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'Fada da bunda': o reinado da personal Carol Vaz treinando celebridades

Foram 22 dias trocando mensagens, inclusive nos fins de semana, até conseguir espaço na agenda da personal trainer Carol Vaz, 39. O "sim" definitivo veio às 22h30 de uma terça-feira. "Desculpe, mas sou assim, casada com o trabalho", avisou ela ao telefone, com voz acelerada, como se tivesse acabado de treinar.

E tinha mesmo. Vinte anos depois de trocar a faculdade de direito pela de educação física, enquanto lutava contra uma compulsão alimentar, a carioca do Grajaú, na zona norte do Rio, indica de cara por que virou treinadora de famosas como a atriz Mel Maia e das funkeiras Jojo Todynho e Pocah: "Eu acredito em disciplina na vida, pra tudo. E sou 'workaholic' convicta".

A virada de chave só aconteceu depois que Carol -nascida Carolina Biolchini Costa Vaz- , aos 16 anos, foi parar no hospital de tanto comer. Irmã mais velha de uma família com três filhos, ela lembra que em casa sempre se comeu muito. Era normal, por exemplo, devorar sozinha uma pizza gigante com dois litros de Nescau batido com leite — o cardápio que a levou ao pronto-socorro. "Minha mãe preenchendo ficha e eu vomitando na entrada...", recorda-se.

O fundo do poço, Carol conta, nem foi nesse dia. Cerca de um ano depois, aos 17 anos, viu-se comendo ravióli em cima da panela, chorando porque não conseguia parar. "Estava me sentindo uma mulher fraca e não queria ser aquilo. Foi quando resolvi mudar."

Nessa mesma época, já estudando direito numa faculdade particular e para complementar a renda, candidatou-se à vaga de recepcionista na recém-inaugurada DNA. Até então a academia era uma casa amarela pequena, que nem ar-condicionado tinha. Aí começou sua transformação.

'Tipo unicórnio'

Falante, de cara chamou atenção do dono da rede, Nico Anfarri, 45. Ao TAB, ele diz que Carol tinha um magnetismo pessoal, um brilho próprio, "tipo unicórnio", e que "mesmo pequenininha" (ela tem 1,55m), era alguém em que todo mundo reparava.

Quando a entrevistou para a vaga de recepcionista, o empresário previu que a futura funcionária se sairia melhor dando aula, tamanha a desenvoltura. Carol, então com 19 anos, achou o comentário zoação, já que se considerava fora do peso -tinha 75kg-, era fumante, sedentária e almoçava salgadinho.

"As mulheres adoravam ela. Como ela passava confiança e cuidado, falei que, se parasse de fumar, começasse a treinar e mudasse de carreira, seria a melhor professora de todos os tempos da DNA. E foi o que aconteceu", lembra Nico em conversa com TAB.

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Carol acreditou, mas passou muito tempo ensaiando o momento em que contaria aos pais, Walter e Márcia, então funcionários públicos, sobre a mudança. Afinal, já estava no oitavo período, faltando um ano para se formar, e 20 anos atrás, ser personal trainer não era "emprego de verdade".

Quando esse dia chegou, ouviu que não teria futuro, e disso para baixo. O pai passou um tempo sem lhe dirigir palavra. Mas não tinha como voltar atrás.

"A faculdade de direito era muito legal, só tirava nota alta, mas eu era muito infeliz. Chegava ao estágio uma hora antes para chorar. Passei meses tomando coragem para me decidir. Mas sou muito esforçada no que faço, até hoje, no sentido de melhorar como professora, como pessoa, como mulher."

A empolgação com o curso de educação física fez Carol estudar em três campi diferentes para acumular o máximo de matérias e acelerar a formatura. Enquanto isso, treinava duas vezes por dia na academia, fora do expediente como recepcionista. E era ela quem abria o local, às 6h. "Faço isso até hoje. E às vezes fecho também."

Quando começou a ensinar os alunos a malharem, em 2004, professores homens passaram a rejeitá-la. Nico não vê outro motivo senão machismo. Na avaliação dele, Carol passava tanta segurança que até mulheres sentiam-se intimidadas.

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Imagem: Zô Guimarães/UOL

Fisiculturista, Patrícia Parada, 26, frequenta academia desde os 13 anos e atualmente treina com Carol. Ela conta que está perto de receber o diploma de educação física.

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"A Carol me incentiva em tudo, até a tirar sangue para fazer exame", conta. A influenciadora fitness viralizou nas redes ao mostrar sua "evolução de bunda".

'Amassa que é a última'

A reportagem acompanhou uma tarde de treino no recém-inaugurado espaço da DNA na Barra da Tijuca, na zona oeste. Com três andares, cerca de 3.000 m² e quase 70 funcionários - mais que o dobro da antiga casa no Grajaú —, a unidade tem mensalidades de R$ 450 a R$ 800. O boleto da antiga, fechada atualmente, custava R$ 150.

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Dentro desses pacotes, estão incluídas as aulas coletivas e de musculação com a Carol, mas quem quiser seu serviço como personal paga R$ 1.000 a hora.

Apesar de espaçosa, às 16h havia um número considerável de mulheres se revezando entre a musculação e as salas de aula. Carol parecia uma celebridade andando pelo calçadão: era abraço para lá, um "saudade, sumida!" para cá. Muita jogada de beijo. Uma das alunas, a rainha de bateria da escola de samba União da Ilha Juliana Souza, 35, parecia sofrer nas mãos da "carrasca".

"Ai, Carol. Dói tudo", reclamava ela, durante exercícios de perna. "Amassa que é a última", insistia Carol, repetindo um bordão constante, com voz grave e firme.

Ofegante, a empresária conta que procurou a personal trainer justamente pelo seu método pesado. "Ela entra na sua cabeça e consegue te fazer descobrir que é capaz de muita coisa, de ir além."

"Tenho muito orgulho de ter ajudado mulheres ditas normais. Elas sabem que treinam para se sentir livres, ainda que sejam donas de casa, historicamente consideradas fora do padrão. Eu as estimulo a treinar para se sentirem bem. Tem muito mais a ver com isso do que com o resultado estético. É uma mudança de mentalidade."

Mudar de mentalidade dói. Enquanto o treino não acaba, pelas caras e bocas, parece que o que suas alunas sentem é dor. Hora ou outra, as alunas xingam e gritam dizendo que não vão aguentar, como fez Juliana.

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"Tá com pena? Vem aqui e faz!", disse Carol à reportagem.

"Ela é carrasca mesmo?", perguntamos à Patrícia Parada.

"Parece? Ela é", respondeu a aluna sorrindo.

Na aula de jump, mais suadeira entre as 66 mulheres — apenas 4 homens participam do treino.

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Imagem: Zô Guimarães/UOL

Lado carrasco

A personal diz não ter muito contato com os seus. Não faz amizades e até se espanta ao ter de parar para lembrar a idade da irmã do meio, Nathalia, quatro anos mais nova. Também não sabe o que o irmão caçula, Márcio, faz. "Não sei de verdade. Ele mora em Portugal."

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Numa rede social, a mãe posta vídeos e reportagens sobre a filha famosa — em uma imagem de 2021, Carol recebe a medalha de mérito Pedro Ernesto, concedida pela câmara municipal. Carol recebeu a homenagem por "conduzir seu trabalho com ética e determinação, agindo sempre em função do bem-estar físico e mental de seus alunos", conforme indicado no requerimento que tramitou na Casa.

Num post de 2014, na data de aniversário de Carol, a mãe escreveu. "O que falar e como homenagear essa filha que tem um jeitinho tão especial? Só tenho a dizer que pode contar sempre comigo, e posso falar também pelo seu pai. Nós te amamos muito e desejamos que você tenha sempre as rédeas da sua vida em mãos."

Fotos da infância e adolescência de Carol em família estão em falta nas suas redes e nas dos pais e irmãos. Mas ela ri ao lembrar que, quando mais nova, saía na porrada com os meninos do futebol. A corretora Bruna Cely de Almeida, 39, contemporiza. Ela conhece Carol dos tempos de escola e se lembra de uma amiga "fofa" e nerd.

Bruna treinou com Carol por quase dois anos -perdeu cerca de 26 quilos-, e conhece bem o lado "carrasco" da amiga.

"Ela sabe mais do que ninguém o quanto é difícil abrir mão de coisas como doces. Para mudar fisicamente como ela, que fumava, bebia e comia joelho, precisa focar. E isso, de fato, te afasta de algumas pessoas."

Carol Vaz diz que treina para não enlouquecer -- é sua terapia. A atriz Mel Maia, 19, que treina há cinco meses com Carol, conta que sua ansiedade está mais controlada. "A gente vem aqui, coloca tudo pra fora, desabafa. As mudanças no corpo são consequência", afirma ela, sacando do celular fotos de dois meses atrás. "O corpo já está outro."

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Imagem: Zô Guimarães/UOL

Carol não tem assessoria de imprensa, mas anda com duas funcionárias que gravam seus treinos e ajudam-na a postar conteúdo nas redes. Trabalha de domingo a domingo, dorme pouco — algumas vezes na academia — e é dona de uma marca de roupas de ginástica.

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O que faz no pouco tempo que lhe sobra? "Encontro o cara com que eu saio de vez em quando, vou a um bom restaurante?", entrega ela, que não come açúcar há 17 anos, não bebe nada com álcool nem consome glúten. Carne vermelha, só aos fins de semana.

"As pessoas perguntam se não vou botar peito. Respondo que tô me sentindo ótima, e foda-se essa porra. Só faço botox porque eu vou fazer 40 já, né, gata?".

A reportagem questionou se Carol não tem um momento de descanso, só dela, inclusive para compensar as poucas horas de sono. "Minha mente não para e treinei muito nesse sentido. Eu escolhi isso e estou ótima, sou diferenciada. Vou de domingo a domingo. Sou workaholic convicta."

Nem sequer consegue pensar numa grande aspiração para o futuro. Mas, alguns minutos depois, entrega.

"Quero dar uma aula de spinning na virada do ano, no deck da DNA. Pedalei essa virada do ano na minha cobertura, sozinha, e esse ano vai acontecer aqui."

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