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Marcus Viana comemora volta de tema de 'Pantanal': 'Música é o lisérgico'

Violinista, cantor e compositor Marcus Viana - Divulgação
Violinista, cantor e compositor Marcus Viana
Imagem: Divulgação

Tiago Dias

Do TAB, em São Paulo

22/03/2022 04h00

Um mar de montanhas estende-se por oito quilômetros na vista diária de Marcus Viana. O compositor mineiro mostra o cenário verdejante por meio de uma chamada de vídeo. Está a 1.500 metros de altitude, entre os municípios de Nova Lima e Brumadinho, região metropolitana de Belo Horizonte — mas não muito distante de onde o rio de dejetos passou após o rompimento da barragem da Vale, em 2019.

"Nos anos 1970, tive um sonho premonitório. Vi o caos da civilização, eu percebi os dois mundos: o futuro da nova terra e a destruição da velha terra", ele diz, entre sons de passarinhos ao fundo. "Eu falava de camada de ozônio e o povo ria de mim. Sempre tive essa compulsão pelo apocalipse. Você pode me chamar de bicho grilo, mas sempre tive consciência de que estávamos em um planeta em mutação violenta."

Foi no topo da Serra da Calçada que o violinista se abrigou na pandemia. Hoje, aos 68, diz que chega a tremer quando precisa ir à cidade pagar contas no banco. "Aqui só barulho de jacu faz escândalo. De vez em quando, uma tempestade."

Sem a agenda de shows com seu grupo, o Transfônica Orkestra!, Marcus passou a usar aquele cenário para suas lives, onde se entregava diariamente ao improviso musical, religiosamente ao pôr do sol. "Bate 18h, sento ao piano, pego um violoncelo e toco músicas que conduzem à contemplação", explica.

A natureza e as energias cósmicas são musas inspiradoras desse compositor mineiro, autor de temas de filmes, séries e novelas, além de uma vasta obra regida por temas holísticos. "Fico com vergonha de falar com você, porque falam: 'olha aí o doidão'. Mas isso não é um conceito besta, há um conceito mágico e energético na música", defende.

Nos últimos meses, teve mais uma prova cabal da energia que sua música emana ao ouvir sua mais famosa composição tocar na TV após mais de 30 anos. Foi na chamada da nova novela da TV Globo, "Pantanal", remake do folhetim de maior sucesso em 1990. Tratava-se de uma versão ao vivo, realçando ainda mais os tons e proporções épicas, em que Viana descreve, na letra e harmonia, imagens e sensações do exuberante bioma, onde descreve "índios de deuses que descem do espaço no coração do Brasil".

Desde que a notícia da nova versão surgiu em 2019, Marcus recebeu telefonemas e mensagens de espectadores e fãs: queriam saber se o tema de "Pantanal" — que ajudou a propagar o imaginário mítico da região, na ficção escrita por Benedito Ruy Barbosa — estaria também de volta.

A força da música no imaginário brasileiro surpreendeu até mesmo a emissora, que inicialmente trabalhava com a ideia de uma nova canção para a abertura, na tentativa de modernizar a trama. O telefonema autorizando o uso do tema original só aconteceu em fevereiro. "Perguntei para eles se foi pressão popular. Foi um consenso geral. Disseram: 'você fez um tema que virou uma marca indissociável'", orgulha-se.

A regravação se dá pelas mãos dos produtores musicais Rafael Luperi e Rodolpho Rebuzzi e contará com a voz de intérpretes de peso: Maria Bethânia e Almir Sater. "É a prova do que chamamos de memória afetiva, e para isso é preciso uma conexão espiritual. Aquela força que os indianos chamam de mantra", explica Viana.

A letra foi, segundo ele, teleguiada. "A terra tão verde e azul, os filhos dos filhos dos nossos filhos verão", canta um trecho. "Não sei porque a letra saiu assim falando dos índios, do espaço, dos deuses, da preservação. Será que vamos ter direito a um depois?''

Violinista, cantor e compositor Marcus Viana - Divulgação - Divulgação
Violinista, cantor e compositor Marcus Viana
Imagem: Divulgação

'Sou épico, cara'

Décadas depois, os belos versos soam como amarga ironia. O Pantanal que tomará as telas no horário nobre passou por uma devastação após muitos incêndios florestais. Marcus se lembra de ver, na TV, a imagem de uma aldeia indígena sendo engolida pela fumaça e dos animais sem vida. "Foi a tal cena apocalíptica. Achei que ia ter uma interrupção de tudo que o Pantanal significou para nós", diz. No entanto, diz não se sentir profético. "Não vai parar de pegar fogo no Pantanal. Os índios não vão parar de morrer. As corporações regem o planeta. Nós somos foda, mas o povo não tem visão de posteridade, mas sim de prosperidade." Quando o assunto é política, ele resume: "Sou do 'PCG', Partido do Cataclisma Geológico".

Marcus Viana tem especial apreço por histórias de antigas civilizações e a crença em deuses astronautas, temas que inspiram um farto cancioneiro: obras densas, trilhas orquestrais e músicas instrumentais que lança pela sua gravadora, a Sonhos & Sons. São quase 1 mil fonogramas registrados.

A crença na música como ferramenta de cura é inabalável para o homem de cabelos quase grisalhos ao vento. Culpa da musa grega, Vênus Urânia, ele diz. "Quando eu sentava para escrever uma música romântica, vinha 'a terra', 'o sêmen do céu'. Logo eu começava a falar das energias cósmicas, do homem e da mulher", ele ri. "O que eu posso fazer? Eu sou épico, cara."

Sensação parecida ele teve mais recentemente, em sua primeira experiência com ayahuasca. Quando lhe perguntaram como foi, comparou os efeitos ao ato de compor. "A música sempre foi o lisérgico."

Violinista, cantor e compositor Marcus Viana - Divulgação - Divulgação
Imagem: Divulgação

'Tudo é preliminares'

Marcus Viana guarda até hoje uma imagem muito nítida de quando era bebê, embora possivelmente nunca tenha acontecido. Um índigena com cocar aparecia sempre no cercadinho onde ficava. "Essa entrevista está ficando esquisita", ele brinca.

Nascido em Belo Horizonte, é filho de mãe professora, com interesses artísticos e holísticos, e pai militar e maestro. Sebastião Viana era revisor e assistente de Heitor Villa-Lobos e colocava para tocar as sinfonias do modernista para embalar o filho. Viana ouvia o som grandioso e cinematográfico de obras inspiradas na natureza brasileira, como "Sinfonia do Amazonas" e "Erosão", e não conseguia dormir à noite. "Eu via o mundo acabando, os prédios caindo. Eu dizia: 'é o fim do mundo'. Meu pai respondia: 'não, é o início do mundo'."

O pai, ele conta, o achava muito indisciplinado para aprender instrumentos e vislumbrava o filho como diplomata. Marcus acabou aprendendo violino e piano de forma nada tradicional: de ouvido.

Nos anos 1970, teve sua atenção e ouvidos capturados por uma cena de rock progressivo em BH. O som que misturava erudito com guitarra em longos solos e suítes fez o jovem experimentar eletrificar seu violino. As letras psicodélicas e fantásticas viam ao encontro de seus estudos na época, como Teosofia. "Era uma época em que todo mundo fumava; eu não fazia nada, a música já me colocava numa situação de expansão enorme", lembra.

Entrou na banda Saecula Saeculorum e, mais tarde, fundou sua própria — Sagrado Coração da Terra, onde convidava músicos para gravar letras sobre a lenda das raças e cidades perdidas. O som meio new age, bastante calcado nos teclados, caiu como uma luva para a novela com ares renascentistas, "Que Rei Sou Eu?" (1989).

A partir daí, o Sagrado Coração da Terra passou a ser cortejado pelas emissoras, em especial pelo diretor artístico da extinta TV Manchete, um diretor promissor chamado Jayme Monjardim. Na época, as intervenções musicais na TV brasileira se limitavam a vinhetas, mas Monjardim vislumbrava uma trilha inteira para a nova aposta da emissora. Pediu para Viana uma "sinfonia da natureza". O compositor já tinha um tema inspirado na fauna e flora brasileiras e apresentou uma demo, na esperança de conseguir dinheiro e aprovação para uma gravação luxuosa, com orquestra e Milton Nascimento nos vocais.

De surpresa, ouviu a música gravada em poucos canais, calcada basicamente nos teclados, servir de tema para as imagens exuberantes logo na estreia. O diretor achou que aquela versão já tinha "alma".

A canção logo virou a marca da trama. Não apenas "Pantanal", mas toda a trilha composta por Viana era tocada em caixas de som na hora das gravações para que aquelas harmonias meio new age inspirassem os atores.

O estrondoso sucesso da novela colocou a Manchete em primeiro lugar na audiência. Para surfar mais na fama, os capítulos eram esticados e a música de Viana se tornou onipresente. "Era um monte de cena de tuiuiu, jacaré com a boca pra fora e aquela viola. Eu nem dinheiro tinha para arrumar um violeiro, era uma violinha de teclado. Só parece orquestra porque eu tocava todos os instrumentos."

Violinista, cantor e compositor Marcus Viana - Divulgação - Divulgação
Imagem: Divulgação

Marcus lamenta apenas não ter conhecido a região pessoalmente. Na época, a equipe da novela viajava para o set num aviãozinho pequeno. Viana tinha fobia. As composições foram feitas com base em 47 fitas VHS: vistas áreas de avião, balão, cenas de chalanas, vida silvestre.

Por produzir muito e rápido, Viana emendou outras trilhas em novelas e séries da Manchete, como "O Canto da Sereia", "Ana Raio e Zé Trovão" e "Xica da Silva", e na TV Globo, em "Terra Nostra", "Aquarela do Brasil", "Casa das Sete Mulheres", "América" e "Chiquinha Gonzaga". Em cada uma, seus temas eram facilmente identificáveis. Para "O Clone", compôs "A Miragem", com toque oriental e longas introduções antes de chegar ao trecho que embalava o casal de protagonistas Lucas e Jade: "Somente por amor / A gente põe a mão / No fogo da paixão / E deixa se queimar". Na época, porém, ouviu da emissora que suas músicas demoravam muito para chegar aos "finalmentes". Respondia: "Tudo é preliminares".

Ele comemora que sua forma particular de olhar a estrutura dos temas esteja novamente em evidência com a estreia da nova "Pantanal". "Quando a gente caminha para esse lado épico, a alma precisa de silêncio, precisa de espaço pra música", explica. "Que maravilha ter esse tema de volta 30 anos depois. É a prova que a música rompe as gerações com a mesma mensagem. A música tem o poder de romper o tempo", explica, rindo da própria empolgação.

"Minha ex-mulher me dizia que eu era messiânico, mas o que eu posso fazer? É minha natureza."