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Jovem colocado de castigo no freezer escondeu caso do pai: 'Tinha vergonha'

Ex-funcionário do Burger King, Paulo Ricardo diz que era colocado no freezer e recebia lanche sem carne como punição - Lucas Seixas/UOL
Ex-funcionário do Burger King, Paulo Ricardo diz que era colocado no freezer e recebia lanche sem carne como punição Imagem: Lucas Seixas/UOL

Do TAB, em São Paulo

06/08/2022 04h01

O balcão de atendimento é tudo que os olhos dos clientes das redes de fast food alcançam. Atrás das telas exibindo fotos de combos, brinquedos e sorvetes coloridos fica o setor de montagem dos lanches, de preparação das carnes, a geladeira e freezer, com seus 18 graus negativos. Era nesse ambiente polar que o ex-funcionário do Burger King Paulo Ricardo Almeida de Jesus, 20, reclamou ter sido levado como forma de punição.

A informação é parte do relato de assédio moral que rendeu, em julho, ganho de causa num processo trabalhista. Também foram anexadas à ação situações como receber lanche sem carne no horário de jantar e xingamentos na frente dos colegas. Paulo Ricardo se revolta com a motivação do que classifica como perseguição: diferenças futebolísticas.

Ele é são-paulino no nível de usar capa do celular do clube e estar em vários grupos de WhatsApp sobre o time. O gerente que supostamente executava as punições pertence à Pavilhão Nove, torcida organizada do Corinthians. O que reforça a crença de Paulo Ricardo sobre a razão ser o futebol é que o mesmo comportamento era dirigido a outros dois colegas tricolores.

Paulo Ricardo entrou no Burger King da avenida Roberto Marinho, em São Paulo, no dia 21 de junho de 2018. Ele disse que o ambiente de trabalho foi amistoso até o começo do ano seguinte, quando houve troca de gerente. O primeiro golpe na harmonia do restaurante seriam os xingamentos em tom de voz alterado. "Que p.. é essa? Que m... você tá fazendo aqui?", era a forma de o chefe se dirigir aos funcionários, de acordo com Paulo Ricardo.

Até então ele tinha recebido duas promoções e era instrutor. Nada que impedisse de ser transferido para o turno da madrugada junto com os outros dois são-paulinos da equipe. Os três tinham que tocar o restaurante e o gerente ficava na supervisão.

De acordo com o instrutor, em certa ocasião a carne queimou e ele foi chamado para dentro do freezer. Recebeu uma reprimenda e um murro no corpo. Precisou ficar cinco minutos no ambiente gelado antes de sair. Na época, Paulo Ricardo tinha 17 anos e ficou consternado. Apesar da raiva, o sentimento que prevaleceu foi uma confusão que levou à paralisia.

Hoje, ele avalia que a juventude, aliada à necessidade do emprego, fizeram com que não reagisse. O instrutor mora com o pai no Capão Redondo, na zona sul de São Paulo, e sua parte nas contas de casa são a água e a energia elétrica. "Se reagisse, ele ia dar suspensão e advertência e eu ficava com medo."

Paulo Ricardo afirma que o gerente era mais velho, mas menor em altura e porte físico. Ainda assim, nunca pensou em revidar. O instrutor disse que, se fosse obrigado a entrar no freezer com a idade atual, o desfecho da história seria diferente. "Não ia aceitar isso de nenhuma forma."

Paulo  - Lucas Seixas/UOL - Lucas Seixas/UOL
Paulo conta que era tão comum receber lanche sem carne que se acostumou a levar marmita para o trabalho
Imagem: Lucas Seixas/UOL

Castigo ampliado

Com a falta de reação, o gerente avançou nas punições. Derrubar alface no chão era motivo para o funcionário receber o lanche da hora da refeição sem alface. O mesmo valia para todos os ingredientes e houve noites em que passou praticamente a pão e água. "Teve uma hora que a gente comeu pão, maionese, ketchup e picles."

Paulo Ricardo conta que o refrigerante foi cortado, Certa ocasião, o gerente determinou que ninguém no restaurante teria direito a batata frita durante um mês. Receber lanche incompleto se tornou tão comum que Paulo Ricardo levava marmita.

Por trás dessas punições em série estaria o sistema de funcionamento do restaurante. O instrutor explica que há um intervalo de tempo para cada sanduíche e fritas serem vendidos depois de prontos. Caso não apareça cliente, as comidas vão para o lixo, evitando que o consumidor compre um lanche velho. Esse desperdício é anotado em um relatório referente ao turno do superior.

Ao mesmo tempo, quando há concentração de clientes, a entrega rápida do pedido é uma premissa de um negócio que se chama fast food. Paulo Ricardo afirma que o gerente transformou um parâmetro de qualidade em terrorismo.

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Por pressão do gerente, o São Paulo era assunto proibido no Burger King em que Paulo Ricardo trabalhava
Imagem: Lucas Seixas/UOL

Denúncias ignoradas

Os castigos se tornaram tão frequentes que Paulo Ricardo evitava passar em frente ao freezer. Havia temor de ser obrigado a ficar cinco minutos sentindo frio ou tomar um murro. Outra coisa que ele não podia fazer era falar do São Paulo. O instrutor conta que os três torcedores foram reprimidos até entenderem que o time deles não era assunto bem-vindo dentro do restaurante.

Mas não era uma via dupla. O gerente fazia questão de tirar sarro em cada derrota são-paulina e exaltava as vitórias do Corinthians. O instrutor reclama que as tentativas de contornar o problema resultaram em nada. A primeira foi pedir para mudar de restaurante, solicitação não atendida.

Paulo Ricardo conta que um dos torcedores que trabalhava no turno da madrugada procurou o canal de denúncias do Burger King. O relato pareceu surtir efeito, porque o supervisor do restaurante apareceu e teve uma conversa com o gerente.

A esperança serviu apenas para criar uma decepção maior ainda. Paulo Ricardo declarou que os funcionários não foram ouvidos e que a denúncia não deu em nada. O comportamento do gerente não melhorou, nem piorou. Continuava a rotina de levar comida de casa e evitava passar perto do freezer.

Artigos de esportes - Lucas Seixas/UOL - Lucas Seixas/UOL
Paulo Ricardo trocou de ramo e hoje é vendedor de uma rede de artigos de esportes
Imagem: Lucas Seixas/UOL

Vergonha de contar a verdade

A rotina começou a pesar e Paulo Ricardo não aguentava mais ir ao trabalho. O incômodo aumentava porque ele temia não conseguir pagar a luz e a água e, ao mesmo tempo, não tinha coragem de revelar ao pai o que estava acontecendo. "Ia ser um bagulho feio. Eu tinha vergonha."

A solução encontrada foi um trabalho novo. Um dia, na mesa do almoço, o instrutor suplicou ao pai que ajudasse a encontrar um emprego. Vendo a gastura do filho, o pedido foi aceito e Paulo Ricardo deu baixa da carteira no Burger King em agosto de 2020. O alívio foi tamanho que ele criou coragem de contar a história.

"O pai falou que no trabalho dele também xingavam e, na hora que falei que me meu gerente me castigava, ele ficou chocado."

O instrutor recebeu indenização de R$ 7 mil em processo que moveu na 14ª vara do Trabalho de São Paulo. Na ação, Paulo Ricardo foi representado pela advogada Mariana dos Santos Zacharias. Ela conta que tem quatro clientes processando o Burger King e considera que irregularidades acontecem nas redes de fast food porque os gerentes são muito jovens.

"É falta de maturidade e falta de ter alguém para fiscalizar. A loja fica na mão destes meninos."

Paulo Ricardo deixou o setor de alimentação e hoje trabalha numa loja de shopping de uma rede de artigos esportivos. Ele se declara feliz por estar ganhando mais e longe do gerente. Acrescenta que não guarda mágoas da empresa, mas dizer o mesmo do antigo chefe é mais difícil.

Em nota enviada à reportagem, o Burger King afirma que, assim que receberam a denúncia, houve uma apuração sigilosa. "Foi feito um trabalho rigoroso de apuração e quando confirmadas as alegações, o funcionário em questão [gerente] foi desligado da empresa".

Segundo a empresa, "o bem-estar e segurança de seus funcionários é prioridade e, por isso, todas as denúncias recebidas são investigadas de maneira imediata. Caso a denúncia seja considerada procedente, imediatamente iniciamos os protocolos internos para aplicação e tratamento das medidas cabíveis".

O Burger King afirma ainda que investe em formação e num plano de carreira bem desenhado, "no qual pessoas mais jovens acabam assumindo papéis de liderança".