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Uma tarde no cinema pornô 'escondido' na av. São João, em São Paulo

Paulo Sperandio (à esq.) e Luiz Sichieroli, proprietários do cinema pornô Ponto Zen, no centro de São Paulo - André Porto/UOL
Paulo Sperandio (à esq.) e Luiz Sichieroli, proprietários do cinema pornô Ponto Zen, no centro de São Paulo
Imagem: André Porto/UOL

Leandro Vieira

Colaboração para o TAB

31/05/2021 04h01

"A primeira é a sala dos filmes gays", diz Paulo Sperandio, 68, enquanto atravessa as pesadas cortinas da entrada. No interior, uma projeção com dois homens fazendo sexo anal ilumina uma sala estreita, com algumas fileiras de poltronas separadas por faixas de segurança para garantir o distanciamento. O ambiente é tão escuro que fica difícil andar sem testar o próximo passo, com medo de tropeçar ou pisar em falso num degrau inexistente.

Para além de outras cortinas duplas do outro lado do cômodo, fica um bar banhado de luz neon azul. A partir dele, Paulo indica o caminho para uma série de salas com banheiros e cubículos reservados para o sexo. As privadas são reforçadas com tijolos e azulejos, para impedir que casais afoitos quebrem a louça ao se apoiar sobre o assento na hora de transar. "Ali ficam os buracos para quem quer usar de glory hole", aponta, enquanto passa por outra salinha com furos circulares na parede.

Outra sala, mais ampla e ainda menos iluminada, é usada como dark room. "Até tentei clarear com neon, mas o pessoal tira da tomada ou quebra para poder ter mais privacidade." No topo de uma escada de ferro vazada fica uma pequena sala, onde são exibidos filmes pornôs heterossexuais numa TV de LCD.

O tour pelas instalações vazias do Ponto Zen, cinema pornô meio escondido em plena avenida São João, em São Paulo, acontece no início da tarde de terça-feira (25), assim que as portas se abrem. Além do sábado e do domingo, terça é um dos dias de maior movimento, principalmente pelo valor promocional — de R$ 20, a inteira cai para R$ 15. O ingresso dá direito a permanecer no cinema ao longo de todo o dia.

No portão de entrada, assim como na porta de cada sala, fica um frasco de álcool em gel — em alguns casos, acompanhado de uma caixa de preservativos. O dono explica que segue todos os protocolos de saúde e não permite a entrada de ninguém sem máscara. Até o aperto de mão foi momentaneamente abolido. No lugar, o "fist bump", soquinho duplo em que os punhos se encontram brevemente, foi adotado como forma de cumprimento oficial entre os três funcionários e os donos, Sperandio e Luiz Sichieroli, 67.

Reaberto desde abril, após um novo período fechado pelo agravamento da pandemia, o cinema tem funcionado entre 13h e 21h. No passado, era das 11h às 23h. Embora a diferença pareça pouca, Sperandio reforça que o impacto é grande: o horário da noite era o mais requisitado pelo público. Agora, ele espera o governo afrouxar as restrições para que possa permanecer aberto até as 22h e recuperar parte das muitas perdas.

Cabines no Ponto Zen, cinema no centro de São Paulo - André Porto/UOL - André Porto/UOL
Cabines no Ponto Zen, cinema no centro de São Paulo
Imagem: André Porto/UOL

Os recém-chegados

Às 13h, quando iniciam as sessões, o cinema está praticamente vazio. A partir das 13h30, começam a chegar os primeiros clientes. É por esse horário que o bartender liga a trilha sonora do bar — bastante eclética, indo do funk ao rock, com passagens pelo pop, brega e sertanejo. A um lance de escadas da sala hétero, o som no último volume abafa os gemidos dos atores em cena.

A sessão homossexual vai ganhando audiência a partir das 14h. Poucos permanecem sentados. A maioria prefere ficar encostada na parede, mirando a tela — onde rola uma suruba entre jogadores de futebol americano — e lançando olhares aos outros ocupantes, alguns deles sem máscara. Os reservados seguem vazios, ainda cheirando a produtos de limpeza. Em determinado momento, dois homens se beijam e logo se largam.

"Ainda não estava no clima", diz o jovem estudante Miguel Vianna, 23. Ele vai ao Ponto Zen há cerca de três anos e já conhece boa parte dos frequentadores. Na sala escura, aproveita o brilho da tela para identificar conhecidos e descobrir novos alvos em potencial. "Fica mais difícil com a máscara, mas já estou me acostumando." Ao longo do dia, é um dos poucos que aceitam falar com a reportagem.

Fachada do Ponto Zen, cinema pornô no centro de São Paulo - André Porto/UOL - André Porto/UOL
Fachada do Ponto Zen
Imagem: André Porto/UOL
Escadaria no Ponto Zen, cinema pornô no centro de São Paulo - André Porto/UOL - André Porto/UOL
Escadaria no Ponto Zen
Imagem: André Porto/UOL

Gemidos no escuro

A sala vai enchendo conforme o filme avança e, às 15h, já conta com 14 ocupantes. O bar também fica mais movimentado ao longo da tarde, e muitos frequentadores trocam o breu das sessões por uma conversa com cerveja no balcão. "A clientela aqui é a melhor que tem, é o melhor lugar em que já trabalhei", diz o bartender Claudionor Barreto, 38. "O movimento diminuiu porque o pessoal ainda tem medo, mas já está voltando. E muita gente vem só pelo bar, para ouvir uma música, bater um papo", afirma o profissional, que trabalha há nove anos na casa.

A partir das 16h, os reservados vão ganhando público e, por volta das 17h30, a maioria está ocupada. Ao usar o banheiro, onde uma camisinha solitária brilha na lixeira, é possível escutar gemidos, apesar da música alta. Na sala do pornô gay, a parede já está tomada de gente. De vez em quando, dois homens se beijam e se encaminham para o banheiro/reservado próximo. Enquanto isso, a sessão hétero é um oásis de tranquilidade, raramente ultrapassando os três ocupantes. De vez em quando, alguém entra e, de pé ou sentado, coloca uma mão para dentro ou um pênis para fora da calça, se masturba rapidamente e deixa a sala em seguida.

"Quando o cinema fechou, fiquei sem ter para onde ir", conta um espectador de 68 anos. O aposentado, que frequenta o local há quase uma década, viaja quase todas as terças-feiras de Jundiaí até a capital para aproveitar o desconto no ingresso. "E também porque é o dia mais cheio." Fica a maior parte do tempo nas sessões gays, mas também frequenta a sala hétero e prefere não definir sua sexualidade. Quanto à pandemia, ele não se preocupa tanto e diz já estar vacinado. Mas confessa ter voltado a frequentar o cinema antes mesmo de receber o imunizante. "Não aguentava mais ficar em casa."

Paulo Sperandio na cabine onde controla os filmes do Ponto Zen, cinema pornô na av. São João, no centro de São Paulo - André Porto/UOL - André Porto/UOL
Paulo Sperandio na cabine onde controla os filmes exibidos no Ponto Zen
Imagem: André Porto/UOL
Exibição de filme no Ponto Zen, cinema pornô no centro de São Paulo - André Porto/UOL - André Porto/UOL
Imagem: André Porto/UOL

Da porta para dentro

No saguão de entrada, os sócios do Ponto Zen conversam com a reportagem. A fachada discreta, o letreiro desbotado e pichado, o vidro espelhado ("É para os maridos que não querem ser vistos", esclarece Luiz) e a falta de informações visuais tornam difícil reconhecer o cinema em meio à avenida São João. Ao contrário de outros estabelecimentos do tipo no centro de São Paulo, que apelam para letreiros em neon vermelho e fotos provocantes, os donos prezam pela discrição.

Os sócios chegaram a morar juntos e são amigos há mais de 40 anos. Paulo foi farmacêutico e Luiz, médico. Hoje, ambos são aposentados e estão vacinados. A ideia surgiu a partir de outro amigo. "No começo, fomos muito resistentes, porque não conhecíamos o negócio", conta Paulo. Após conhecer outros cinemas pornô da região, fecharam uma "proposta diferenciada" para o Ponto Zen, com um ambiente mais limpo, exclusivamente masculino ("Para não dar confusão", dizem os sócios) e sem prostituição. "Mergulhamos numa área sem nenhum conhecimento, mas foi um mergulho em águas boas", afirma Luiz.

Funcionando desde 2001 no local, o cinema ficou fechado de março a outubro de 2020 devido às restrições na pandemia. No período, a dupla gastou todas as reservas, mais empréstimos bancários e o crédito conseguido pelo Pronampe para pagar salários, manter o espaço e fazer reformas pontuais. Depois, houve novos fechamentos em janeiro e março. "Esperamos não ter que fechar novamente, porque a coisa está feia", diz Luiz.

Dos 150 visitantes que recebia diariamente, a frequência do cinema caiu para menos de 50. Na última terça-feira, dia mais "quente" da semana, foram 84. O principal público está na faixa dos 30 aos 50 anos, mas também há idosos e jovens de 20. A discrição do lugar é importante para os homens casados que "gostam de uma coisa diferente", parcela relevante dos frequentadores, diz Paulo. Em relação ao sexo, a orientação é a seguinte: "Da porta para dentro, com exceção do bar, está todo mundo livre."

As luzes se apagam

Por volta das 19h, com a maioria dos reservados ocupados, a sala do pornô hétero também começa a ter uma movimentação mais intensa. Enquanto na TV uma mulher geme, nos fundos um homem sentado começa a fazer sexo oral em outro, que permanece de pé. Quase em sincronia, dois homens entram juntos no banheiro. Acima dos gemidos da TV, a música no bar muda de "Un, Dos, Tres, Maria", de Ricky Martin, para "Pertinho de Você", sucesso de 1978 na voz da atriz Elizângela.

Dez minutos depois, o par deixa o banheiro, um deles no ato de recolocar a máscara. Lá embaixo, começam os primeiros gritinhos de Gretchen no "Conga Conga Conga". "Quantos maridos a Gretchen teve mesmo?", alguém pergunta, em voz alta, lá do bar. Minutos depois, a porta do banheiro se abre. Um dos ocupantes sai sozinho e lembra de lambuzar as mãos de álcool gel antes de deixar a sala. A partir daí, pouca coisa acontece. Até as 21h, o movimento vai caindo até que as luzes das telas se apagam e os últimos sobreviventes são convidados a se retirar.