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Bernardo Machado

No Brasil, não é só Covid-19 que destrói vidas de forma precoce

Homenagem aos mortos -  Mike Labrum/ Unsplash
Homenagem aos mortos Imagem: Mike Labrum/ Unsplash
Bernardo Machado

Bernardo Fonseca Machado é doutor em Antropologia Social pela Universidade de São Paulo. Desde 2018, trabalha como professor na Faculdade de Ciências Sociais da Universidade Federal de Goiás. Também foi Visiting Student Research Collaborator na Universidade de Princeton, nos Estados Unidos (2015-2016) e, em 2016, co-escreveu o livro Diferentes, não desiguais: a questão de gênero na escola pelo selo Reviravolta da Companhia das Letras. Desenvolve pesquisas acadêmicas como membro dos grupos Etnohistória e do NUMAS (Núcleo dos Marcadores Sociais da Diferença), ambos da USP.

Colunista do UOL

13/12/2020 04h00

As despedidas nos alcançaram com uma assustadora regularidade, chegaram pelas notícias de jornal, por mensagens de texto, pelas fotos nas redes sociais, e nas ligações pesarosas. Ao final do ano, os números se empilham, escandalosos. São quase 180 mil óbitos por Covid-19 e outros, de causas múltiplas, ganharão contabilidade em breve pelos registros oficiais. A morte se proliferou por plataformas variadas: a sanitária, a violenta e aquela no plano do imponderável. Já as homenagens foram escassas, embora o luto cale profundo.

O vírus, a realeza do momento, pediu todos os holofotes e fez de si centro de controvérsias. Em seu nome, se espalharam teorias conspiratórias, brigas partidárias e até piadas. Sua coroa se infiltrou nas terras indígenas, nos hospitais e nos quilombos, ela ainda navegou por festas e prestou visita até em casas trancadas, devidamente isoladas. Repleto de mistérios, ele afetou cada pessoa de maneira única, driblando certezas e reações. Houve quem tenha levado a sério sua presença e houve também quem tenha dado de ombros, "e daí?". A doença, por sinal, encontrou parceria num tipo de política peculiar: aquela que opôs economia à saúde, aquela que minimizou a gravidade, a que empurrou para cidadãos e cidadãs o ônus da responsabilidade do Estado. Entre mais de 180 mil pessoas, a confirmação do vírus desencadeou a manifestação do adeus. Esses mortos, sufocados, merecem o fôlego da memória.

Mas a morte não se resumiu ao vírus. Ele, por sinal, mal sabia da letal concorrência no Brasil. As balas dos conflitos urbanos perfuraram corpos, sobretudo os negros. Em nada perdidas, elas decidiram encerrar as brincadeiras de crianças, os sonhos de jovens e a liberdade de adultos. Nesse caso, a morte continuou a parceria antiga com o estado e seus agentes. O que alega ser "erro" ou "desvio", confirma a regra da ação que ceifa parte da população por considerar que suas vidas valem menos. Aliás, o contrato de longa data com o racismo continua ampliando os alcances da violência. A asfixia, através dos joelhos de forças de segurança, retirou o respirar de cidadãos. Esses mortos, violentados, merecem o respeito da justiça.

Na plataforma do imponderável, os acidentes, as doenças e outras tantas variáveis também atacaram. Essas mortes não cessaram enquanto as outras duas corroíam nosso tecido social. Sem qualquer cerimônia, os óbitos mantiveram um ritmo acelerado de despedidas e conferiram a impressão de que eram ainda mais frequentes. Num ano sob a urgência da distância física, tornou-se mais difícil escorar-se em quem tem força para oferecer o ombro como conforto. E a solidão da despedida castigou nossos rituais. Esses mortos, isolados, merecem a partilha do afeto.

Presto aqui minha homenagem a essas pessoas mortas. Perdemos não apenas amores — mães, pais, filhos, primos, tios, amizades —, não perdemos apenas funções — trabalhadoras domésticas, motoristas, médicos, ambulantes —, perdemos seus gestos característicos, suas potencialidades e seus limites.

A risada solta na brincadeira descomprometida da filha silenciou. O afeto rabugento da mãe, na ligação semanal para o filho, emudeceu. O café da manhã, preparado com esmero pelo companheiro uma vida inteira, esfriou. A comida da amiga perdeu o gosto. A memória da irmã sobre a infância escorreu. A piada do tio brincalhão não se completou. Os ensinamentos cotidianos da liderança cessaram. A bicicleta da ativista empoeirou. Mesmo assim, suas ações ecoam em detalhes do dia a dia, em lembranças desconexas e nas palavras repetidas — como um "bom dia" ou um "eu te amo".

Quero crer que, de lá, de onde quer que as pessoas estejam, envolvidas por suas múltiplas formas de fé, elas possam nos enviar algumas últimas mensagens, uma forma de conforto. A filha pediria, uma última vez, por colo. O pai enviaria uma última piada. A mãe olharia profundo nos olhos de suas crias, seu silêncio diria. A avó cumpriria a promessa de registrar a receita secreta da família. A liderança traduziria, novamente, o mundo para os seus. A amiga não perderia a oportunidade: "Não pare de bater as malditas panelas!".

Neste ano, a morte aproveitou-se da negligência política, do descaso social e das minimizações cotidianas. Em paralelo, a irresponsabilidade e a injustiça querem nos forçar o esquecimento. Acabamos o ano com menos, acabamos o ano menores. Para quem se foi, fruto da violência do estado, fruto da negligência social ou tomada pelos imponderáveis da vida, envio todo o respeito. Para quem ficou, a solidariedade. De toda forma, ao final de 2020, paira o gosto de uma certeza: poderia ter sido diferente.