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Fora do armário, Eduardo Leite tenta projeto nacional com jeito startupeiro

Marcos Lima/UOL
Imagem: Marcos Lima/UOL

Karla Monteiro

Colaboração para o TAB, de Porto Alegre

21/11/2021 04h01

De calça skinny, tênis e paletó bem cortado, Eduardo Leite atravessa apressado o pátio interno do Palácio Piratini. Vai logo pedindo desculpas pelo atraso, encaminhando-se para a antessala do gabinete íntimo, onde costuma receber para conversas mais informais.

Com visual de jovem empreendedor, do tipo que você imaginaria à frente de uma startup bem-sucedida, o governador parece bem à vontade naquele cenário neoclássico. No tempo em que os gaúchos mandavam e desmandavam no País, era no Piratini que as coisas aconteciam.

Foi dali que Getúlio Vargas arrancou no comando dos revolucionários de 1930 que poriam fim à República Velha. Em agosto de 1961, de metralhadora em punho, o então governador Leonel Brizola transformou o palácio em "cidadela da legalidade", ao resistir à tentativa de golpe que se seguiu à renúncia de Jânio Quadros.

"Meu pai nunca foi brizolista, mas sempre respeitou a história do Brizola, assim como eu respeito, embora não concorde com suas ideias do ponto de vista econômico", disse Leite, acomodando-se numa poltrona branca. Aos 36 anos, o jovem governador vem travando uma batalha intestina pela vaga de candidato a presidente da República pelo PSDB em 2022.

Galgou posições nos últimos meses em relação a seu concorrente mais feroz, o governador de São Paulo João Doria, mas um telefonema entre os dois em janeiro, vazado para a imprensa, talvez ameace sua arrancada.

Além de Leite e Doria, disputa as prévias que acontecem domingo (21) o ex-prefeito de Manaus e ex-senador Arthur Virgílio. Caso nenhum dos candidatos tenha a maioria absoluta dos votos, haverá 2º turno em 28 de novembro.

João Doria, governador de São Paulo, faz visita institucional a Eduardo Leite no Palácio Piratini - Gustavo Mansur/Palácio Piratini - Gustavo Mansur/Palácio Piratini
16.11.21 - João Doria, governador de São Paulo, faz visita institucional a Eduardo Leite no Palácio Piratini
Imagem: Gustavo Mansur/Palácio Piratini

Pelo fim do 'pingado'

Em 1930, Vargas rompera a política do café com leite ao faturar a vaga de candidato a presidente pela Aliança Liberal. Leite quer romper a política do café com leite nas entranhas do PSDB, há décadas dominado por paulistas e mineiros.

Nos últimos pleitos, João Doria mostrou que sabe vergar o partido. Contra a vontade de líderes tucanos, disputou e ganhou as prévias de prefeito da capital paulista, em 2016, e as de governador, em 2018.

Para tirá-lo da jogada, o gaúcho está se fiando numa aliança de ocasião com Minas Gerais. O aliado de última hora se chama Aécio Neves, que, apesar de tudo, ainda domina a máquina do partido nas alterosas. Em 15 de outubro, dividiram o palanque num evento em Belo Horizonte.

Em discurso, Leite agradeceu Aécio, derramando-se em elogios ao seu "legado" em Minas Gerais. Não pensava assim há bem pouco tempo. O Leite de hoje diz que Aécio não foi condenado a nada: até que se prove o contrário, é inocente. O Leite de outrora chegara a pedir a cabeça do então presidente nacional da sigla, flagrado num vídeo acertando um pagamento de R$ 2 milhões com o empresário Joesley Batista.

Águas passadas, o gaúcho tem outras prioridades. Vai precisar de toda a ajuda para entrar no páreo — parte dela virá de outro desafeto de Doria, o ex-governador de São Paulo, Geraldo Alckmin. Tanto Leite como Doria figuram na rabeira das pesquisas eleitorais e são rejeitados respectivamente por mais de 50% dos eleitores.

A briga com o governador de São Paulo vem exigindo retaguarda. Nos últimos dias, vazou milagrosamente a informação de que Leite ligara para Doria em janeiro com um pedido de um ministro de Bolsonaro para adiar o começo da vacinação. O gaúcho não negou.

Eduardo Leite, governador do Rio Grande do Sul, no Palácio Piratini - Tiago Coelho/UOL - Tiago Coelho/UOL
Imagem: Tiago Coelho/UOL

Tudo organizado

Desde que assumiu o leme do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite decidiu que moraria no Piratini com um casal de cães da raça schnauzer. A decisão veio ao encontro da promessa de colocar nos trilhos as combalidas finanças do Estado. Morando no Piratini, evitaria custos extras de segurança (cerca de R$ 1 milhão em quatro anos).

De sotaque carregado e gestos contidos, Leite pula de assunto em assunto. "Gosto de planilhas, de listas, de tudo organizado", comentou, explicando a obsessão por fazer o seu governo caber dentro do orçamento. Apesar da aparente serenidade, os olhos verdes - e ansiosos - lhe traem. Quando a pergunta não lhe agrada, acendem, em sinal de alerta.

Naquela tarde gelada, ele havia acabado de voltar a Porto Alegre, após o tenso debate das prévias organizado pelos jornais O Globo e Valor. No evento, a jornalista Miriam Leitão passara-lhe um sabão por ter votado em Jair Bolsonaro, em 2018, baseando-se em questões de economia. Segundo Leitão, o argumento significaria desprezo pela democracia.

"Do outro lado também não tinha um exemplo de democracia. Comprar deputado com mensalão não é exemplo de democracia" — as frases saem atropeladas, como se o assunto fosse um espinho na garganta.

Na votação da PEC dos Precatórios, a maioria dos deputados tucanos votou a favor da pedalada que, na prática, fura o teto de gastos. Se passar no Senado, a PEC coloca nas mãos de Bolsonaro, em ano de eleição, R$ 91,6 bilhões. Segundo a oposição, exala no Congresso um cheiro de mensalão.

15.6.2019 - Em Santa Maria (RS), Jair Bolsonaro recebe os cumprimentos de Eduardo Leite, governador do Rio Grande do Sul - Alan Santos/PR - Alan Santos/PR
15.6.2019 - Em Santa Maria (RS), Jair Bolsonaro recebe os cumprimentos de Eduardo Leite
Imagem: Alan Santos/PR

Obama como espelho

Natural de Pelotas, Eduardo Figueiredo Cavalheiro Leite é tucano de nascença. Seu pai fundou o partido em 1988 na cidade.

Filho de um casal de professores aposentados pela Ufpel (Universidade Federal de Pelotas), caçula de três irmãos, ele gosta de se descrever como "moderado". Tenta terminar a biografia de Barack Obama, com cuja trajetória se identifica. A série dinamarquesa "Borgen", da Netflix, também lhe causou suspiros ideológicos. "A primeira-ministra, personagem principal, é do Partido dos Moderados."

Em Pelotas, Leite foi vereador e prefeito eleito aos 27 anos. Ao deixar a prefeitura, carregava uma aprovação de cerca de 90%. Foi morar em Nova York na sequência. Fez um curso de gestão pública na Universidade de Columbia e, na volta, estacionou na capital paulista para um mestrado na FGV (Fundação Getulio Vargas). "Em São Paulo, o partido começou a me provocar: 'e aí? Vai sair governador?'"

Para chegar ao Piratini, virou o placar e venceu com 52% dos votos o governador José Ivo Sartori (MDB), candidato à reeleição. "Sartori fez uma campanha abraçada ao Bolsonaro, como Doria em São Paulo. Me neguei a fazer aquilo. Declarei voto, mas não fiz campanha."

Leite chegou ao governo empunhando a bandeira da conciliação. Chamou "todo mundo para conversar". Gaba-se do que considera ser sua principal virtude: dialogar civilizadamente com maragatos e chimangos, lados opostos que travam luta na Revolução Federalista. Foi conversando que conseguiu aprovar as reformas administrativa e a da Previdência.

"Eduardo foi muito hábil. Ganhou do Sartori e, logo depois do segundo turno, chamou o MDB para dentro. Tudo o que quer na Assembleia ele consegue", disse ao TAB a deputada estadual Juliana Brizola (PDT).

Segundo ela, a oposição de Leite a Bolsonaro é para consumo externo. "A base bolsonarista está toda com ele." Para o ex-governador Tarso Genro (PT), o que diferencia Leite de outros "governadores de direita" seria apenas a "boa educação".

Fora do armário

"Este salame é do governador." A declaração homofóbica de Bolsonaro, durante uma visita à feira agropecuária de Esteio (RS), dá o tom do que Eduardo Leite terá que enfrentar caso vença as prévias. Ele se diz preparado.

Em julho, tomou a decisão de se assumir. "A gente precisa debater o que se é para que fique claro e não se tenha nada a esconder. Sou gay, e sou um governador gay. Não sou um gay governador, tanto quanto Obama, nos EUA, não foi um negro presidente, foi um presidente negro", disse, no "Conversa com Bial".

O ato rendeu-lhe simpatia, mas também ataques virulentos, da direita à esquerda, que não perdeu a oportunidade de jogar-lhe na cara o voto num candidato que afirmou que preferia um filho morto a um homossexual.

Segundo Leite, o timing da entrevista fora calculado, já de olho em 2022. Se deixasse para se revelar gay na campanha, seria acusado de oportunismo. Se nada dissesse, os adversários tratariam de expô-lo.

"Só fui me aceitar aos 25 anos. Antes, tive relacionamentos com meninas. Namorei quatro anos com uma mulher, fui apaixonado por ela." Ao conversar com os pais sobre sua sexualidade, ouviu da mãe: meu filho, se você é gay, por que escolheu a vida pública? "Disse a ela que não era justo, que eu gostava da vida pública e não ia desistir porque sou gay."

Até agora, seu desempenho à frente de um estado notório pelo machismo tem sido um sucesso, pelo menos do ponto de vista da agenda para a qual foi eleito. Conseguiu autorização para privatizar energia elétrica, gás, mineração. Para tal, manobrou para retirar da Constituição estadual a emenda que prevê plebiscito em caso de venda de estatais.

Movimento dos Sem Terra (MST) faz protesto em frente ao Palácio Piratini, em Porto Alegre - Evandro Leal/Agência Enquadrar/Folhapress - Evandro Leal/Agência Enquadrar/Folhapress
16.11.21 - MST (Movimento dos Sem Terra) faz protesto em frente ao Palácio Piratini, em Porto Alegre
Imagem: Evandro Leal/Agência Enquadrar/Folhapress

'Menino mimado'

Na cruzada pelo saneamento das contas públicas, Leite fez poderosos inimigos: os professores. A situação financeira estava feia, com os salários dos funcionários públicos atrasando todo mês havia pelo menos seis anos. A dívida com a União era astronômica: R$ 70 bilhões. Com as reformas, conseguiu economizar R$ 700 milhões em 2020 na folha de pagamento, colocando os salários em dia.

Ele alardeia que "todas as reformas foram exaustivamente discutidas. Cedemos em alguns pontos, em outros, mantivemos nossa proposta". Quem pagou o pato diz que não é bem assim.

"Diálogo para o Eduardo Leite é isto: ele fala e a gente obedece. Se tu não fizer o que o menino mimado quer, fica chateado", disparou Helenir Aguiar Schürer, presidente do Cpers, o sindicato dos professores do Estado. Segundo ela, a reforma da Previdência surrupiou da classe vantagens adquiridas no plano de carreira, em vigor desde 1974. Além disso, na sua opinião, a política educacional do governo é um desastre.

O piso salarial de um professor hoje no Rio Grande do Sul, segundo Helenir, está em R$ 2.458. "Estamos sem reajuste há sete anos. Fizemos uma greve de 54 dias e o Leite cortou os dias parados."

O governador deu sinais de cansaço às 19h, após quase duas horas de entrevista. Ele se garante: diz que não existe melhor laboratório que o governo de um estado quebrado e polarizado para "enfrentar o Brasil que vamos encontrar em 2023".

Antes de sair, novamente apressado, deixou uma lição de governança que diz ter aprendido em Pelotas. "Quando perguntava para um auxiliar se tinha dinheiro para isso ou aquilo, ele sempre respondia: 'Tem, prefeito, tem dinheiro para o que o senhor quiser, é só me avisar onde é que não vai ter'. Governar é fazer escolha. Cada escolha, uma renúncia."