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Jovem fã de Opala vira influencer: 'Meu pai dizia que não era pra mulher'

Natália Moraes, a Nah Opaleira, e seu Opala Standard 1976, em São Paulo - Rogério Fernandes/UOL
Natália Moraes, a Nah Opaleira, e seu Opala Standard 1976, em São Paulo
Imagem: Rogério Fernandes/UOL

Breno Damascena

Colaboração para o TAB, de São Paulo

10/09/2021 04h00

"O ronco do motor é a minha parte preferida. Ele faz eu me sentir poderosa", brinca Natalia Moraes, uma paulistana de 26 anos que herdou do avô uma paixão inusitada: o Chevrolet Opala, um carro que faz parte da história da família e ajudou a moldar sua identidade e personalidade, diz. Conhecida nas rodovias e na internet como Nah Opaleira, ela tem milhares de seguidores nas redes sociais, mas conta que ainda é alvo de críticas de tom sexista, de pessoas que acham estranho uma mulher ter um automóvel "bruto" assim.

"Sempre questionam se o carro é do meu pai, do meu tio, do meu primo... Nunca acham que é meu", queixa-se Natalia. Também há grupos de fãs do modelo de carro que não conseguem lidar com a presença dela, relata. "Sei que essas opiniões dizem mais sobre as pessoas do que sobre mim, mas às vezes dá raiva."

No entanto, a jovem diz que os comentários que recebeu em casa foram os que mais lhe marcaram. "Meu pai comentava que carro não era para mulher, que eu não sabia dirigir e que tentar produzir conteúdo não daria certo porque as pessoas não iam me ouvir", lembra. A contradição, porém, é que foi justamente o pai que a impulsionou a gostar tanto de um dos carros mais simbólicos do cenário automotivo brasileiro.

O Opala do avô foi herdado pelo pai dela e, segundo Natalia, já foi utilizado para participar de rachas de rua, mas eventualmente acabou abandonado na garagem da casa em que mora com a família, no bairro do Ipiranga, em São Paulo. Parado e acumulando poeira, o automóvel alimentou a paixão de Nah. "Esse carro está há 40 anos na família. Ele sempre foi e sempre será meu xodó. Mas, como esse era o Opala do meu pai, eu decidi comprar o meu próprio."

Foi assim que, depois de muitas contas e bastante procura, ela pegou as chaves de um Opala Standard, um clássico da categoria. Depois da compra, o modelo ano 1976 com 6 cilindros recebeu um banho de loja — Nah relata que adquiriu o carro por R$ 21 mil e já gastou mais de R$ 15 mil para reformá-lo. Entre rodas, tapeçaria e uma gama de melhorias estéticas, o Opala se tornou um modelo pouco discreto nas ruas e nas estradas.

Nah Opaleira, influenciadora digital, especialista em Opala - Rogério Fernandes/UOL - Rogério Fernandes/UOL
'Muitas meninas já me abordaram para contar que compraram carro por minha causa', diz Nah
Imagem: Rogério Fernandes/UOL

A menina do Opala

É impossível andar no possante da Natalia sem chamar atenção das pessoas nas calçadas e de outros motoristas nas estradas. O som que o carro faz quando está sendo acelerado reverbera longe. O laranja bronze metálico na pintura reluz e faz brilhar os olhos dos curiosos e atraem elogios constantemente. Quando o carro está em movimento, pessoas se aglomeram com câmeras na mão para fotografá-lo dos melhores ângulos e, quando parado, aproveitam para puxar assunto com a motorista.

"Esse carro é da minha época", se entusiasmou uma senhora que fazia caminhada enquanto Nah era fotografada para a reportagem do TAB. Nos minutos seguintes, mais duas pessoas andando ali perto aproveitaram para tirar fotos e tietar o Antônio, apelido dado por Nah para o seu Opala. Ela parece não se importar com as abordagens e demonstra certo orgulho.

"As pessoas querem tirar foto, fazem perguntas e até me deixam ultrapassar nas ruas para ver melhor", comenta. "A paixão por carros antigos faz você fazer muitos amigos novos."

A alcunha Nah Opaleira nasceu há quatro anos, quando ela começou a produzir conteúdo para internet, mas a marca indistinguível veio anos antes: desde os tempos da escola, é conhecida como "a menina do Opala".

Nah Opaleira, influenciadora digital, apaixonada por Opala - Rogério Fernandes/UOL - Rogério Fernandes/UOL
Natalia e Antônio, o apelido dado ao Opala laranja bronze metálico
Imagem: Rogério Fernandes/UOL

Nah relata que era difícil encontrar outras mulheres em eventos automotivos até pouco tempo atrás. Nem na internet a presença feminina era tão significativa. "Agora tem bem mais meninas. Muitas já me abordaram para contar que compraram um carro por minha causa", exemplifica, orgulhosa.

De cabelo longo, batom e maquiagem, Natalia diz que quer demonstrar que pode ser feminina mesmo dirigindo um carro "tradicionalmente masculino". "Já tirei tanta foto com esse carro, de todas as poses que você possa imaginar", brinca. Ela ajuda o fotógrafo a pensar nos ângulos, sugere alternativas e se comporta como uma modelo — sem vergonha de fazer carão para a câmera.

No pescoço, leva um colar com um pingente de Opala. O item já fez parte do chaveiro do seu avô, Benedito, que morreu quando ela tinha 7 anos. Natalia contou a história da conexão com o avô por meio do Opala no YouTube e a destacou no Instagram (somando os perfis nas duas redes, conta mais de 90 mil seguidores). "Fui a primeira opaleira do YouTube", assegura.

Natalia & Antônio

"De uns dois anos para cá, o alcance aumentou bastante", Nah comemora. Essa repercussão a motivou a criar um grupo de opaleiras no WhatsApp e periodicamente produzir conteúdos em parceria com elas.

Aos poucos, ela tem chamado atenção de empresas, com parcerias com lojas de autopeças e uma marca que a ajuda a fazer camisetas, por exemplo. Também se tornou presença constante em eventos voltados para fãs de carros antigos — acompanhada do namorado ou de seu pai, que hoje é um grande entusiasta da vida de opaleira da filha.

No entanto, quem a vê na internet ou nessas reuniões de fãs de carros talvez nem imagine que aquela personagem se camufla durante o restante da semana. Longe do volante retrátil, Nah é Natalia, uma jovem formada em administração hospitalar, que trabalha de segunda a sábado como instrumentadora cirúrgica especializada em cirurgia plástica e dirige um Renault Sandero para chegar à clínica.

Além do alto consumo de combustível do automóvel, ela argumenta que tem medo de andar com o Opala todos os dias por São Paulo. "É um carro muito visado, existem pessoas que podem querer arranhar, roubar etc. E o seguro não cobre o valor que ele vale de verdade", explica. Por isso, o Opala se tornou um hobby, reservado para fins de semana e eventos automotivos.

Nah Opaleira, influenciadora digital, especialista em Opala - Rogério Fernandes/UOL - Rogério Fernandes/UOL
'O ronco do motor é a minha parte preferida. Ele faz eu me sentir poderosa'
Imagem: Rogério Fernandes/UOL

Natalia diz que parece que Antônio, o carro, tem vida própria. "A roda já caiu no meio da rua, o radiador já explodiu e já enfrentei diversos perrengues." Certa vez, um seguidor lhe mandou mensagem pedindo para que ela fosse a motorista de uma noiva até a igreja. "Tudo deu errado. A gasolina acabou, o carro teve problemas e morreu várias vezes, a chuva desmontou o penteado da menina", recorda.

Mesmo com os perrengues, ela diz esquecer dos problemas quando entra no carro. "A sensação ao dirigir é muito diferente, ele te dá certa liberdade", comenta a menina do Opala, que aproveita cada oportunidade de tirar o carro da garagem e acelerar pelas ruas da cidade. "O ronco é tão bonito e alto que dá até vontade de andar mais, de correr."