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Maior lenda do futebol esloveno, brasileiro Tavares pendura as chuteiras

Marcos Tavares, o jogador brasileiro que se tornou uma lenda no futebol da Eslovênia Imagem: Klemen Razinger/UOL

Edison Veiga

Colaboração para o TAB, de Bled (Eslovênia)

24/05/2022 04h01

Se na Eslovênia houvesse um Galvão Bueno, a narração esportiva teria sido cheia de "fortes emoções" e nos últimos minutos não faltariam chavões como "é teste para cardíaco, meu amigo!". Não tanto pelo jogo, mas pelo jogador. Naquele sábado, dia 14 de maio, o anfitrião NK Maribor venceu o Aluminij por 3 a 1, a última partida em casa do brasileiro Marcos Tavares, 38, considerado o maior jogador da história do futebol esloveno. O título nacional do NK Maribor viria no domingo seguinte, dia 22.

Na despedida em casa, o que mais teve foi emoção para homenagear a estrela: Letícia, sua mulher, armou com a direção do clube a vinda dos pais e dos irmãos do atleta para assistir ao jogo ao vivo, no estádio, sem que ele soubesse. De quebra, Tavares realizou o sonho da vida: em uma passagem de bastão simbólica, jogou os cinco minutos finais ao lado do filho, também Marcos Tavares, 17.

"A gente até tabelou junto", comenta ele, emocionado, à reportagem do TAB. O filho também está bastante comovido. "Foi um dia muito especial para mim e para meu pai", diz o jovem, que vem sendo chamado de Tavares Jr. "Foi uma honra jogar com o maior jogador e artilheiro da Eslovênia: meu pai é meu ídolo dentro e fora de campo e estou muito feliz em estrear assim no time principal."

"Estou muito, muito orgulhoso do filhão. Era nosso sonho", completa o pai.

Marcos Tavares acalentava o desejo de não pendurar as chuteiras sem ter a oportunidade de jogar com o filho. Não à toa, vinha adiando a aposentadoria havia três anos. Ou "planejando", como ele costuma dizer.

Logo que começou a namorar a mulher, ainda aos 18 anos, disse a ela que queria ter um filho o quanto antes, "para ter a chance de que ele me visse jogar profissionalmente", diz. "E que um dia eu pudesse jogar com meu filho." Entrar em campo profissionalmente com Tavares Jr., então, foi o cromo prateado de uma carreira cheia de figurinhas raras.

Imagem: Milos Vujinovic/Divulgação
Tavares é o maior artilheiro da história do campeonato nacional, com 159 gols Imagem: Divulgação

O artilheiro de Alvorada

Tavares colecionou recordes no periférico futebol esloveno. Um dos seis nomes (o único não eslavo) no rol das lendas do futebol local segundo a NZS, a CBF eslovena, o atleta é o maior artilheiro da história do campeonato nacional, com 159 gols. Do segundo colocado (Stefan Skaper, com 130 tentos) ao sexto (Damir Pekic, com 103), todos estão aposentados. O sétimo, Rok Kronaveter, ainda está em atividade e até agora anotou 102 metas.

Na história do NK Maribor, Tavares reina de forma ainda mais absoluta. Ele marcou 211 gols pelo clube; o segundo maior goleador do time, fundado há 61 anos, fez 117. Ao longo de sua trajetória no futebol esloveno, com a braçadeira de capitão que assumiu já na primeira temporada, em 2008, ele perdeu as contas de quantas taças ergueu: só campeonatos nacionais da primeira divisão foram nove.

Nascido em 1984, em Porto Alegre, Marcos Tavares foi criado em uma comunidade pobre no município de Alvorada (RS). "Dormia no chão, não tínhamos nem cama", lembra. O futebol passou a ser uma obsessão.

Na adolescência, jogou nos times de base tanto do Internacional quanto do Grêmio. Também chegou a atuar nos times juvenis da seleção brasileira. Em 2001, integrou a equipe que se sagrou campeã sul-americana sub-17, no campeonato disputado no Peru. Era uma carreira que parecia ser promissora.

Entretanto, ele mesmo assume, faltou inteligência emocional. "Se fizesse os gols que eu fiz aqui no Brasil, a repercussão seria muito maior. Mas errei muito quando era jovem, no início da carreira. Saí da favela e me sentia a estrela do Grêmio. Aí minha mentalidade era assim: ia para a noite todos os dias. As festas me levaram para longe do que eu queria ser no Brasil", argumenta.

Ficou apenas um ano no time principal do Grêmio, em 2003. Aí foi para o Kedah, na Malásia. Teve uma passagem rápida pelo Atlético Paranaense, voltou ao Kedah, depois jogou por um ano no Porto Alegre e acabou sendo contratado pelo Apoel, do Chipre. Isso tudo até 2007 — sim, até então, o que se desenhava era uma carreira errante.

No meio disso tudo, contudo, Tavares encontrou Jesus. E é a essa conversão que ele atribui seu sucesso pessoal, dentro e fora de campo.

Na sua última partida em casa, Tavares foi homenageado e surpreendido com a família do Brasil Imagem: Milos Vujinovic/Divulgação

'Eslováquia? Eslovênia?'

"Na Malásia, havia apenas mais um brasileiro. E ele e a mulher eram evangélicos", explica Tavares. A amizade natural, pela proximidade cultural, acabou significando leituras bíblicas. "Encontrei Jesus Cristo e comecei a me acalmar, ver os caminhos, os princípios e os valores. Mudei minha vida."

Nunca mais deixou de ser religioso. Chegou a frequentar a Igreja Batista na passagem seguinte que teve por Porto Alegre e, no Chipre, reunia-se com um amigo cabo-verdiano para orações e leituras bíblicas.

Em 2007, o jogador de Cabo Verde foi transferido para o NK Maribor. "Então ele me disse: olha, estão precisando de um atacante por aqui. Por que você não vem?", recorda. "Eslováquia? Eslovênia? Onde era isso?"

Digitou no Google. Encantou-se com a natureza bonita, gostou do que viu. Pesquisou e também considerou que o país, um dos mais seguros do mundo, seria um lugar legal para criar os filhos — sua mulher estava grávida do segundo filho do casal.

Diz que os primeiros meses foram difíceis. Na adaptação, amargou um jejum de meses sem balançar as redes e ficou no banco para algumas partidas. Mas teve um anjo da guarda: o ex-jogador Zlatko Zahovi, maior artilheiro da história da seleção eslovena, que havia jogado no futebol português e se comunicava bem no idioma, atuava como dirigente do Maribor. Passou a orientar Tavares e ajudá-lo a se comunicar.

"No começo, eu só falava em inglês. Foram quatro anos até aprender esloveno e conseguir dar minha primeira entrevista em esloveno", conta. "Mesmo assim, já no primeiro ano ganhei a braçadeira de capitão."

Tavares e a mulher, Letícia, no campo do NK Maribor, na Eslovênia Imagem: Milos Vujinovic/Divulgação

Eu sou a lenda

"Quando as coisas começaram a acontecer, eu vi que estava fazendo uma carreira aqui", analisa. O sucesso também foi abrindo portas. A federação local de futebol ajudou-o a realizar todos os trâmites para a obtenção da cidadania eslovena.

A ideia era que ele pudesse defender a seleção, mas, como ele já havia jogado pela seleção sub-23 do Brasil, houve a necessidade de solicitar uma autorização para a FIFA — que negou o pedido.

Mesmo sem defender as cores nacionais, é inegável que ele se tornou um ídolo. Tornou-se garoto-propaganda de algumas marcas, passou a ter produtos licenciados, ganhou mural em sua homenagem na entrada do clube.

Em 2015, seu nome (e as cores do NK Maribor, roxo e amarelo) se tornaram até rótulo de espumante. Durante as férias, ele empresta nome e é aparição garantida em um acampamento de verão temático para crianças que sonham em um dia trilhar o mesmo sucesso.

No ano passado, lançou sua autobiografia em esloveno; "Legenda" (em português, "A Lenda"). "Quem sabe um dia também não sai por alguma editora no Brasil, não é?", vislumbra.

"Marcos Tavares se tornou um dos mais amados jogadores que já jogaram na liga eslovena. Não são apenas os torcedores do Maribor, mas todos os eslovenos o adoram. Não apenas pelos seus gols, mas porque ele é um ser humano excepcional", comenta o treinador de futebol Grega Voncina, torcedor do NK Maribor e membro do estafe do NK Bled.

Tavares e o filho, Tavares Jr., no fim do jogo do NK Maribor Imagem: Divulgação

Jezus Je Pot

Pai de cinco filhos, Tavares vive em uma confortável casa na cidade de Maribor, a segunda maior da Eslovênia, com cerca de 95 mil habitantes. A aposentadoria não significará uma mudança de volta ao Brasil. Fincou raízes. Tavares Jr. espera repetir o sucesso do pai no futebol e, se possível, um dia defender a seleção eslovena principal.

Marcos Tavares já aceitou o convite do Maribor: a partir de segunda-feira (23), assume como assistente da direção do clube — e uma das suas missões é descobrir novos talentos.

Longe dos gramados, também espera se dedicar mais ao altar. Nos últimos anos, graduou-se em teologia pela Florida Christian University, dos Estados Unidos, em um curso acadêmico online. Conta que fez outros dois cursos na área, menores. Com Leticia, fundou uma igreja evangélica, a Jezus Je Pot — em português, Jesus é o Caminho.

Tavares é um dos pastores. Tem feito quatro pregações por mês — uma em esloveno e três em português, com tradução simultânea para a plateia. Sua igreja costuma reunir de 70 a 100 pessoas por cultos; na maioria, eslovenos. "Agora terei mais tempo para a igreja. E também vou conseguir aceitar convites que recebo para pregar em outras igrejas", afirma.

"Tudo o que consegui foi pela misericórdia de Deus", diz. "Queria fazer história como jogador de futebol e Deus quis que eu fizesse história na Eslovênia. Amém. Cumpri os objetivos: para a Eslovênia, minha carreira foi grande e eu me tornei 'a lenda'."

Marcos Tavares tornou-se assistente do clube; o filho, Tavares Jr., espera repetir o sucesso profissional do pai Imagem: Klemen Razinger/UOL

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