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'À altura': filho de brasileiros, rapper faz batalha de MCs no Japão

Filho de brasileiros, nascido no Japão, o rapper Luiz Alves participou do evento Who"s Real no domingo (5) - Bruna Luise/UOL
Filho de brasileiros, nascido no Japão, o rapper Luiz Alves participou do evento Who's Real no domingo (5)
Imagem: Bruna Luise/UOL

Roberto Maxwell

Colaboração para o TAB, de Tóquio

08/06/2022 04h01Atualizada em 08/06/2022 10h00

Com seu famoso cruzamento cheio de painéis luminosos, Shibuya é considerado por muita gente a Times Square de Tóquio. Um dos bairros mais agitados da Ásia, por aqui passam milhares de pessoas por dia. Andar pelas ruas de Shibuya é encontrar, aqui e ali, elementos da cultura negra norte-americana que ganharam o mundo. Grafites, quase inexistentes em outros cantos da cidade japonesa, aparecem junto com stickers nas poucas paredes "pintáveis" do bairro abarrotado de prédios estreitos que acomodam, em seus espaços mínimos, de restaurantes a estúdios de tatuagem.

No calçadão principal e nas ruas laterais, as roupas largas, calças rebaixadas e toucas que caracterizam a moda hip hop desfila nos corpos, quase sempre muito magros, de dezenas de rapazes que se dirigem para um prédio de sete andares, um dos espaços para eventos mais alternativos do bairro, onde se realizam festas e batalhas de MC. Na tarde nublada de domingo (5), jovens esperam na calçada a abertura pontual das casas para se espremerem no elevador que leva aos clubes. Boa parte deles veio dos subúrbios e espera ter pelo menos um minuto de glória no palco do sétimo andar, onde vai rolar a Who's Real, uma das batalhas de MCs mais populares de Tóquio.

Não muito distante dali fica a Manhattan Records, uma das lendárias lojas de vinil da capital japonesa. O espaço é conhecido por convidar grafiteiros para pintar suas paredes externas, como uma espécie de galeria a céu aberto. Em 2012, o brasileiro Titi Freak foi um dos convidados — o grafite dele não existe mais, mas a passagem do artista segue registrada no chão da entrada da loja, onde ele reproduziu a mesma padronagem das calçadas paulistanas, com mapas do estado de São Paulo estilizados.

É num banquinho disponível para os transeuntes na entrada da loja que o TAB conversou com Luiz Alves, 23, um dos sonhadores da Who's Real. Diferentemente dos outros jovens na fila do elevador, ele é relativamente conhecido. Ace, seu irmão quase dez anos mais velho, já é famoso na cena. Filho de brasileiros, nascido no Japão, Luiz também é etnicamente diferente dos outros rappers: preto e alto, ele se destaca facilmente na multidão. Talvez por conta disso, é muito direto quando se apresenta a alguém. "Luiz Alves. Só digo o meu nome. Prefiro que as pessoas descubram por elas mesmas que eu faço rap", diz.

O rapper japonês Luiz Alves - Bruna Luise/UOL - Bruna Luise/UOL
Luiz às vezes se refere a si mesmo como 'Black Rabbit', referência ao personagem de Eminem no filme '8 Mile'
Imagem: Bruna Luise/UOL

Pais sambistas, filhos rappers

Música é uma realidade na vida do Luiz desde a infância. Além do irmão rapper, seus pais — Mariângela e Marquinhos Ramos — são conhecidos artistas de samba que se estabeleceram no Japão há quase três décadas, quando a música brasileira vivia um boom na Terra do Sol Nascente. "Eles vieram do Brasil para trabalhar, criaram três filhos. No lugar deles, não sei se seria capaz de conseguir o mesmo. Respeito muito meus pais", conta.

Luiz tem lembranças dos eventos de samba em que os pais se apresentavam. Também se lembra de ouvir muita música brasileira em casa. A memória musical mais antiga é dele, muito provavelmente ainda de fraldas, dançando "Jura", samba clássico de Sinhô, regravado por Zeca Pagodinho em 2000.

Do Brasil, lembra da época em que passou "três ou seis meses" no país, quando tinha apenas 6 anos de idade. Foi a única vez que visitou a pátria de origem da família. "Estava passeando na rua, em Belo Horizonte, e lembro de ver uma criança de uns três anos pendurada em uma janela. A criança olhou para mim e fez assim", recorda ele, levantando o dedo do meio. "Na hora, fiquei pensando em como as crianças do Brasil eram diferentes das do Japão", diz.

Batalha de rap em Tóquio - Bruna Luise/UOL - Bruna Luise/UOL
Imagem: Bruna Luise/UOL

Apesar da influência dos pais, Luiz hoje se diz pouco conhecedor da música brasileira. Não fala português com muita fluência, mas entende a língua. Por isso, acompanha um pouco do rap brasileiro, que "tem ritmo, humor", opina. No YouTube, ele assiste a vídeos de batalhas de MCs e ficou particularmente interessado no trabalho de MC BMO. "Ele não perde nem para adultos", diz sobre o rapper que hoje tem 16 anos, mas participa de batalhas de MCs e cyphers (rodas de improviso de rap) desde a infância.

A identificação com o adolescente não é por acaso. Luiz começou a enfrentar batalhas com 14 anos, levado pelo irmão que já era MC. Na primeira vez, interessou-se pelo ambiente, com "muita gente diferente", estrangeiros e outros jovens. Logo decidiu assistir a mais uma batalha e, já no final da sua segunda experiência, arriscou-se no cypher que um grupo organizou num parque próximo ao clube. "Não fui bem mas, depois dessa, não parei mais", recorda ele, então fã ardoroso dos norte-americanos 50 Cent e Eminem.

Batalha de rap em Tóquio - Bruna Luise/UOL - Bruna Luise/UOL
Jovens japoneses dos subúrbios vão para o badalado bairro de Shibuya para participar de competições de rap
Imagem: Bruna Luise/UOL

Coelho preto

Hoje Luiz tem uma vitória e umas finais importantes no currículo. Estreou profissionalmente em 2019, com o lançamento do single "Traveller" pela Nora Records, um selo especializado em rap e R&B japonês.

A música tem batidas e vocais que remetem à fase inicial da carreira do Eminem, que ainda é uma referência para Luiz, que às vezes se refere a si mesmo nas letras como "Black Rabbit" ("coelho preto", em inglês). O codinome é inspirado em Jimmy "B-Rabbit" Smith, personagem de Eminem no filme "8 Mile: Rua das Ilusões", de 2002. "Sou do ano do coelho, já cuidei do animal. Isso também me levou a adotar o apelido", acrescenta.

Luiz, no entanto, procura ter cuidado com referências. "Pode parecer arrogante, mas não quero me deixar influenciar por muitos artistas. Quero ser original. Ouço o que meus amigos me apresentam, ouço meus amigos. Mas não sou de procurar novas músicas", explica.

Arrogância não é mesmo uma marca do rapper. Pelas faixas lançadas até agora, incluindo o EP "Memory Rain" (2019) e o single "Feel So Bad" (2021), o que se vê é um artista sem muita ansiedade em se fazer entender. "As pessoas são muito diferentes e o modo como elas veem as coisas varia de acordo com a vida e as condições em que elas vivem", diz.

O rapper japonês Luiz Alves - Bruna Luisa/UOL - Bruna Luisa/UOL
'As pessoas são diferentes e o modo como veem as coisas varia de acordo com as condições em que elas vivem'
Imagem: Bruna Luisa/UOL

'Saudade'

Apesar de estar longe do mainstream, a estratégia de Luiz parece estar funcionando. Com uma voz "fácil de ouvir", como diz um comentário no videoclipe de "Saudade", disponível no YouTube, o músico é tido como "top class, diferente dos outros MCs de batalha". A suavidade parece vir de uma certa melancolia que o rapper traz na voz e nas letras. "Saio à procura pela cidade, mas parece que não há nada", recita ele no clipe, deitado no que poderia ser o sofá da sua casa.

Isso não quer dizer que Luiz não tenha sua militância. Como homem preto num país em que o assunto diversidade não é tratado como agenda prioritária, ele teve experiências que a vida o ensinou a esquecer. Com a mãe, entretanto, aprendeu uma lição que carrega consigo. "Vi pessoas dizerem para a minha mãe voltar pro país dela e ela sempre respondia, questionava, perguntava se estava fazendo algo de errado", relembra. "Também não estou fazendo nada de errado. Então, para mim, é o mesmo espírito de uma batalha de MCs: se alguém me diz algo, respondo à altura", completa.

A batalha, aliás, já começou. Umas 80 pessoas estão vidradas, reagindo com gritos a tudo o que rola no palco. Luiz, por sua vez, observa tudo atentamente, sem esboçar reação, como se estudasse cada verbo usado pelos potenciais adversários. Pegar palavras soltas, aliás, é para ele um treino, inclusive quando está na rua e se depara com outdoors. "Encontro uma palavra e fico procurando as rimas", explica.

Chega a hora, Luiz sobe ao palco meio ressabiado. O DJ solta o ritmo e ele começa manso com as rimas, até que acelera o passo. O adversário responde com certa ginga e melodia até soltar uma metralhadora verbal. A resposta vem à altura, com Luiz eriçando a plateia. Mas parece que o concorrente veio disposto a levar. Ele rima rápido, deixando Luiz aturdido.

A audiência já escolheu seu campeão: hoje não deu para Luiz. Ele cumprimenta o vencedor e desce, sem perder a dignidade. Como foi?, pergunto minutos depois. "Foi legal", responde ele, lacônico, mas com a calma de quem parece estar buscando a rima certa na tranquilidade.

O rapper japonês Luiz Alves - Bruna Luise/UOL - Bruna Luise/UOL
'Vi pessoas dizerem para a minha mãe voltar pro país dela e ela questionava se estava fazendo algo de errado'
Imagem: Bruna Luise/UOL
Errata: o texto foi atualizado
A primeira versão deste texto afirmava que a nacionalidade de Luiz Alves é japonesa. Na verdade, Luiz nasceu e vive no Japão, mas como seus pais são brasileiros, a nacionalidade dele é brasileira. O texto foi corrigido.