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O fotógrafo brasileiro -- e cego -- que já fotografou duas Paralimpíadas

O fotógrafo João Maia, primeiro a fotografar duas Paralimpíadas - Marco Oton/UOL
O fotógrafo João Maia, primeiro a fotografar duas Paralimpíadas
Imagem: Marco Oton/UOL

Claudia Castelo Branco

Colaboração para o TAB, de São Paulo

27/09/2021 04h01

João Maia é o único fotógrafo cego no mundo a cobrir duas Paralimpíadas. Acabou de voltar do Japão. É nordestino e negro.

A sexta-feira estava nublada quando o encontrei, na avenida Paulista. Comigo estava Marco Oton, o fotógrafo que me acompanharia na reportagem. Marco também é deficiente visual, estava de colete e acompanhado da mãe, Marlene. João tentava encaixar um adaptador de cartão numa 7D Mark ON — ele não larga sua câmera.

Seus olhos podem não ter lentes, mas sua câmera tem. O cartão não encaixava. Visivelmente triste, disse que conhecia uma loja especializada na região. "Me dá um auxílio aqui?". De um lado, a bengala branca. Do outro, meu braço agarrado ao seu. "Pode relaxar. Basta segurar meu cotovelo."

Paramos em frente ao cartaz de "Filho Mãe", um filme iraniano. Descrevo para Marco: "Um rosto bem grande de uma criança. Seu queixo está batendo no rosto do João." E assim, posicionando a câmera debaixo do queixo para não perder a perspectiva do olhar, Marco começa a registrar nosso passeio. "Se virar pra cima, a câmera acompanha", explica. Ele coloca a mão na cabeça de João para medir a altura. "Agora não mexe mais e continua falando para eu me orientar pela sua voz."

Saímos para a avenida. Lá fora, o dia está tipicamente paulista. Céu nublado. Trânsito. Pergunto como João lida com a luz. "Normal. Tenho percepção de cores. Dependendo do contraste, você tem a luz." E aponta para uma escultura vermelha. "Peraí, peraí. O que é isso super colorido?". É um coração de fibra. Enquanto Marco lê em braile que o coração "é parte de um movimento artístico que promove o amor como ferramenta de esperança", João grava Stories de Instagram.

Descrevo a altura, os carros ao fundo e peço uma foto de João fazendo uma selfie com o celular. Ele é muito ativo no Instagram. Marco comenta que a Paulista é a avenida mais acessível do estado, enquanto João, agarrado na câmera que não funciona, rebate. "Mais ou menos."

Seguimos em direção à Casa das Rosas. Obcecado por equipamentos de fotografia, João usa termos técnicos, fala de modelos e lentes. "Marco está com a cinquentinha." É como chama o modelo 50. Fala com paixão sobre a primeira câmera comprada com o dinheiro do seu primeiro trabalho, uma Zenit.

"A primeira digital, caríssima, foi a Canon A70. A primeira aquisição de lente profissional foi uma 70 200 da Canon, a que foi usada na Rio 2016." Enquanto caminhamos pela avenida, João conta que trabalhou como despachante e depois prestou concurso para os Correios, onde ficou até se aposentar por invalidez, aos 29 anos.

"Precisamos atravessar. A Casa das Rosas fica do outro lado." Afirmo que não, ele dobra a aposta. Uma hora depois, meu gravador pifa. Agora estamos quites: ele com a máquina parada e eu sem microfone. Foi aí que o sol abriu.

João Maia, deficiente visual que já fotografou duas Paralimpíadas, caminhando pela avenida Paulista - Marco Oton/UOL - Marco Oton/UOL
João Maia caminha pela avenida Paulista
Imagem: Marco Oton/UOL

Piauí - São Paulo

Depois de quarenta horas viajando de ônibus, sem ar-condicionado, numa estrada cheia de buracos e inúmeras paradas para abastecer, João Maia chegou a São Paulo com um dos seus irmãos, o Luizão. Foi em 1996, "ano em que os Mamonas Assassinas morreram", lembra.

Nascido em Bom Jesus, João viveu duas décadas na última fronteira agrícola do Piauí. Chegou meio-dia na rodoviária do Tietê. O outro irmão que já morava na capital paulista só foi aparecer às 4h da tarde. "Aquele barulho, aquela multidão. Foi assustador e emocionante." Tinha miopia e astigmatismo.

Nove anos depois, João ficou cego por causa de uma uveíte bilateral. Ele explica que há uma grande diversidade na cegueira. Alguns perdem a visão devido a doenças, outros devido a um acidente. Alguns perdem a visão repentinamente, outros com o tempo. A visão de João é muito baixa. "Olhando pra você de perto consigo perceber um vulto colorido."

Onze anos depois, sem enxergar, João Maia se tornaria o primeiro fotógrafo cego a cobrir uma Paralimpíada. Foi convidado por um projeto chamado Superação e credenciado como fotojornalista na Rio 2016. Os cliques da imprensa internacional se voltaram para ele. Sua história apareceu em mais de 30 veículos.

João Maia, na av. Paulista - Marco Oton/UOL - Marco Oton/UOL
Imagem: Marco Oton/UOL

Com a visibilidade, o piauiense fundou seu próprio projeto, a Fotografia Cega. Foi assim que começou a pensar em Tóquio. Vendeu camisetas, fez financiamento coletivo e teve o apoio da Fundação Dorina Nowill. Também contou com as parcerias do Guia do Deficiente e da Andef.

A experiência individual de uma pessoa cega é fundamental para saber como ela usa e trabalha com fotografia. João já gostava de imagens desde a infância. Lembra que um amigo da escola tinha um estúdio de revelar fotos em casa. "E eu com aquele sonho de ter uma câmera..." Ganhou sua primeira aos 14 anos -- compacta, "daquelas da galeria Pajé", de pilha e rolo de filme.

Antes de ficar cego, a fotografia era um hobby. Sempre andava com uma câmera na mão. "Quem acorda de manhã em São Paulo consegue enxergar um amanhecer lindo." E conta que fotografava muito a família, além de receber convite pra tudo que é casamento. "Mas família não paga, né. Casamento eu já perguntava logo: 'tu tá me convidando pra festa ou tu tá me convidando pra tirar foto?".

Quando ficou cego, João passou por uma fase difícil de aceitação, até se convencer que enxergar não é exclusividade de quem consegue ver. "A oportunidade, o trabalho é que transformam a vida da pessoa com deficiência. Autonomia."

Na fotografia, é influenciado por Evgen Bavcar. Fotógrafo, filósofo e cineasta, Bavcar nasceu na Eslovênia e ficou cego aos 12 anos de idade. João também cita o brasileiro Buda Mendes, um craque da fotografia esportiva. Na música, vai de Padre Zezinho a Beethoven, passando por Mastruz com Leite, Limão com Mel, Zeca Baleiro, "um Cazuza pra acordar", Bob Marley, Beatles e Zé Ramalho. E destaca a obra de Teixeirinha, o Rei do Disco.

Japão na Paulista

Nas Paralimpíadas de Tóquio, experimentou a "câmera dos seus sonhos", a 1DXA2. Ele conta que deu muitas entrevistas lá e, por isso, muitas portas se abriram. A fotografia, como a maioria das paixões, também se tornou uma ótima maneira de conhecer pessoas.

Um cara com uma bengala branca, um sorriso que não sai do rosto e uma câmera na mão tem tudo para iniciar uma conversa -- especialmente em grandes eventos esportivos. "No Japão, eu vi que de fato existe inclusão. Eu sei que todo mundo é profissional ali, mas quando precisava de alguma ajuda, não tinha vergonha de pedir, não. Fiz muita amizade."

João conversa bastante. Troca ideias sobre tudo. É também uma maneira de capturar histórias e construir suas imagens. Apenas uma coisa na Paralimpíada deixou João chateado: o colete azul usado apenas por profissionais de grandes agências. "Com esse colete você desce pra pista de atletismo, fica mais próximo do atleta, o que facilitaria muito meu trabalho. Na próxima Paralimpíada, vou conversar com o pessoal do Comitê Paralímpico Internacional e dizer: 'vocês têm um fotógrafo com deficiência visual, porque não dar oportunidade pra ele?"

As fotos das Paralimpíadas ainda não foram vendidas, mas o que ele quer mesmo é montar a própria exposição que já tem até nome: "4 sentidos e uma visão".

Em frente ao Hospital Santa Catarina, João é reconhecido por um jornalista que acompanha sua carreira. "Fiz uma matéria com você para um site do Japão." É quando a história do cartão da sua câmera retorna. Era a chance, quem sabe, de resolver sua aflição.

Uma das agulhas, imperceptível, está torta, conclui o conhecido. João desanima, pergunta pela loja. "Vamos para depois de chegar na Casa das Rosas, ok?", garanto. "Mas é do outro lado", repete.

Enquanto tomamos sorvete, falo do movimento impressionista, quando muitos artistas mostraram uma maneira diferente de ver o mundo. Ele cita a técnica do Light Painting, "pintar com a luz". Trata-se da composição da luz em contraste com ambientes totalmente escuros. A imagem da cerimônia de encerramento da Tóquio 2020 foi feita assim.

João Maia em ação nas Paralimpíadas do Japão - Sandra Mi/Divulgação - Sandra Mi/Divulgação
João Maia em ação nas Paralimpíadas de Tóquio
Imagem: Sandra Mi/Divulgação
Imagem da cerimônia de encerramento das Paralimpíadas de Tóquio, feita por João Maia - João Maia/Divulgação - João Maia/Divulgação
Imagem da cerimônia de encerramento das Paralimpíadas de Tóquio, feita por João Maia
Imagem: João Maia/Divulgação

João não se intimida diante daqueles que não compreendem como um cego pode fotografar, mas é ciente de que seu trabalho não será igual ao de uma pessoa que enxerga — no bom sentido. "Essa é minha identidade, minha marca."

Focada no esporte, sua fotografia, em si, se encaixa ao fotojornalismo. "Eu conto histórias através delas. Quando vou editar, tento mexer o mínimo naquela imagem." A diferença está nos sentidos. O olfato, o tato e, principalmente, a audição. Ele também confessa que é difícil. "Não gosto de transformar a imagem em irrealidade. Com isso, quero dizer que não gosto de adicionar diferentes céus ou fundos digitalmente. Quero capturar o que está realmente na minha frente."

A Casa das Rosas estava próxima e João estava certo. "Eu avisei que era do outro lado."

"Meus pais não estão mais vivos para ver onde cheguei. Sessenta anos de casamento, dez filhos, três com deficiência. Uma história linda de amor", conta, emocionado.

Aos 47 anos, João exalta suas origens. "Claro que tenho orgulho do que conquistei. Nordestino é muito raçudo." Foi o cenário perfeito para fotografar um sonho realizado.

João ganha dinheiro fotografando, mas principalmente com palestras. Recentemente fez o making of da sessão de fotos de paratletas patrocinados pela Azics, empresa de produtos esportivos. Hoje, 24 de setembro, conta: "Graças a Deus vendi duas fotos para um calendário". Paisagens, não temática esportiva. Ele também vende fotos para empresas que vendem molduras, editoras e empresas. E faz eventos.