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Rapper revitaliza região onde passou 20 anos em situação de rua, no Rio

Rapper Shackal, na Lapa, no Rio - Fabiana Batista/UOL
Rapper Shackal, na Lapa, no Rio
Imagem: Fabiana Batista/UOL

Fabiana Batista

Colaboração para o TAB, do Rio

04/08/2022 04h01

Shackal anda sorridente pela Lapa, no Rio de Janeiro. Atravessa a rua na tranquilidade, para e conversa com amigos. Ali ao lado, num cantinho de 180 metros que reúne as ruas Marques Rebelo, Morais e Vale e o Beco dos Carmelitas, está o Beco do Pantera, uma via sem saída onde paredes de sobrados e do prédio da ANS (Agência Nacional de Saúde Suplementar) estão sendo grafitadas.

O rapper, um dos precursores do hip hop no Rio, é quem está liderando a revitalização da ruela, com inspiração no Beco do Batman, hoje um dos pontos instagramáveis de São Paulo. Pode parecer pouco, mas foi um longo caminho até ali: depois de quase duas décadas vagando por ruas e favelas, morando sob os arcos da Lapa, Shackal diz estar "de volta pro game da vida".

A ação acontece com a Tropa da Solidariedade, organização que distribuiu quentinhas para pessoas em situação de rua durante as restrições mais rigorosas na pandemia de covid-19. Shackal lembra que, na época, se viu inclusive ajudando gente que o acolheu quando ele mais precisou.

Estava surfando no sucesso na década de 1990, mas se afundou nas drogas, arrumou confusão com os amigos e foi morar na rua "como um zumbi". Conseguiu se reerguer recentemente, voltou a gravar e, com as ações da Tropa da Solidariedade, foi convidado para participar do Vancouver Mural Festival, que se inicia nesta quinta (4), no Canadá — ali, pretende selar parcerias para levar grafiteiros famosos para o Brasil.

Rapper Shackal, na Lapa, no Rio - Fabiana Batista/UOL - Fabiana Batista/UOL
Depois de quase 20 anos morando na rua, Shackal diz estar 'de volta pro game da vida'
Imagem: Fabiana Batista/UOL

Lembra da trupe do 'Cidade de Deus'?

Jorge Luiz Santos, o Shackal, 49, nasceu na favela da Rocinha e passou parte da infância na zona rural da São Gonçalo de 1980, um tanto de mato, onde aprendeu a ver as horas pelo sol, pescou no rio e brincou à luz da lua.

O pai, pedreiro e eletricista, construiu a própria casa e um terreiro ao lado para a esposa, mãe de santo. Ele era alcoólatra e violento com os filhos. Ela, doméstica na zona sul do Rio, não aguentou, levando as três crianças e a avó para morar em uma casa de palafitas no Complexo da Maré.

O caçula Shackal não se lembra das datas de suas histórias, mas as narra, eufórico, como se estivesse assistindo um filme da infância passar na sua frente. Lembra, sim, que não se conformava com o contraste entre a zona sul da cidade onde a mãe trabalhava e o cheiro insuportável da vala de esgoto onde a família vivia.

"A favela tem alegria, samba e gente guerreira, mas também muita dor, sofrimento e raiva calada no peito."

É a alegria dos churrascos de família embalados por Bezerra da Silva, Benito di Paula e Bebeto e das caixas de som 4520 tocando soul music na laje da rua 1, na Rocinha, diz, levantando de repente, com seus 1,83 m de altura. E é a dor de ver o corpo da avó enrolado num cobertor e levado até a via principal pelos vizinhos, ou de, aos 11 anos, deparar-se com armas gigantes ostentadas na frente da sua casa.

"Lembra da trupe do 'Cidade de Deus'? Nós também zanzávamos pelas ruas", conta, entre um suspiro mais profundo e outro. Na adolescência, ele e outros nove garotos andavam atrás de um sapato para engraxar e conseguir um trocado no centro do Rio.

De manhã, a turma passava na catedral da avenida Chile, para pegar um lanche do projeto social São Martinho. Shackal conquistou a confiança de um dos idealizadores e foi contratado para trabalhar como office-boy em uma empresa.

Nos intervalos, o novato começou a escrever letras de funk e, certa vez, tomou coragem e cantou num baile da Maré. "Eles me chamaram sem me avisar antes. Surpreso, subi e cantei. Foi uma sensação incrível e eu não quis mais parar."

Beco do Pantera, na Lapa, no Rio - Fabiana Batista/UOL - Fabiana Batista/UOL
Grafite no Beco das Carmelitas, na Lapa, no Rio de Janeiro
Imagem: Fabiana Batista/UOL

Luz do dia

Apesar dos amigos do funk, foi no hip hop que o jovem Shackal se enturmou, em 1993, ao encontrar outros "revoltados com as injustiças contra o povo". Participou de encontros organizados por MV Bill na Cidade de Deus. Com perfil agregador, recebeu diversos convites, tornou-se rapper, produtor e ator, fez peças de Ernesto Piccolo e Rogério Blat, e freestyle no Zoeira Hip Hop, de Enza Coen.

Entre 1997 e 2000, estava no auge: fez músicas com BNegão, MV Bill e Marcelo D2, foi ator, integrou o grupo 3 Pretos. "Compartilhava o palco com artistas que eu via na TV, tá ligado?", exemplifica. Entretanto, fugia para cheirar cocaína no fim das festas badaladas da Lapa. Nessas fugidinhas, perdia a hora e brigava com todo mundo.

"Enquanto os caras queriam levar o trampo a sério, fui saindo do game e me afundando nas drogas."

Os quase 20 anos que viveu nas ruas foram "sem ver a luz do sol", conta, cabisbaixo. "Fiquei vagando pelas ruas e becos", diz, apontando para baixo do terraço do hotel Selina, na Lapa. "Fedia e era escuro."

Hoje, o rapper caminha perto da escadaria Selarón e indica os estabelecimentos que o ajudaram na época, que davam marmitas. Entre os que viviam na rua também tinha solidariedade, relata, em lágrimas e com a voz embargada. "Eles me mostraram pontos em que marmitas e frutas eram encontradas", diz. Eram buracos onde outras pessoas em situação de rua deixavam ou pegavam alimentos. "Virei mendigo, tá ligado?"

2013 foi o início de uma reviravolta. Na época, Shackal foi convidado para participar do programa "A Liga", da Band, e ficou horrorizado ao se assistir drogado na TV de um bar.

"Não tenho vergonha do que passei. A dependência química é uma doença e deve ser tratada", diz ele, que procurou clínicas de reabilitação, mas conta que conseguiu se desintoxicar apenas em 2016, num tratamento com ibogaína em Foz do Iguaçu (PR). Voltou a morar com a mãe e, para sobreviver, vendeu águas e cervejas no Carnaval.

Shackal voltou a andar pelas ruas, desta vez lúcido. Foi recebido por amigos com um baile e, em 2017, participou do show do Hypnotic Brass Ensemble, no Circo Voador e, além de produzir eventos do hip hop, organizou a revitalização do Beco do Pantera.

Agora, o rapper acorda às 6h da manhã e faz uma hora de caminhada, todo dia. Pretende, nas suas palavras, "nunca mais pisar na bola e voltar para a escuridão".

Beco do Pantera, na Lapa, no Rio - Fabiana Batista/UOL - Fabiana Batista/UOL
Grafiteiro Binho assina um dos murais no Beco das Carmelitas, na Lapa
Imagem: Fabiana Batista/UOL