 40 anos soltando pipa toda semana, leva corte", explica.
Depois que a youtuber se despede e corre para pegar os últimos momentos de sol no Terminal de Cargas, Beloty mostra um vídeo da discípula fazendo uma manobra complexa para cortar outra pipa no céu. "Sabe, quando ela tinha dez anos, eu lembro de uns conhecidos reclamando que foram cortados por ela. Ela diz que é ruim, mas olha só isso aqui".
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