Como um CD pirata de samba-enredo foi parar no último álbum de Rosalía

Acostumada a comprar CDs piratas em suas andanças pela América Latina, a argentina Tayhana adicionou mais dois volumes à sua coleção quando esteve em São Paulo. As filipetas dos disquinhos estampavam também o ano corrente, em letras coloridas: "Sambas de Enredo 2017" e "Sambas de Enredo - Carnava São Paulo 2017" (sic). Ela sabia do que se tratava. Passados alguns meses, de volta à Cidade do México, onde vive, a jovem artista foi buscar inspiração naqueles sambas para fazer música — um beat. Qual a surpresa quando, em meados de março, ouviu sua obra acompanhando a voz de Rosalía, uma das mais importantes artistas pop do momento?
"Ela me disse que ia ver a possibilidade de usar aquela música no disco, mas eu só escutei o resultado final quando ele foi lançado e eu adorei!", diz Tayhana, jovem que assina o único beat produzido fora de estúdio para o já celebrado terceiro álbum de Rosalía, "Motomami". Com "CUUUUuuuuuute", uma das mais angulares faixas do disco, Tayhana também se tornou a única mulher no time de produção do álbum.
Para chegar ao beat, Tayhana picotou alguns trechos dos sambas do CD pirata que comprou, programou baterias eletrônicas e adicionou elementos mais afeitos à pista de dança que à Marquês de Sapucaí. O resultado é um conflito sonoro de apitos, batuques agudos de repiniques e tamborins em oposição dilacerante aos surdos. O "bum" desse instrumento tão sambista dita o ritmo aqui como o "tum" da música eletrônica de pista.
"Era difícil adicionar esses sambas ao meus sets como DJ, era uma outra estrutura. Comecei a fazer samples de batidas, surdos, coisas muito, muito pequenas, enfim, a ideia era dar um outro sentido àqueles sons", explica Tayhana. "Adicionei coisas aí para tirar esses sons de seus lugares originais, coloquei elementos de vogue, jersey club, entre outras coisas."
Ao finalizar o projeto, Tayhana deixou o beat guardado em uma pasta. Faltava alguém para transformar batida em canção. Tentou uma vez com a cantora Kelela — conhecida por suas abordagens pouco ortodoxas ao R&B —, mas não deu certo. O arquivo .wav ficou de canto na pasta até que Tayhana foi contatada pelos seus colegas do N.A.A.F.I. Sediado no México, esse selo é hoje ponta de lança no que há de mais radical na música eletrônica de pista.
"Me disseram que a Rosalía tinha falado com o pessoal do N.A.A.F.I., que ela estava atrás de alguns beats, aí mandei uma pasta com muita coisa", lembra Tayhana. "Uma semana depois me disseram que ela tinha gostado muito desse beat, e aí eu tive de procurar o arquivo original no meu computador. Conversamos ela e eu, foi tudo muito humano, e percebi que aquele beat tinha de ser para ela."
Música no nome
Batizada Melody Tayhana, a artista optou por usar o segundo nome quando se lançou na carreira de DJ. Era meados dos anos 2010 e ela havia trocado sua terra natal, na região próxima à Patagônia, por Buenos Aires. Sua performance no circuito de festas da capital argentina chamou atenção dos mexicanos do N.A.A.F.I. Não tardou para que Tayhana se mudasse para a Cidade do México em busca de novas oportunidades na música.
A produção foi algo que veio depois da performance como DJ. Tayhana forjou seu estilo a ponto de hoje ter uma identidade muito peculiar na música eletrônica. Ela utiliza elementos do vasto mundo sonoro latino-americano para criar música de pista, mas há muito pouco ali que soe dado. Um dos seus trabalhos mais conhecidos é um remix angustiante e tenebroso da festiva "Maria", de Ricky Martin.
"Essa música foi um dos meus primeiros experimentos", lembra Tayhana. "E a partir daí segui com esses meus apanhados de músicas como o samba. Sempre busco coisas piratas quando vou pra Bolívia, Colômbia, isso é algo que me representa. Os CDs piratas são meus discos de vinil. E hoje vejo que as pessoas sabem como soa meu trabalho como DJ e produtora. O caso da Rosalía, até agora, foi o mais legal, porque é lindo ver que há mais gente sabendo o que eu faço."
Embora "Motomami" se apoie em uma certa dualidade da figura feminina, como Rosalía já deu a entender em entrevistas, Tayhana não pode deixar de notar que a onda de elogios e felicitações que recebeu também trouxe uma marola de machismo — algo ainda forte nas estruturas que movem os bastidores da música, entre estúdios e backstages.
"Houve alguns homens que rechaçaram esse trabalho. Talvez por inveja, não sei. Sinto a presença deles querendo sempre tomar o primeiro lugar e, parece, nos obrigado a ficar em outros espaços", afirma a produtora. "Ao menos existe esse fenômeno que é a Rosalía."
Para Tayhana, vêm daí também críticas que apontam como apropriação cultural o uso de elementos musicais alheios ao seu país e a região onde nasceu (Catalunha). "Obviamente é mais fácil criticá-la", diz Tayhana. "Mas hoje vejo todos fazendo reggaeton e pouco se fala disso. Enrique Iglesias já fez uma bachata, mas tenho amigos que nunca criticaram ele — e criticaram Rosalía. Existem maneiras e maneiras de fazer esse contato entre culturas e pessoas."
Tayhana define seu contato com a popstar espanhola como algo humano, de troca e respeito mútuos. É o contrário do que se pensa do resultado do trabalho. "'CUUUUuuuuuute' é uma música pesada, e mostra essa diferença da Rosalía com relação a outros artistas do mainstream que, eu acho, soam muito iguais. A Rosalía não repete fórmulas."
Questionada se tem medo que sua criação com samba se transforme justamente em uma fórmula — reproduzida à exaustão por outros produtores —, Tayhana se mostra tranquila. "Se agora todo mundo começar a fazer algo como fiz, vou fazer outras coisas, outros ritmos. Gosto de sentir empatia pela música."
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