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Luis Melo inaugura centro de artes a 40 km de Curitiba: 'é projeto de vida'

Luis Melo no Campo das Artes em Balsa Nova (PR) - Theo Marques/UOL
Luis Melo no Campo das Artes em Balsa Nova (PR)
Imagem: Theo Marques/UOL

Felippe Aníbal

Colaboração para o TAB, de Balsa Nova (PR)

27/03/2022 04h01

Luís Melo não subiria ao palco naquele 11 de março. Ainda assim, o ator acordou com um nível de ansiedade compatível ao que sente na estreia de uma peça. Andou para lá e para cá, ajeitando detalhes do espaço e conversando com a equipe técnica.

Só quando viu os atores da Trupe Ave Lola em cena, interpretando "Manaós", sentiu-se aliviado: tudo tinha dado certo. O espetáculo abriu a Mostra Pôr do Sol, evento de inauguração do Campo das Artes, complexo idealizado e construído por Melo em uma área rural, a 40 quilômetros de Curitiba.

Quando desceu o pano, o estresse cobrou seu preço e o artista caiu de cama. "Senti uma reação física, mesmo, sabe? Era prostração, uma dor, um mal-estar. O meu médico falou assim: 'OK, agora, você precisa dar uma parada'. Eu vinha em um movimento de muita responsabilidade, de dar conta de muita coisa. O Campo das Artes é o meu projeto de vida", disse.

Os olhos de Melo ficam marejados ao falar do espaço, localizado dentro de um sítio de 16 hectares em São Luiz do Purunã, distrito do município de Balsa Nova. O lugar fica na área de proteção ambiental da Escarpa Devoniana — uma vegetação de campos, cerrado e araucárias.

Trupe Ave Lola apresenta o espetáculo 'O malefício da mariposa' no teatro Campo das Artes, em Balsa Nova (PR) - Theo Marques/UOL - Theo Marques/UOL
Trupe Ave Lola apresenta o espetáculo 'O malefício da mariposa' no teatro Campo das Artes, em Balsa Nova (PR)
Imagem: Theo Marques/UOL

A via da entrada termina em um pátio/mirante amplo. Ali fica a espinha dorsal da parte do complexo aberta ao público: um salão de convivência, com restaurante de cardápio centrado em produtos da região; e um espaço multiúso, em que são encenadas as peças com urdimento, cabine de luz e som e camarins.

Os edifícios são de concreto, revestidos de madeira pínus. O projeto arquitetônico é do cenógrafo JC Serroni — com quem Melo trabalhou em São Paulo — e intervenção do arquiteto paranaense Renato Santoro. Ao longo do Campo, há várias instalações artísticas, como um conjunto de carrancas posicionadas à mão pelo próprio Melo. A atmosfera sugere uma espécie de "Inhotim do teatro".

"O Rio [de Janeiro] não é a minha praia. Minha paisagem é essa: a araucária, a geada, o nevoeiro. Aqui, parece que as estrelas estão mais baixas, a lua está mais próxima e tudo é mais intenso. O frio é mais frio e o calor é mais calor. Faz muito sentido pra mim", definiu.

Campo das Artes, espaço idealizado pelo ator curitibano Luis Melo, em Balsa Nova (PR) - Theo Marques/UOL - Theo Marques/UOL
Imagem: Theo Marques/UOL

No extremo oposto do complexo, separado por um campo vasto, ficam as instalações destinadas à imersão dos artistas. Há um ateliê de cenografia (para oficinas ou construção de cenários), uma sala de produção e um galpão amplo, com capacidade para 80 pessoas — com cozinha industrial e lavanderia, e usado em residências. Além disso, há dois alojamentos coletivos, uma horta e uma estufa, em que o próprio Melo cultiva plantas ornamentais, temperos e vegetais orgânicos.

"O Campo das Artes tem a ver com o mesmo motivo que me fez sair de Curitiba: procurar um espaço onde se pudesse desenvolver um trabalho de pesquisa teatral", explicou.

As oficinas, que vinham sendo realizadas desde 2017 de forma pontual, agora devem ocorrer mais frequentemente. Como parte da programação do Festival de Teatro de Curitiba, por exemplo, o complexo recebeu uma residência artística de Marcio Abreu. Recifense radicada em Curitiba, a atriz Dani Agapíto foi uma das 30 participantes da oficina. Destacou a estrutura destinada aos artistas e a proposta do complexo, que lhes dão condições de se concentrar exclusivamente no fazer artístico.

"Nunca vi no Brasil uma estrutura e um conceito como esse que o Melo construiu e pensou por anos. Tudo propicia a imersão nesse universo cheio de estímulos. É um campo fértil para que o artista possa trabalhar", disse. "Para o público, também é uma experiência. Você vai ao lugar para apreciar uma obra, para vivenciar o processo artístico de forma conectada. Não é uma proposta fast food", apontou.

Campo das Artes, espaço idealizado pelo ator curitibano Luis Melo, em Balsa Nova (PR) - Theo Marques/UOL - Theo Marques/UOL
Campo das Artes, espaço idealizado pelo ator curitibano Luis Melo, em Balsa Nova (PR)
Imagem: Theo Marques/UOL

14 anos de gestação

O ator conta que comprou a área em 2008 e considera o lugar como seu bunker — ele mora lá, na companhia de seus sete cães vira-latas: Nero, Chico, Pirata, Tufo, Pretinha, Belinha e Chuck. Tudo foi bancado pelo próprio Melo, que desde 1995 é ator contratado da Rede Globo.

Melo preferiu não calcular quanto gastou. Mantém uma reserva financeira, mas a maior parte do salário da Globo foi investido no complexo. E brinca: "A primeira coisa que as pessoas fazem quando começam a ganhar dinheiro é comprar uma Land Rover. Faz de conta que eu fui comprando essas aí, não fiz seguro e foram me roubando [risos]. O patrocinador disso aqui foi meu salário na televisão. Não tenho ideia de quanto investi".

O projeto feito por iniciativa própria remete ao que José Celso Martinez Corrêa alavancou em São Paulo com o Teatro Oficina. "A essência do Campo tem, sim, um pouco de Zé Celso. Ele tem essa coisa visionária, que até hoje mantém aquele lugar, um dos teatros mais bonitos do mundo. Tem essa persistência de você não saber como vai manter a estrutura e quais são as articulações possíveis. Mas eu não tenho a dimensão do Zé Celso. Pra mim, ele, o [Antônio] Abujamra e o Antunes [Filho] sempre foram os papas", disse Melo.

"Aqui, a primeira vez que entrou dinheiro público, foi agora [a Mostra Pôr do Sol recebeu financiamento de lei de incentivo à cultura estadual]. Curitiba sempre foi conhecida lá fora como incentivadora das artes. E eu digo: isso é mentira. Nunca foi. Pelo contrário, o apoio vem de fora. Nunca daqui de dentro", acrescentou.

Campo das Artes, espaço idealizado pelo ator curitibano Luis Melo em Balsa Nova (PR) - Theo Marques/UOL - Theo Marques/UOL
Imagem: Theo Marques/UOL
Campo das Artes em Balsa Nova (PR) - Theo Marques/UOL - Theo Marques/UOL
Imagem: Theo Marques/UOL

Teatro de pessoa física

O iluminador Beto Bruel acompanhou de perto a transformação da área no que o Campo das Artes é hoje. Ele, que apresentou Melo à região, tem um chalé nas cercanias e costuma tomar café da manhã com o amigo. Coordenador da Mostra Pôr do Sol, o ator e diretor Marcio Juliano conheceu o espaço em 2017. Desde então, é um dos que ajudam a pensar o espaço de forma coletiva.

"Quando pus os pés aqui foi como se eu tivesse me materializado no sonho de alguém, em um espaço de fé. O que o Melo fez aqui é muito simbólico, porque vai na contramão do projeto de desestruturação da cultura, que se vê em âmbito nacional. É louvável", definiu Juliano. "Emocionante o Melo ter feito algo dessa magnitude, tijolo a tijolo. Não foi uma instituição, foi uma pessoa física que fez", declarou Bruel.

Márcio Juliano, diretor da Companhia Ilimitada e coordenador do festival Por do Sol, no Campo das Artes - Theo Marques/UOL - Theo Marques/UOL
Márcio Juliano, diretor da Companhia Ilimitada e coordenador do festival Pôr do Sol
Imagem: Theo Marques/UOL

Após o pico de estresse da inauguração, Melo diminuiu o ritmo, mas continuou na rotina do Campo das Artes.

No sábado (19), Melo acordou cedo, pouco depois das 6 horas, como de costume. Como chovia, ficou em casa com seus cães, torcendo para que a chuva desse uma trégua e não estragasse a programação do dia — o que acabou ocorrendo. Com o estio, foi lidar com a horta e a estufa. Ao cair da tarde, circulava pelo pátio e pelo espaço de convivência, recebendo e conversando de forma casual com o público — como se fosse mais um espectador, não o anfitrião. Vestia-se com informalidade: tênis esportivos, calça de moletom e uma camisa rosa aberta, sobre uma camiseta chumbo. Não transparecia resquícios de estresse ou nervosismo. Ao contrário, falava baixo e parecia à vontade em seu próprio espaço. Quando os espectadores entraram para assistir à peça, Melo permaneceu no restaurante, jogando conversa fora com os funcionários.

"Não tenho interesse em administrar esse espaço sozinho, mas em convidar as pessoas da dança, da música, das artes plásticas, do audiovisual, a pensarem junto. Queremos que o Campo seja pensado coletivamente. Essa a ideia." Após o encerramento da Mostra, a preocupação de Melo é manter o espaço em evidência. Quer propor a realização de um festival de inverno e ceder o espaço para mostras e apresentações. "Por que não incluir solos do balé do Teatro Guaíra? A Orquestra [à Base] de Sopros de Curitiba, que está viajando com uma apresentação, poderia vir pra cá, assim como a Orquestra Sinfônica do Paraná", projeta ele.

O ator Luis Melo no Campo das Artes, complexo multicultural construído por ele em Balsa Nova (PR) - Theo Marques/UOL - Theo Marques/UOL
Imagem: Theo Marques/UOL

Todas as peças da Mostra do Pôr do Sol são gratuitas. Há um ônibus que leva e traz os espectadores de Curitiba, também gratuitamente. Os ingressos para os espetáculos, no entanto, se esgotaram oito horas após o início da distribuição pela internet.