Topo

De onde vem a fortuna de Thiago Brennand, investigado por crimes sexuais

A fortuna de Thiago Brennand, hoje acusado de diversos crimes, é de cerca de R$ 300 milhões - Reprodução
A fortuna de Thiago Brennand, hoje acusado de diversos crimes, é de cerca de R$ 300 milhões Imagem: Reprodução

Do TAB, no Recife*

06/03/2023 15h44Atualizada em 29/04/2023 18h29

Um dos cinco filhos do médico e empresário José Aécio Fernandes Vieira e de Joana Brennand Tavares da Silva, Thiago Antonio Brennand Tavares da Silva Fernandes Vieira cresceu em uma das famílias mais prestigiadas de Pernambuco. Os Fernandes Vieira fundaram um dos maiores sistemas de saúde particular no Recife. Conforme o TAB apurou, a fortuna do herdeiro Thiago Brennand, acusado de diversos crimes, entre eles o de agredir uma mulher numa academia de ginástica em São Paulo, é de cerca de R$ 300 milhões.

Brennand fugiu do país, aguarda o processo de extradição em Abu Dhabi e agora enfrenta novas acusações: um homem que trabalhou como motorista do empresário disse ao "Fantástico", da TV Globo, que o patrão agredia o próprio filho com uma máquina de choques.

Na década de 1960, os irmãos José Aécio e Francisco Eustácio, ambos paraibanos, iniciaram um serviço pioneiro no Nordeste de atendimento clínico — entre eles, os da Usina Trapiche, no interior, cujo dono era outro irmão deles, Sávio.

Anos depois, a família expandiu os negócios. Em 1979, inauguraram o Hospital Santa Joana, e, após uma década, o Memorial São José, unidades que consolidaram um polo médico voltado às classes A e B. Em 2015, com faturamento de R$ 400 milhões, venderam as operações à Amil e à Rede D'Or, mantendo os imóveis onde funcionavam os hospitais. Desde então, Francisco Eustácio e seus filhos passaram a investir nas áreas de saúde, agronegócio e tecnologia, através da holding Evipar, enquanto José Aécio e seus filhos assumiram a imobiliária e construtora Órea.

Desde 2007, José Aécio vive uma relação publicamente esgarçada com o filho. "Thiago é um cara problemático. Arranja confusão por onde passa, briga com os irmãos, com os pais", conta um familiar que não quis se identificar. Segundo ele, as principais desavenças sempre foram com a mãe, Joana. Em 8 de setembro, o TAB revelou que o desgaste levou a família Fernandes Vieira a antecipar a parte dele na herança, há 15 anos, e a pedir uma medida protetiva que proíbe qualquer contato entre eles.

À época das agressões na academia, a nutricionista Marília Fernandes Vieira, uma das irmãs, fez uma publicação no Instagram em que dizia: "Nem eu nem meus três irmãos temos qualquer relação nem contato com o referido [Thiago] há mais de 20 anos e, portanto, nenhuma atitude alheia nos representa ou interessa".

"Thiago sempre deu dor de cabeça, mas os pais sempre passavam a mão na cabeça dele. Qualquer coisa que esse menino aprontasse, mandavam ele para fora do país, passar um tempo", afirma uma fonte que conhece a família há mais de quatro décadas. "Não digo que sejam culpados pelos erros dele, mas foram, de certo modo, coniventes."

Thiago ingressou em uma faculdade particular de Olinda (PE), mas desistiu um período da graduação por uma viagem ao exterior. De volta ao Brasil, tentou negociar seu retorno à universidade, embora já tivesse passado o prazo para trancar a matrícula. "Os pais dele ligaram para a faculdade, e ele foi lá conversar", relata a fonte.

À diretora, o então estudante listou os países que visitou, com desdém e soberba, lembra. "Bom, e por que você quer voltar para a faculdade?", foi-lhe perguntado. O TAB procurou a universidade e a defesa de Thiago para conferir se ele chegou a concluir a graduação, mas não obteve resposta.

Thiago Brennand - Reprodução/Facebook - Reprodução/Facebook
O herdeiro ingressou em uma faculdade particular de Olinda, mas não se sabe se concluiu o curso
Imagem: Reprodução/Facebook

Polos culturais

Em 2020, Thiago incluiu o sobrenome da família materna na sua assinatura e se tornou Thiago Antonio Brennand Tavares da Silva Fernandes Vieira, com retificação no registro civil.

Ser um Brennand, em Pernambuco, é sinônimo de status: com muitos hectares de terra no estado, a fortuna da família vem de usinas e engenhos de açúcar, engrossada com indústrias nas áreas de aço, cimento, cerâmica e, mais recentemente, energia eólica e hidrelétrica.

Desse império hoje há dois polos culturais, cartões-postais instalados nos terrenos dos antigos engenhos, na Várzea, zona oeste do Recife: a monumental Oficina Brennand, museu a céu aberto e ateliê do artista Francisco Brennand nos galpões da fábrica de cerâmica da família, e o Instituto Ricardo Brennand, do industrial e colecionador de arte Ricardo.

Oficina Brennand, no Recife - Ricardo Labastier/UOL - Ricardo Labastier/UOL
Imagem: Ricardo Labastier/UOL
Oficina Brennand, no Recife - Ricardo Labastier/UOL - Ricardo Labastier/UOL
Oficina Brennand, museu a céu aberto e ateliê do artista Francisco Brennand, no Recife
Imagem: Ricardo Labastier/UOL

Francisco e Ricardo eram primos, mas não se davam bem e se distanciaram após uma briga por negócios.

O elo de Thiago com o sobrenome materno vem de Ricardo, seu tio-avô, cujo instituto, inaugurado em 2002, ocupa uma área de 77 mil m² e inclui um castelo onde estão guardados itens como canivetes, armaduras e espadas entre quadros de mulheres nuas e seminuas, além de estátuas de leões e o brasão da família.

Ricardo recebeu Jair Bolsonaro no instituto para uma reunião da Sudene (Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste), em 2019. Na ocasião, o presidente visitou a sala de armas brancas e assistiu a uma apresentação da Orquestra Criança Cidadã no museu.

Um dos bilionários mais longevos do Brasil, Ricardo morreu em 2020 de covid-19, aos 92 anos. "Para você ver, não acreditava na doença...", dizia uma docente que liderava uma visita de estudantes ao museu, no último 11 de outubro.

Instituto Brennand, no Recife - Ricardo Labastier/UOL - Ricardo Labastier/UOL
Imagem: Ricardo Labastier/UOL
Instituto Brennand, no Recife - Ricardo Labastier/UOL - Ricardo Labastier/UOL
Instituto Ricardo Brennand, do tio-avô de Thiago, ocupa uma área de 77 mil m² e inclui um castelo
Imagem: Ricardo Labastier/UOL

"Muitos natais, e inúmeros almoços dominicais na casa de meus bisavós. Ser-lhe-ei grato pelo resto da vida", Thiago escreveu, no Facebook, referindo-se ao tio-avô. Os Brennand não ficaram felizes com a exposição. "Thiago não tem o que perder. Mas todos nós, trabalhadores, estamos sendo expostos por causa dele."

Thiago também é bolsonarista declarado. Identifica-se como conservador e armamentista — seu certificado de CAC (Caçador, Atirador Esportivo e Colecionador) foi suspenso em 9 de setembro, após ação de busca da polícia na sua casa em Porto Feliz (SP), uma de suas residências, para a qual comprou um ombrelone, um toldo articulado e uma capa de jacuzzi (e, segundo a loja de móveis, não pagou, deixando uma dívida de R$ 32 mil). Também se identifica como "empresário" e já chegou a publicar no YouTube um documento que o cita como "credor" de construtora em São Paulo. Em setembro, a reportagem pediu a informação à defesa com mais detalhes sobre a área de atuação dele, mas não obteve retorno.

O herdeiro reivindica, com certo orgulho, a indicação do sanfoneiro Gilson Machado ao Ministério do Turismo, em 2020 — ele deixou o cargo para se lançar ao Senado em 2022, mas não foi eleito. Num áudio vazado no WhatsApp, porém, Thiago se refere ao ex-ministro como "traidor" e "cuzão", por não ter atendido suas ligações.

"Acreditei e acredito no Bolsonaro. Tenho críticas? Claro, sempre terei. Não sou bajulador, como algumas pessoas do governo. Algumas até que eu coloquei lá, como esse canalha desse Gilson", disse, num vídeo gravado nos Emirados Árabes em 8 de outubro, publicado no Facebook e logo depois apagado.

Foto de Ricardo Brennand e Jair Bolsonaro no Instituto Brennand, no Recife - Marcos Corrêa/Presidência da República - Marcos Corrêa/Presidência da República
Ricardo Brennand (esq.) recebeu Jair Bolsonaro no seu instituto de arte, em 2019
Imagem: Marcos Corrêa/Presidência da República

Política e Facebook

No Facebook, Thiago publicou vídeos se pronunciando sobre o caso. Num deles, considera o PT uma "seita". Atribuiu a pecha de "ultrapetista" à advogada Dora Cavalcanti, que desistiu de defendê-lo no caso da agressão à modelo Alliny Helena Gomes depois que várias mulheres o acusaram de crimes sexuais.

Ao TAB, Dora diz que, por ética profissional, não comenta detalhes do caso, mas repudiou "as declarações ofensivas e mentirosas dirigidas pelo ex-cliente".

No vídeo, Thiago diz que os que desistiram de sua defesa teriam dado "importância cavalar" a "detalhes", que ele descreveu com diminutivos. "Ela [Dora] pegava uma filigranazinha, um detalhezinho do caso: 'Você chamou a mulher de vagabunda'. Você queria que eu mandasse flores?!".

Instituto Brennand, no Recife - Ricardo Labastier/UOL - Ricardo Labastier/UOL
Instituto Brennand, no Recife
Imagem: Ricardo Labastier/UOL

Diversas vezes o herdeiro se referiu à figura do pai nas publicações. "Meu gabinetezinho, que eu montei com meu pessoal, meu pai, uns tios e amigos, para essa crise", disse, por exemplo, embora a relação com José Aécio esteja desgastada há tempos.

"Vocês vão pagar por tudo o que perdi aí. Estou absolutamente tranquilo. Não estou fugindo", afirmou, confiante, quando já era considerado foragido da Justiça. "Vocês mexeram com a pessoa errada."

Doze dias depois, em 20 de outubro, postou outro vídeo, dizendo-se alvo de "uma cruzada", retratado como "um inimigo público, talvez um sociopata, talvez um estuprador". "Será mesmo?".

Procurada pelo TAB, a defesa do empresário não se manifestou.


*Publicada originalmente em dezembro de 2022 e atualizada em 6/3/2023