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Valentina Luz, trans, é a DJ da vez: 'as festas é que precisam de mim'

Valentina Luz, modelo e DJ - Fernando Moraes/UOL
Valentina Luz, modelo e DJ Imagem: Fernando Moraes/UOL

Camilo Rocha

Colaboração para o TAB, de São Paulo

14/04/2022 04h01

São quase 5h30 da manhã de um domingo, 3 de abril, e o festival Gop Tun já ultrapassou a marca das 17 horas de música e dança. A DJ Valentina Luz passou a maior parte desse período acompanhando o fervo, do começo da animação ainda no sábado às sucessivas explosões de euforia que tomaram as quatro pistas do evento.

Valentina Luz, 25, dança, tira fotos e registra dezenas de stories. Aborda conhecidos com um tom animado e é sempre recebida com sorrisos e poses. Alta, corpo esguio, com longas tranças pretas, a figura da DJ se destaca com facilidade.

Já começa a aparecer a claridade do domingo quando Valentina avisa seu agente que vai para a cabine de som porque se aproxima a hora de tocar. A DJ lamenta que seu horário coincidiu com o de outras duas atrações trans da festa, a DJ australiana Eris Drew e a norte-americana Octo Octa, casal que costuma tocar em dupla.

Chegando lá, um espaço ao ar livre onde algumas dezenas de clubbers seguem marchando sem sair do lugar, Valentina encontra o DJ carioca Gigios, com quem dividirá o som. Ela, porém, está tão empolgada que passa as primeiras músicas dançando e interagindo com o chamado "fronte", as fileiras de gente que ficam no gargarejo. Vestindo uma peça de níquel lapidado e cristal caleidoscópico, Valentina é uma visão coruscante.

Valentina Luz é uma estrela ascendente no universo da música eletrônica na nação que mais mata pessoas trans do mundo, segundo relatório de 2021 da Transgender Europe. Este é o país onde um ex-ministro da Educação, o pastor Milton Ribeiro, afirmou que "quem nasceu homem não pode ser mulher".

Nos territórios autônomos das cenas clubber e raver de cidades como São Paulo, Belo Horizonte e Rio de Janeiro, valem outras regras e pontos de vista. É onde a DJ Valentina Luz pode fazer justiça a seu sobrenome e brilhar em vez de se esconder. No entanto, mesmo dentro da bolha há espaço a ser reivindicado.

Pista branca

Segundo o discurso clássico, na música eletrônica as pessoas podem ser o que elas quiserem e não há discriminação. Na prática, nem sempre essa democracia se reflete nas posições de destaque. Foi só na última década, por exemplo, que cresceu o número de mulheres discotecando e organizando eventos. Apesar das origens negras do house e do techno, nas pistas e palcos da cena paulistana ainda predominam pessoas brancas.

É um dos motivos pelos quais Valentina Luz vem sendo cada vez mais requisitada. "Não sou eu que preciso dos clientes, eles que precisam da minha imagem, é um fator que pega", diz. "Eu tô ali conversando com os jovens, com os gays, a maioria do meu público é gay, muita menina trans, muita galera não-binária. Muito hétero acaba me acompanhando através da moda, da dança, me viu dançando de topless na [festa] Mamba Negra e passou a engajar com tudo que eu fazia." Segundo seu agente, nos últimos tempos seu trabalho foi valorizado e validado, e hoje ela recebe cachê "equiparado".

Recentemente, a DJ tocou nos festivais Lollapalooza e DGTL (eletrônico, originário da Holanda). Em breve, se apresentará no Rock In Rio. Como modelo, profissão que exerce desde antes das picapes, já apareceu em campanhas da Arezzo, Hugo Boss, Natura, Magalu e Nivea.

Um dia antes do festival Gop Tun, Valentina recebeu a reportagem do TAB em seu apartamento de dois quartos, próximo ao Vale do Anhangabaú, no centro de São Paulo. Na sala de poucos móveis, chama a atenção uma grande bandeira jamaicana na parede. Ao lado de um monitor de computador, há uma pilha onde se vê um livro de receitas do chef Alex Atala e outro sobre medicina natural.

A visita quase foi cancelada, pois havia possibilidade de Valentina fazer uma sessão de fotos, mas o trabalho acabou caindo. "Fiquei triste. A grana ajudaria muito", comentou. "Tenho 25 anos, sou uma mina preta, trans, independente, não tenho meus pais, não sou nenhuma herdeira que tá fingindo ser descolada. Eu tô no corre mesmo porque eu preciso."

Valentina vem de Mandaguaçu (PR), cidade de "uns 25 mil habitantes", como ela afirma, próxima a Maringá. "É uma área bem conservadora, é muito comum ver carros com adesivos do Bolsonaro. É um lugar que quando eu volto penso 'Meu Deus, como é que eu saí viva daqui?'", afirma.

DJ Valentina Luz - Fernando Moraes/UOL - Fernando Moraes/UOL
Imagem: Fernando Moraes/UOL

Infância de perguntas e incômodos

Segundo a DJ, sua identidade de gênero e orientação sexual eram questionadas "desde que comecei a raciocinar, com uns 4, 5 anos". Crianças e adultos perguntavam "você é homem ou mulher?", "quando você crescer, você quer ser o quê?", "você acha que é normal ser assim, ter a voz assim, ter esses trejeitos?". "Eu era realmente um corpo estranho."

Devido ao bullying, Valentina passou um tempo evitando a escola. Chegou a repetir de ano porque, em vez de ir para a aula, ficava em uma praça, sozinha, esperando a hora passar.

Valentina Luz, no Gop Tun Festival - Pedro Ivo/Divulgação - Pedro Ivo/Divulgação
Valentina Luz, no Gop Tun Festival
Imagem: Pedro Ivo/Divulgação

A primeira infância foi marcada pelo vício do pai, usuário de crack, e a rara presença da mãe, que trabalhava fora como empregada doméstica. A situação do pai a fazia sofrer mas, apesar das adversidades, havia muito afeto. "Minha família sempre esteve muito do meu lado porque via que eu tentava ajudá-los."

Entre a fase final da infância e a adolescência, Valentina começou a encontrar espaços onde seu corpo passou a ser valorizado em vez de hostilizado. Primeiro, foi no balé. Depois vieram o envolvimento com as bandas, fanfarras e o handebol. "Eu me destacava muito pela altura, pelo salto, fui atleta de alto rendimento. Fui morar até em outra cidade para jogar."

Foi no esporte que Valentina começou a transicionar. "Comecei a usar extensão capilar, a tomar hormônio. Falei pra minha mãe que queria ser mulher. Quando voltei pras bandas e fanfarras, comecei a me identificar como mulher trans", afirma.

Encontro com Euvira

Em 2015, muito incentivada pelos amigos gays e trans em Maringá, Valentina veio para São Paulo. Tinha R$ 600 no bolso. Arrumou trabalhos na área da moda, mas nada muito animador. Meses se passaram e São Paulo se mostrava uma decepção.

Até que um dia, na Praça Roosevelt, conheceu a performer e artista visual Euvira, nome artístico de Misael Franco, e seu marido, Leo Teófilo. Euvira estava entre os fundadores da Coletividade Namíbia, que batalha pela maior presença de artistas negros nas festas. Os dois levaram Valentina à sua primeira festa de música eletrônica, a ODD. "Nunca tinha colado numa rave de galpão. Daí comecei a ver várias pessoas da moda, que eu sabia que eram importantes. Fiquei muito impactada, com aquilo na cabeça: 'meu Deus que foda essa experiência, isso é que é São Paulo, era isso que queria conhecer'."

Rapidamente, Valentina passou a participar das festas como performer, subindo nas caixas de som com roupa, maquiagem e cabelo cuidadosamente preparados para coreografias. A montação ia sendo desmontada ao longo das horas de performance. "Chegava um momento em que eu tava quase nua, só de calcinha, e isso mexia com o povo também."

Entre as festas, a Mamba Negra, onde é DJ residente, tornou-se sua preferida. "Lá eu me senti confortável em ser trans, estar de topless e só de calcinha zanzando pela festa. Havia também uma união, sempre senti que era algo além de droga e momentinhos no backstage." Valentina expressa gratidão e admiração pela festa e suas fundadoras, a multiartista Laura Diaz e a DJ Cashu.

O incentivo para que Valentina experimentasse a discotecagem veio de Cashu e de outra DJ residente da Mamba, Amanda Mussi. Quando a DJ Honey Dijon, de Chicago, também trans e preta, veio tocar no Brasil, Valentina foi levada pelas amigas. Acabou em cima da caixa de som, chacoalhando ao som das músicas da norte-americana.

Depois, tentou conversar com Honey Dijon, mas a artista saiu rapidamente do palco e não deu. "Fiquei meio triste, mas depois pensei: 'se essa mina de Chicago conseguiu estar aqui no Brasil hoje, transfóbico, saindo escoltada por seguranças, ovacionada, eu tô no caminho certo'."

"Botei na cabeça que queria ser DJ de pista, tocar para muita gente, me ver então enfim nesse lugar de destaque, tão almejado pelas pessoas brancas, e retomar isso", empolga-se.

Valentina lembra então de uma coisa que Euvira lhe falou: "o house é preto". Criado por DJs negros em Chicago nos anos 1980, como Frankie Knuckles e Steve Silk Hurley, o house foi a matriz da música eletrônica que dominou pistas de dança de todo o mundo, das pistas subterrâneas de Berlim aos clubes endinheirados de Dubai.

É muito comum, no entanto, que essas raízes sejam esquecidas diante do sucesso de tantos DJs brancos, especialmente europeus. Valentina é consciente do processo de apagamento."'É uma reparação histórica você tocar', me falou Euvira. 'Você vai conseguir e vai atingir lugares que nenhuma conseguiu antes'."