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Bernardo Machado

Quando a esperança da vacina é ofuscada pelo caos no Brasil

National Cancer Institute - NCI/ Unsplash
National Cancer Institute Imagem: NCI/ Unsplash
Bernardo Machado

Bernardo Fonseca Machado é doutor em Antropologia Social pela Universidade de São Paulo. Desde 2018, trabalha como professor na Faculdade de Ciências Sociais da Universidade Federal de Goiás. Também foi Visiting Student Research Collaborator na Universidade de Princeton, nos Estados Unidos (2015-2016) e, em 2016, co-escreveu o livro Diferentes, não desiguais: a questão de gênero na escola pelo selo Reviravolta da Companhia das Letras. Desenvolve pesquisas acadêmicas como membro dos grupos Etnohistória e do NUMAS (Núcleo dos Marcadores Sociais da Diferença), ambos da USP.

Colunista do UOL

02/02/2021 04h00

O início da vacinação lembrou o país da existência de esperança. Depois de meses em sufocamento diário, as imagens de pessoas recebendo a primeira dose do imunizante correram as redes e trouxeram lágrimas, risadas e memes. Contudo, os problemas de ordem política e sanitária logo eclipsaram as expectativas de novos ventos. A comemoração cedeu lugar a um gosto amargo e, ao invés de contarmos com entusiasmo o crescente número de pessoas vacinadas, notamos o quanto nos falta.

Primeiro, constatou-se a escassez de insumos: a dependência de outros países, a falta de trato diplomático e a inépcia no planejamento afogaram a previsão. O calendário que antes pareceu palpável e exequível, logo se esfumaçou. Restou a confusão. Apesar de alguma melhora nas negociações com a China e a Índia, paira a dúvida sobre a capacidade e a vontade das autoridades — particularmente do governo federal — de entregarem as vacinas.

Em seguida, em todo o Brasil, pipocaram relatos de fura-filas. Diante da demanda alta e de uma oferta precária, há quem goste de encurtar caminhos. Sustenta tal ato a certeza de "ser especial" e se cria um novo critério epidemiológico: "minha vida primeiro". Os privilégios sociais e econômicos, historicamente construídos na base de violência e das assimetrias, são naturalizados. Defende-se que furar fila é o "mais racional" e adequado a se fazer, afinal, diante do caos, "por que esperar"?

A solução viria, então, de um conjunto de empresas privadas que propõe comprar vacinas de outras farmacêuticas e aplicar no Brasil em suas propriedades. Para cada dose ofertada aos seus trabalhadores, uma seria destinada ao SUS. Parece justo, razoável e solidário, mas é precário do ponto de vista epidemiológico — e não atende os critérios de prioridade tecnicamente definidos. Além disso, trata-se de uma prática que secciona ainda mais o país e alarga nossas desigualdades.

Considero adequado tratar essa sequência de fenômenos em conjunto, pois eles se retroalimentam e colocam em evidência, novamente, os procedimentos do governo Bolsonaro. Nas últimas semanas, o presidente empregou duas gramáticas de solução: o "jeitinho" e o "caos". A gramática do "jeitinho" diz respeito à forma de solucionar a logística complexa com fórmulas simples. A medida em que surgem problemas, eles são resolvidos no varejo, sem planejamento e com um discurso emotivo. Ao invés de firmar contratos com várias farmacêuticas, alega-se que a quantidade das vacinas da Pfizer "causaria frustração". Ao invés de planejar com antecedência o programa de vacinação, cria-se um evento de publicidade para buscar insumos na Índia.

Embora a estratégia soe amadora, a lógica tem a vantagem de aproximar o governo da população: o vocabulário cotidiano, pouco técnico, imerso em metáforas aproximadas com o dia a dia é central na comunicação do governo. Isso porque, num país em que as condições de existência são precárias, precisa-se de "jeitinhos" para sobreviver. O perverso reside justamente na equiparação entre Estado e população, pois essa aproximação escamoteia que o governo tem condições materiais e estratégicas (além da responsabilidade constitucional) de planejar e lidar de forma adequada com o dinheiro público.

Já a gramática do caos é inerente ao governo Bolsonaro: tal padrão orienta a condução das ações políticas. Após a constatação de que o presidente pouco fará em direção da imunização coletiva, as soluções se tornam individuais. Como resultado, as ações são concorrentes e conflituosas, justamente porque não são mediadas pelo poder público. Uma sociedade que briga entre si, que fura fila e que imagina prioridades paralelas contribui para o ambiente no qual o presidente sente-se mais confortável.

A cisma social e a desordem política foram importantes para as eleições de 2018. Entretanto, em 2021 esse mesmo caos — tão familiar ao presidente e seu governo — gera incômodo em setores que antes o apoiavam ou, ao menos, não se manifestavam sobre o tema. De qualquer modo, aprofundar as desigualdades pode ser interessante para os cálculos atuais, porque elas aumentam as disputas entre pessoas, entidades e grupos de interesse, permitindo criar uma situação em que, no futuro, o próprio presidente possa sair como um dos grandes "salvadores" — como foi no caso do auxílio emergencial.

Na última semana, por sinal, Jair Bolsonaro passou a defender a vacinação para a retomada da economia e mentiu sobre os dados nacionais. Disse que o Brasil seria o 6º mais vacinado do mundo quando, em todas as mensurações, o país não passava da 13ª posição entre o número de doses e da 18ª posição por 100 habitantes. Em ocasiões pregressas, o presidente conseguiu alterar sua imagem frente a problemas e, ao que tudo indica, ele parece apostar que pode reverter o quadro nesse caminho.

Por tudo isso, a chamada "fila paralela" é interessante para o governo. De um lado, porque delegaria a responsabilidade da vacinação para outras entidades e, de outro, permitiria o afrouxar da pressão sobre o Executivo. Caso grupos influentes obtenham acesso às doses, é bastante provável que a fiscalização sobre as ações presidenciais seja abrandada. Enquanto a fila da vacina for única e pra todas as pessoas, haverá pressão social e vigilância rigorosa

Sem coordenação e com ausência de insumos e de vacinas, o país não consegue mostrar o seu melhor. Há solidariedade, cuidado e organização. Por exemplo, um grupo de ativistas e artistas organiza para o dia 31 de janeiro um ato denominado "Arte, Fé e Luto/a" cujo propósito é construir um gesto de solidariedade às vítimas da covid-19 e a seus familiares no Amazonas. O evento prevê homenagens às vítimas no estado e, igualmente, a pressão sobre as autoridades para garantir a transparência no uso de vacinas.

Apesar dessas iniciativas serem o tempo todo marginalizadas pelas ações e pela pirotecnia do governo, elas continuam existindo. São uma forma de lembrar que no Brasil há afeto, empatia e esperança, apesar dos interesses eleitorais de autoridades públicas.