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Obituarista de Criciúma (SC) imortaliza, em detalhes, a memória da cidade

Pinduka, o obituarista de Criciúma (SC), nos estúdios da Rádio Som Maior - Vitor Netto/Divulgação
Pinduka, o obituarista de Criciúma (SC), nos estúdios da Rádio Som Maior Imagem: Vitor Netto/Divulgação

Matheus Lopes Quirino

Colaboração para o TAB, de Taubaté (SP)

11/09/2021 04h01

Em outras eras, o termo "arroz de festa" combinava com o veterano Sérgio Martins, 72, quando ele fazia presença nos velórios e enterros de Criciúma (SC). Todo mundo o conhece na cidade. A vida em função do óbito alheio era agitada e célebre — até o início da pandemia, foi mais ou menos assim.

Do outro lado da tela, um senhor de cabelos brancos bem penteados e camisa polo listrada fala tranquilo sobre esses tempos célebres. Mas, aos poucos, a deferência ao tema é deixada de lado. Martins vai se empolgando, conforme o assunto fica mórbido.

Obituarista do jornal A Tribuna de Notícias, diário impresso que circula na região sul de Santa Catarina, ele é conhecido popularmente como Pinduka (com K, mesmo). O apelido faz referência ao personagem do cartunista norte-americano Carl Thomas criado em 1932. "Pinduca", mais tarde "Carequinha", foi uma revista em quadrinhos que circulou no Brasil entre 1953 e 1961, e fez parte da formação de Martins, que é jornalista e radialista. O apelido foi dado a ele pelo locutor e apresentador Sérgio Luciano, então à frente de um programa de auditório na extinta Rádio Eldorado de Criciúma.

Com um topetão, oposto à personagem calva da ficção, Pinduka foi assistente de palco no começo da década de 1960 e o apelido pegou quando Luciano anunciava as prendas para a plateia.

"E lá vai o Pinduka com o chocolate!", lembra-se ele, que corria pelas fileiras do antigo Cine Milanez. Inaugurada em 1955, a sala exibia os clássicos de Hollywood e servia de espaço para a gravação de programas de rádio como o de Sérgio Luciano. Com a decadência do endereço, no coração de Criciúma, o estabelecimento fechou em 1996, depois de passar uma temporada exibindo filmes pornôs.

Depois da experiência na rádio, Martins fez a Escola Técnica do Comércio que havia na cidade e, em 1977, foi trabalhar como repórter esportivo no semanário O Independente. Concorrente da Tribuna Criciumense, foi no Independente que Pinduka passou a fazer o "cantinho da saudade", uma coluna no canto das páginas esportivas com notas de falecimento, marcos importantes municipais e efemérides.

Pinduka exportou a coluna para A Tribuna de Notícias em 1997, depois de ser convidado a migrar. "No começo, eram só notas, raramente eu colocava alguma imagem. Só quando o falecido era muito importante", diz ao TAB o jornalista.

Desde o começo de 2021, Pinduka foi a apenas dois enterros. Sua presença virou artigo de luxo. "Só saio para ir ao mercado", confessa ele, que faz rígida quarentena e aumentou a frequência de checagem de e-mails.

Antes da covid-19, o obituarista ia aos velórios acompanhado de seu "paparazzo fúnebre", o fotógrafo Daniel Teixeira. "Tem gente que se esconde da gente, têm medo de que eu fotografe. Aham que se eu bater uma foto o sujeito vai morrer!", conta.

Do folclore que se fazia em torno do obituarista ele guarda os momentos divertidos e não esconde a emoção ao fazer pausas dramáticas quando é perguntado sobre qual foi a despedida mais emocionante já escrita. "Toda morte é marcante. Não dá pra enumerar."

Gênero afetuoso

O obituário é o texto derradeiro, a conclusão, o epílogo da vida, e necessita de uma boa apuração. "Eu vejo as listas dos velórios municipais, faço pesquisa, ligo para as famílias, vou atrás", conta Pinduka, ressaltando a prática elementar do jornalismo. Obituário, enfim, é uma reportagem.

Certa vez, tirou foto de um colega no caixão, um fotógrafo do jornal que havia falecido. "Aquilo era notícia. Muitos conhecidos não puderam ir vê-lo", revela. Amigos desde os tempos de Colégio Marista, colega de futebol, repórter fotográfico, Ayres Cardoso foi destaque na coluna de Pinduka. No dia em que saiu a publicação, ele argumentou que o cadáver estava até bonitinho, embora tenha se desculpado com a família, que ligou enfurecida para o jornal.

Em sua coluna, a morte é sempre acompanhada de relatos curiosos sobre o falecido, mesmo quando ele não é humano. Em uma das colunas mais populares, Pinduka noticiou a morte de um poodle. "Era um animal querido, coloquei lá a pedido do dono." Pinduka também noticia aniversários de casamento, batizados e nascimentos — isso se sobrar espaço, o que é raro.

"Hoje em dia você fica até abismado quando vê que fulano pegou covid-19, foi pro hospital, foi pra UTI e não sai mais", relata. Acostumado aos assuntos tétricos, Pinduka contrai a face, realmente espantado, quando lembra das vezes em que "encheu a página" só com mortos pela covid-19. Nunca, em seu obituário, a causa mortis havia sido a mesma para todos os colunáveis.

Há dias mais tristes que outros. Pinduka perdeu amigos e parentes para a covid-19 e sente um vazio. Conta que se previne como pode, com álcool em gel, máscara e isolamento. Apesar disso, cumpre rigorosamente a função que lhe cabe, digitando calmamente no teclado como uma cuidadosa moira que manipula o fio da vida, como no mito grego.

A inspiração jornalista era o locutor esportivo paulistano Fiori Gigliotti, o vozeirão que se espalhou pelo país nos anos 1950 e 1960. Hoje, Pinduka mantém um programa na rádio-web Sucesso, de Criciúma, chamado "Músicas da Saudade". "Toco só musicão, daquelas românticas, sabe? Nacional, internacional, uma mistura, com Bee Gees, Abba, Elton John."

Em sua página semanal, apenas impressa, "Coisas do Pinduka" é uma mistura fina (para caber no papel) entre notas, micro-crônicas e opiniões de Martins que delineiam uma "coluna social dos mortos", em circulação desde meados da década de 1990. Há 26 anos na função, Pinduka tem os cases da seção de obituários que transformaram a coluna em algo muito peculiar, como o "Turismo Pétreo", roteiro sentimental feito pelo jornalista nos cemitérios. "Tem gente que não gosta, não acha graça em tirar foto das lápides, mas aquilo é público", lembra ele, antes de perguntar onde sairá seu perfil.

Pinduka não tem sucessor, porque, segundo ele, "ninguém quer fazer isso [noticiar mortes]". Função com os dias contados, o obituário perdeu espaço nas últimas décadas. Sem perfil nas redes sociais, ele recebe informações pelo e-mail e WhatsApp.

Como muitos colunistas, ele não vai à redação do jornal. Há bons anos escreve sua coluna de casa.

Um grande cemitério virtual, o Facebook disponibilizou há alguns anos a função de contato herdeiro para os usuários, permitindo que as contas sejam transformadas em memoriais depois que as pessoas partirem. Hoje, são poucos os jornais que possuem a figura do obituarista em sua redação. Dos grandes, só a Folha de S.Paulo mantém o cargo preenchido.

Sem o charme de uma página de jornal, a concorrência é acirrada para o jornalismo mesmo em assuntos fúnebres, embora a demanda nunca esteja baixa. Perguntado se já preparou o seu obituário, Sérgio ri. "Quando eu morrer, eles que se virem com o meu texto."