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Brasileiros sequestram marcas de empresas gringas e abrem falsas filiais

Uma empresa brasileira sediada em Minas Gerais está se passando por filial da gigante chinesa QCY, que fabrica eletrônicos.

A falsa representante, que registrou um site se passando pela marca, compra produtos da China e revende no Brasil por conta própria.

A QCY Brasil mineira, aberta em 2019, adota uma estratégia agressiva de marketing nas redes sociais.

O problema é que existe, de fato, uma filial oficial brasileira da QCY. O site qcybrasil.com e lojas oficiais da marca em marketplaces como Shopee e Mercado Livre são operados pela Blue Whale, de São Paulo.

A representante perde clientes e recebe reclamações por produtos adquiridos na loja "paralela" que não foram entregues.

Esse tipo de apropriação indevida de marca tem acontecido com frequência no Brasil. Valendo-se da distância, brasileiros têm aberto empresas e montado lojas alegando serem filiais de grandes marcas estrangeiras.

Essas pequenas operações, que revendem produtos comprados no mercado chinês, são conhecidas como "dropshipping" e são consideradas ilegais.

Em contato com a reportagem, a QCY da China explicou a situação. "A única empresa autorizada a representar a QCY no Brasil é a Blue Whale", diz a CMO Rice Hong.

"[A QCY Brasil] Nunca obteve nossa autorização. A operação deles no Brasil é ilegal. Sua questionável aquisição de nossos produtos por canais não autorizados e subsequentes vendas afetaram nossas operações de mercado. Isso atinge não só nossa reputação como também confunde os consumidores."

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Imagem: Arte/UOL e Reprodução/QCYBRASIL.COM

A prática é comum no setor de eletrônicos e também ocorre com marcas como a japonesa Sony e a chinesa Baseus — a última também é representada no Brasil pela Blue Whale.

Não se trata de pirataria: os consumidores enfrentam esperas longas de produtos que vêm da Ásia, podem ser taxados ou enfrentar problemas com garantia.
Mas os produtos recebidos são originais.

"São práticas ilegais e crimes de concorrência desleal, além de uma série de ilícitos contra o consumidor, nesse caso, como publicidade enganosa. Estão se passando por algo que não são, então são duas frentes muito sérias"
Fernanda Galera, especialista em propriedade intelectual e professora da FGV (Fundação Getulio Vargas)

Ousadia e sites derrubados

A Blue Whale trabalha com a QCY Chinesa desde 2019 e possui um acordo de exclusividade de operação no Brasil até 2026.

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O UOL teve acesso a documentos e comunicações que confirmam o contrato.

A empresa opera todas as lojas oficiais nos marketplaces online brasileiros, abastece lojas físicas que vendem produtos QCY e mantém um estoque em São Paulo com prazo de entrega de um dia.

Ela convive com a concorrência da QCY Brasil desde 2023 e estima perdas de 20% no faturamento.

"Vi esse site no começo de 2023. Até brinquei na época, 'nossa, legal nosso site', e me responderam 'não é nosso'. Ali nós começamos a entender a magnitude do que estava acontecendo", explica Tailís Redondo, gerente da marketing para a QCY da Blue Whale.

O chefe da empresa não autorizada é o mineiro Renan Alves. O site traz farto material em vídeo mostrando colaboradores jovens, conversando em um estúdio com decoração moderna.

A QCY Brasil promete o que nem a fabricante chinesa ousa: "Nosso cancelamento de ruído [de fones de ouvido] é equivalente ao silêncio do espaço".

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Imagem: Arte/UOL e Reprodução/QCY.COM.BR

Quem é o fake?

A publicidade, entretanto, é apenas parte da equação.

A reportagem teve acesso a conversas nas quais pessoas que se identificam como representantes da QCY Brasil abordam consumidores, tentando convencê-los de que os produtos vendidos nas lojas oficiais são falsos.

Na própria página da loja "paralela" há um alerta contra pirataria e a afirmação, falsa, de que a QCY não opera nos marketplaces brasileiros.

Ela diz ainda que os produtos da Blue Whale não possuem garantia, mas a representante oficial fornece em seus canais oficiais garantia de um ano.

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"A documentação que a gente tem que apresentar para ter loja nos marketplaces é grande. Até documento do funcionário que cuida da loja, que responde às mensagens. São camadas de comprovação que eles [representantes da loja falsa] jamais conseguiriam ter"
Tailís Redondo, gerente da marketing para a QCY da Blue Whale

A Blue Whale diz que já teve até o site derrubado nas redes sociais após denúncias de internautas.

"As pessoas não sabem diferenciar a loja oficial da pirata, e também não é obrigação delas", diz Tailís. Ela afirma que sua empresa foi processada por clientes e acionada pelo Procon por problemas da QCY Brasil com alfândega.

"Nosso público ainda pensa 'poxa, a conta deles nas redes sociais é enorme e a de vocês é pequena, então, eu confio neles'. Já nos denunciaram, o que derrubou nosso Instagram."

Segundo a advogada Vitória Caiuby, especialista em propriedade intelectual, o Estado brasileiro não possui um sistema de monitoramento.

Cabe às empresas lesadas acionarem os órgãos competentes.

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"Para proteção da propriedade intelectual o órgão competente seria o INPI [Instituto Nacional da Propriedade Industrial], e pela propaganda enganosa e concorrência desleal seria o Procon. E aí a empresa chinesa ou a licenciada brasileira teria que tomar medidas perante a Justiça brasileira", explica.

A Blue Whale diz que já está fazendo isso. "A gente já está agindo contra eles e para proteger a propriedade intelectual. Eles não têm vínculo algum com a marca", diz Tailís.

A QCY de Muriaé

A QCY Brasil foi registrada 2021 em Muriaé (MG), com o nome QCY Audio Brasil Ltda por Renan Alves.

No LinkedIn, Renan se apresenta como CEO e CMO da empresa, para a qual criou um slogan: "Desde 2019 democratizando qualidade musical no Brasil. Mudamos para sempre o jeito de curtir música".

Renan diz ao UOL que a QCY chinesa conhece e apoia sua atuação no Brasil.

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"A gente trouxe a QCY para cá em 2019. Começamos um trabalho bem informal e acabamos fazendo muito barulho aqui no Brasil. Eles gostaram do canal e a gente hoje opera diretamente com eles", afirma.

"Por uma ingenuidade da nossa parte no início, outra pessoa fez em 2021 um contrato com eles, que vale até o final de 2024, e cara, até então, eles realmente têm esse contrato de exclusividade aqui no Brasil."

Segundo Renan, "até final do ano a gente já vai estar regularizado na questão contratual. Eles seguram a gente lá no peito".

Por meio da sua CMO (diretora-geral de marketing) Rice Hong, a QCY China negou a versão de Renan.

Em contato com a reportagem, a diretora da multinacional chines disse se tratar de uma operação ilegal.

"A QCY Audio Brasil Ltda. nunca obteve nossa autorização, e sua operação no Brasil é ilegal. Sua questionável aquisição de nossos produtos por canais não autorizados e subsequentes vendas afetaram nossas operações de mercado. Isso atinge não só nossa reputação como também confunde os consumidores. Temos recebido feedback de consumidores sobre problemas com entregas e pós venda, e lamentamos as inconveniências."

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Com a resposta da QCY, a reportagem entrou em contato novamente com Renan. A reportagem será atualizada caso haja comentários adicionais.

Renan afirma que tem, hoje, 26 funcionários. A reportagem tentou agendar uma entrevista presencial com visita ao escritório que aparece no material publicitário, mas o empresário disse que ele está em reforma.

A maioria dos funcionários que aparecem na última grande campanha de Black Friday em janeiro deste ano são atores contratados de uma empresa chamada B2B Casting.

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