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Quem é Leydeeh, a 'coach' de garotas de programa que faz sucesso no TikTok

Leydeeh Miranda - Arquivo pessoal
Leydeeh Miranda Imagem: Arquivo pessoal

Juliana Sayuri

Colaboração para o TAB, de Toyohashi (Japão)

03/12/2021 04h00

"Nem todo mundo nasceu pra ser garota de programa, não. Primeiro, tem que ter talento, meu amor", @ley.deeh definiu a seus 175 mil seguidores no TikTok em uma sexta-feira de novembro. "É atitude, autoestima, perseverança, trabalhar com a razão e ter um objetivo traçado. Se não tiver isso, pode esquecer", disse ela, uma garota de programa de luxo brasileira instalada em Marbella, na Espanha.

Nascida no interior do Rio de Janeiro, Leydeeh Miranda, 36, fez um perfil no TikTok para contar como é o "mundo GP" — abreviatura para garota de programa, "um assunto que ainda é um tabu", nas suas palavras. "Mãe, escreve um livro ou abre um perfil no YouTube pra contar sua história", sugeriu o filho de 19 anos, que é quem monitora inclusive as contas dela no Instagram e no TikTok.

"Filhos precisam entender mães que trabalham assim; é um trabalho. 'Prostituta', aliás, é uma palavra que não me ofende. Prostituta é ser humano, não é melhor nem pior que ninguém. É uma mãe, uma tia, uma prima, uma avó. Não quero que ninguém me 'aceite'; quero que me respeite", diz Leydeeh em uma conversa por Zoom com o TAB, a bordo do Jeep zero que comprou num impulso no Rio. Na família dela, todo mundo sabe do tipo de trabalho, desde os finados avós.

De férias no Brasil, passou por Búzios e Arraial do Cabo, visitou a família e os amigos -- e a arquiteta que está projetando a casa que ela pretende construir na Região dos Lagos, em 2022. De quebra, considera aproveitar a viagem para dar um up na prótese de silicone nos seios. Ela também tem implante de íris, que deixam seus olhos às vezes verdes, outras azuis.

Leydeeh Miranda - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Leydeeh Miranda
Imagem: Arquivo pessoal

'Girl from Rio'

Desde os 19 anos, Leydeeh vive num vaivém entre Brasil e Europa, em temporadas de três meses ou menos, cerca de 45 dias. A rotina espanhola inclui academia, campos de golfe, hotéis e restaurantes "selecionados". "Lá [na Europa], ando na joia e no Rolex. Mas amo o Brasil e, aqui, eu sou eu também: ando de chinelo Havaiana, adoro um churrasquinho de beira de pista, converso com todo mundo", conta ela, que já postou vídeos breves com um maço de notas de euro — #sugarbabelifestyle é uma das hashtags.Dos 14 para 15, "pobre de marré deci", como definiu no Instagram, Leydeeh (na época Leide) começou a trabalhar como garota de programa. Aos 15, envolveu-se com um cliente por 15 dias e, "menina inexperiente, não usei preservativo", diz, engravidou.

Depois de ter filho, voltou a trabalhar em endereços no Rio frequentados por estrangeiros até que, certa noite, ouviu a história de amigas de Copacabana que voltaram da Suíça, Itália, França e afins, arrumadas e com dinheiro no bolso. Apressou-se então para fazer um passaporte e, não muito tempo depois, encontrou um austríaco que visitava a capital fluminense em busca de brasileiras para trabalhar em uma sauna em Viena — lá, elas deveriam repassar 80 euros dos rendimentos do dia à casa. "Ok, é isso? Pode comprar o bilhete que eu vou", decidiu e foi.

Nos primeiros tempos, notou que se destacava entre as outras garotas, por ser negra, jovem e brasileira. Depois de Viena, passou um tempo em Berlim e voltou para o Rio — desde então, entre idas e vindas, Leydeeh passou temporadas na Áustria, Alemanha, Suíça e Espanha, "nunca ilegal", destaca.

Aos 22, casou-se com um norueguês, mas se separou em 2013. Hoje, conta que gosta de um outro alguém, mas que não quer tomar decisões para sua vida a partir dele. Diz que prefere viver amores de momento, e não mais romantizar relacionamentos ou expectativas ao redor deles. "Cliente, depois que vai embora, não quero nem saber dele amanhã. Se ele voltar, que bom, trato todo mundo bem; se não voltar, amém."

Evitar apaixonar-se por clientes, aliás, é um conselho que ela sempre dá a suas seguidoras. "Existe um ditado: puta apaixonada é puta pobre", ela explica ao TAB. "Dar de graça é 0800. Se você começa a cobrar, quem quiser vai ter que pagar."

Leydeeh Miranda - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Leydeeh Miranda
Imagem: Arquivo pessoal

Do 0800 à mentoria

"Luto todo dia. Se eu quisesse, podia estar com o armário cheio de Louis Vuitton, Giorgio, Chanel, mas não: economizo meu dinheiro o máximo que eu posso", disse, certa vez, no TikTok.

Leydeeh não diz valores em reais ou em euros, mas compartilha conselhos e pretende iniciar uma mentoria sobre trabalhar fora do Brasil como garota de programa, um tipo de "coaching". Define-se como uma mulher "determinada, que vai à luta" e que quer ajudar mulheres que estão tentando conquistar um lugar no mercado e que lhe mandam mensagens inbox com dúvidas básicas. "Minha intenção é empoderar mulheres, não ficar julgando", diz.

Julgamento, ela já viveu na pele várias vezes. No TikTok, alguém questionou recentemente como ela poderia se orgulhar do trabalho que faz. "Me orgulho, sim, minha senhora. Sabe por quê? Porque eu não preciso bater na sua porta para pedir um leite, um pão para meu filho. Não sei se a senhora sabe, mas eu que pago toda a situação para minha família — minha irmã, minha mãe, meu filho. Tenho orgulho demais", respondeu.

@ley.deeh

Responder @elisadiniz00

? som original - LeyDeeh

"Antes eu dava de graça e ainda levava na cara. Uma vez um cara me deu um soco e eu morrendo de amor por ele. Ele me disse 'você não vale nada' e ainda me jogou da porta assim. E você realmente acha que eu vou ficar me sujeitando atrás de homem? Se ele quer [sexo], ele paga", acrescentou.

O principal conselho de Leydeeh é "saber o que se quer na noite", define. Viver da noite, explica, pode ser dinheiro rápido, mas está longe de ser fácil. "Transar todo mundo transa, certo? Ninguém aqui é santo, ninguém é virgem. Mas transar sem preservativo é uma loucura. Não é pra transar sem camisinha porque cliente oferece 5, 10 mil a mais. Não vale botar a vida em risco por causa de dinheiro", alerta. Isso vale para abuso de álcool e uso de drogas durante o trabalho — "já fiz, não vale a pena; por sorte, nunca fiquei viciada, mas droga rola muito fácil nesse mundo e as mulheres precisam ficar alertas".

Assim, "saber o que se quer na noite" também tem a ver com um pensamento mais a longo prazo, diz. Trilhar um caminho, mas já pensando em uma data, um prazo (ao menos mentalmente) para sair "da vida", quer dizer, quais são os objetivos que cada uma, individualmente, pretende alcançar ao ingressar no mundo GP. "Estava irritada quando disse a história lá [de ter talento para ser garota de programa]. O que quis dizer é que a profissão não é fácil, e que é preciso ter foco, atitude, ambição e coragem", pondera.

Leydeeh Miranda - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Leydeeh Miranda
Imagem: Arquivo pessoal

Nessas duas décadas de trabalho como profissional do sexo, Leydeeh aprendeu inglês, espanhol e um pouco de alemão — "sei que meu português não é muito bom", diz, referindo-se a críticas que às vezes lhe lançam os seguidores, que ela faz questão de responder. "O que seria de mim sem os haters? Nada. A ostra para se tornar pérola precisa de pedrinhas, areias dentro — é esse processo que transforma a ostra em pérola. Os haters são areinhas, e eu sou a pérola."