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Daniela Pinheiro

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

'Brasília é uma farsa', diz cineasta luso-francês que foi morar no Brasil

O cineasta Sérgio Tréfaut - Genison Oliveira/Divulgação
O cineasta Sérgio Tréfaut Imagem: Genison Oliveira/Divulgação
Daniela Pinheiro

DANIELA PINHEIRO foi bolsista John S. Knight na Universidade de Stanford e do Reuters Institute for the Study of Journalism, em Oxford. Trabalhou na Folha de S.Paulo, Jornal do Brasil e nas revistas Veja e Piauí. Foi diretora de redação da revista Época. Ganhou quatro vezes o Troféu Mulher Imprensa e duas vezes o Prêmio Comunique-se como melhor repórter de mídia impressa do país. Mora em Lisboa, de onde escreve um livro sobre um dia no Brasil em 1999.

Colunista do TAB

30/04/2022 04h01

Esta é parte da versão online da edição de sexta-feira (29) da newsletter de Daniela Pinheiro. Para assinar o boletim e ter acesso ao conteúdo completo, clique aqui.

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É com um pé em Portugal e outro no Brasil, de olho nos patrícios e nos locais, que irei tocar essa coluna. Ela não terá só reportagens ou crônicas. Será mais que um relato frio e menos do que um tratado de geopolítica. Vai tratar dos temas sérios, dos irrelevantes, dos espantosos, dos frívolos e dos essenciais. Não nessa ordem, não na mesma extensão, mas com igual galhardia, graça e gana de aprender. Boa leitura.

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"A cidade é toda uma impostura ideológica"

O cineasta Sérgio Tréfaut, de 57 anos, tem três passaportes. Ele nasceu no Brasil por acaso, cresceu na França com a mãe nativa e morou quase toda a vida em Portugal, onde construiu uma carreira de renome. Seus filmes foram exibidos em mais de 40 países, onde recebeu honrarias relevantes.

Recentemente, levou o Grande Prêmio de Documentário Musical no Festival Internacional de Documentários em Biarritz com "Paraíso", que acompanha a rotina de um grupo de idosos que se reúne para cantar nos jardins do Palácio do Catete, no Rio. As filmagens foram interrompidas por conta da pandemia. Quando o filme foi lançado, alguns dos personagens haviam morrido, vítimas da covid-19. Foi a primeira vez que Tréfaut filmou no Brasil. Até então, tinha tratado de temas ligados ao país à distância, como a vida dos imigrantes. Seu próximo projeto é um mergulho no descaso com o patrimônio público e as consequências do desenvolvimento urbano anárquico. Um dos focos do filme é a tragédia dos incêndios em museus brasileiros. Desde os anos 1970, sete deles, em diferentes cidades do país, viraram cinzas, carcomidos pelo fogo que destruiu acervos completos, obras de arte de valor inestimável e parte relevante da memória nacional.

No início de março, Tréfaut vendeu o dúplex em que morou por 27 anos no bairro da Graça — de onde se tinha uma vista magnífica dos telhados de Lisboa e do Tejo soberbo — para se mudar para o Brasil. Às vésperas de sua viagem, conversamos por duas horas sobre incêndios, Brasília, xenofobia contra brasileiros, o estado da cultura no país. Na última quinta-feira (29), dois meses depois de ele ter se instalado numa casa no bairro de Santa Teresa, no Rio, voltamos a nos falar. A entrevista foi editada e condensada para melhor compreensão.

Daniela Pinheiro: Nunca houve tantos brasileiros vindo viver em Portugal, e você está fazendo o caminho inverso. Por que voltar para o Brasil?
Sérgio Tréfaut: Nasci no Brasil porque meu pai, que é português, estava exilado. Quando a ditadura salazarista acabou, a do Brasil estava no auge. Meu irmão mais velho foi preso, torturado, quase morreu. Fugimos de lá e mudei-me para a França com minha mãe. [Seu pai era o jornalista Miguel Urbano Rodrigues, ex-editorialista d'O Estado de São Paulo]. Só fui pisar no Brasil novamente aos 22 anos. Depois, passei mais dez anos sem voltar. Estou indo porque sinto que minha identidade está lá. Apesar de tudo, do Bolsonaro, do estado geral das coisas e com a proximidade das novas eleições, tenho a impressão de que já se pode começar a pensar em respirar por lá.

Que tipo de oportunidades acredita que encontrará no Brasil?
Encontrei no Brasil algo que não tive em nenhum outro lugar do mundo: uma liberdade, uma possibilidade de ser eu mesmo tremenda. Nunca tive isso na França, nem aqui em Portugal. Eu tenho muitos amigos brasileiros, e eles são maravilhosos. Quero tentar fazer filmes sobre o Brasil. Quero, de certa forma, ajudar e lutar pelo país. É mais ou menos isso. Minha relação com o Brasil é esta: continuo com um sonho empático de carinho absoluto pelo país e uma vontade de participar na medida do possível. Mas sei que sou um brasileiro de segunda. No sentido de que não vivi como um brasileiro legítimo.

O que é preciso dizer sobre o Brasil em filmes?
Há muito o que se retratar. Tenho um documentário, um pouco conceitual, ainda em fase de pesquisa, que é muito forte para mim. Chama-se "Incêndio" e trata da questão patrimonial brasileira. É percorrer o caminho de como os brasileiros destruíram totalmente o seu país. E não tem nada a ver com Bolsonaro.

O estado dos museus engolidos pelo fogo era como a crônica de uma tragédia anunciada: descaso público, nenhum cuidado, burocracia e leniência governamental.
Crônica de um incêndio anunciado. A partir deles, aprende-se muito sobre o Brasil. Nos últimos 30 anos, houve sete incêndios de proporções aterradoras: a Cinemateca em São Paulo, o Museu Nacional no Rio, o Museu da Língua Portuguesa, o Memorial da América Latina, o Museu de História Natural, só para citar alguns. Isso diz muita coisa sobre uma nação: a relação do Brasil com seu patrimônio, como trata das suas coisas e o que espera delas. O que é o Museu do Amanhã, no Rio? Esse museu é o resumo mais bem acabado da mentalidade de que a nossa identidade está no futuro e foda-se o passado. Um museu vazio, onde ninguém vai, que mostra sei lá o quê, mas que simboliza o "amanhã". Museu pago pela Globo, que é uma instituição, um dos símbolos dessa ideologia dominante.

Como o Brasil trata seu patrimônio?
É preciso fazer um flashback para entender como chegamos até aqui. Ir para o começo do século 20, quando o Rio de Janeiro ainda era a capital do país e tudo o que aconteceu com a operação "bota-abaixo", que mudou a cara da cidade. A ideia de se construir uma Paris dos trópicos. É quando abrem a avenida Central -- que era para ser uma Champs-Elysées --, há a construção do Theatro Municipal e dos edifícios da Biblioteca Nacional e da Escola de Belas Artes. Arrasam com a parte antiga para "civilizar" a cidade para a elite. Aí vem os anos 1930, 1940, o metro quadrado aumenta demais, a questão do dinheiro fala mais alto e tudo aquilo é substituído de novo por coisas mais rentáveis de inspiração norte-americana, como Chicago e Nova York. Aí, mais uma vez, vale o que é o "novo". O passado, a história, vão para o lixo. Isso tem um peso radical em toda a construção, em todo urbanismo, em todo o desenvolvimento brasileiro do século 20.

Vide a Barra da Tijuca.
A Barra é o que tem mais valor hoje no Rio de Janeiro! Aquela coisa imunda, horrorosa, que nunca deveria ter existido e nem deveria ser o Rio de Janeiro, tinha que ser um subúrbio e olhe lá. Aquilo tem mais valor do que o bairro de Botafogo. Ou seja, em vez de valorizar, o antigo vira nada. O apagamento histórico, a ideia do novo-rico, do dinheiro novo, é uma característica muito própria de tudo isso.

Nesse contexto, o que quer dizer a construção de Brasília?
Tem a ver com uma ideologia que também nasce no começo do século 20, exprimida por um austríaco radicado no Brasil, que faz o livro mais vendido no mundo sobre o Brasil. É Stefan Zweig e o seu "Brasil, País do Futuro". De fato, Zweig nem é um grande pesquisador. Ele faz uma colagem de outros intelectuais brasileiros -- Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda -- e aparece com a ideia de um país maravilhoso, onde não há criminosos, brancos e pretos se amam, se há gente na cadeia foi porque escorregou numa casca de banana. O país da doçura. O Brasil, país do futuro, é o que faz com que Brasília seja um projeto de capital onde não há nenhuma memória de passado.

Eu nasci em Brasília, mas não me imagino morando lá nunca mais.
Juscelino Kubitschek tinha feito um balão de ensaio em Belo Horizonte, quando fez o bairro da Pampulha -- já tinha ali Oscar Niemeyer, Burle Marx. Aquilo já era o seu "show off". E aí, presidente da República, ele inventa de fazer a nova capital. E aquilo não passa de um projeto eleitoreiro. Fazer uma capital em cinco anos em si é uma aberração. Sim, era preciso desenvolver o centro do país, mas Brasília foi uma excrescência moral. Aquilo tudo é uma farsa fabulada com os conceitos de dois filhinhos de papai, que fazem um parque temático, que se torna obsoleto rapidamente. Uma cidade feita para automóveis, totalmente excludente.

Pelo visto, sua relação com Brasília também é polêmica.
Eu não gosto de Brasília. Aquilo é um absurdo do JK. Devia se chamar Jotacalândia, uma cidade construída do nada por um doido varrido que queria se autocoroar, como Napoleão na Notre Dame. E o tal do Museu do Candango? Mais de 80% do museu é uma glorificação do JK. E Brasília inteira é isso. Tem aeroporto JK, mausoléu JK. Não tem coisa que não seja JK. Ele fez seu monumento fúnebre. É uma história de faraó. Quero contar a verdade sobre o projeto de Brasília, que é a iniciativa mais destruidora já desenvolvida para acabar com o patrimônio do país.

Os filhinhos de papai são os arquitetos Lucio Costa e Oscar Niemeyer, que planejaram Brasília? Eles diziam sonhar com uma cidade onde ricos e pobres convivessem nas mesmas superquadras, seus filhos indo à mesma escola e por aí vai.
Inclusão com pobres? Isso nunca houve. Brasília foi construída com os candangos imigrantes de muito baixa renda que, depois da inauguração da cidade, foram instalados bem longe do centro, em locais completamente a esmo. A história dos candangos é monstruosa. Na pesquisa do filme, vimos a história de trabalhadores que eram ameaçados com metralhadoras, coisas desse tipo. As pessoas iam trabalhar e depois eram cuspidas fora. Eu vou fazer o que puder para manchar a reputação de Costa e Niemeyer, supostos comunistas. Sua cidade inclusiva é uma piada.

Por quê?
Prefiro Dubai a Brasília. Dubai é mais real. Tudo em Brasília é uma farsa, uma impostura ideológica. Não acredito em nada daquilo. A cidade de funcionários públicos, tudo ali é especulação imobiliária. Outro dia, fui com um amigo de metrô até a Ceilândia, um bairro considerado pobre no entorno da cidade. A história da criação de Brasília tem como reverso da medalha a decadência do Rio de Janeiro, o desinvestimento. Os espanhóis têm essa palavra "desarrollista", sobre o desenvolvimento econômico a todo custo. Construção das grandes estradas, das hidrelétricas, o desenvolvimento econômico é tudo. A Dilma também pensava assim. Mas é exatamente isso que faz com que o patrimônio cultural brasileiro comece a desaparecer. A ideologia de que o valor está no futuro, que a identidade brasileira está ali adiante.

Você citou Zweig de "Brasil País do Futuro", a coisa adocicada da brasilidade. Seu filme "Paraíso" é uma visão adocicada de velhinhos cantando na praça naquele país fraturado. O que você aprendeu fazendo esse filme?
Aprendi que há pessoas lindas no filme, que votaram no Bolsonaro. Não conversávamos sobre isso no set, mas claro que eu sabia. Em geral, evito esses assuntos. Não tenho perfil de conversor. Sou muito nietzschiano. Acho que quando não há diálogo, não há diálogo. É uma relação de forças, ou você consegue achar formas de impor ou mudar as leis. As leis têm que ser mudadas. Não adianta discutir, tem que mudar é a lei.

Mas as pessoas vão continuar pensando igual, estando ele na presidência ou não.
Eu sei. Aconteceu-me já, no Rio, de estar numa situação social num bar, por exemplo, é ter receio de tocar em questões fraturantes e aí haver algum mal-entendido. Para mim, há duas questões fundamentais para que se volte à normalidade, questões sobre as quais o PT falhou quando estava no poder. A primeira é o obscurantismo religioso. Dar fim a isso tem que ser uma prioridade. A outra tem a ver com desmantelar os quartéis de droga e as milícias. Acabar com essa relação pornográfica entre milícias e militares. Quando esteve no poder, o PT não ousou enfrentar isso.

O que seus amigos dizem sobre a troca de Lisboa pelo Rio?
Acham absurdo eu ter vendido minha casa. Mas não há crítica, há surpresa. O que mais ouço é gente que está aqui em Portugal dizendo que volta para o Brasil assim que o Bolsonaro deixar o governo. A minha mudança foi muito pensada, planejada. Minha relação com Portugal é, de fato, mais com o Alentejo, de onde vem minha família. Gosto mais da mentalidade das pessoas de fora de Lisboa.

Por quê?
Há uma dominação muito grande de valores pequeno-burgueses aqui. Uma pseudo-esnobaria lisboeta, com que eu não tenho paciência. O Brasil é um país historicamente de acolhimento, Portugal não é. Aqui, você entra na sociedade, mas tem que ficar no seu lugar. Por exemplo, eu já trabalhei como jornalista. Posso escrever quatro páginas no maior jornal aqui, como já fiz. Mas é impensável com o meu sotaque fazer uma coisa na televisão. Só morei no Brasil quando criança, vivo há 40 anos em Portugal, meus filmes são portugueses, mas abro a boca aqui e sou um brasileiro.

O seu português não é luso, não é brasileiro, tem essa melodia francesa.
Aqui, quando me ouvem, sou visto como brasileiro.

Isso é ruim?
Profissionalmente, não passa nada. Há uma questão da língua escrita que, falando seriamente, acho que temos mais vantagens. Cometemos menos erros gramaticais do que a maioria dos portugueses médios. Na vida pessoal, às vezes, faz diferença, sim. Como se passa com algumas mulheres, há também um preconceito na cena homossexual portuguesa contra os brasileiros. Como se fôssemos mais fáceis, mais disponíveis e levianos.

O português é racista?
Alguns partidos políticos aqui, como o Bloco de Esquerda, jogam luz numa discussão interessante de como é o racismo em Portugal. O Partido Comunista Português, por exemplo, se recusa a assumir isso, e é uma das muitas razões pelas quais estão decadentes. Há uns dois anos, o secretário-geral do partido, Jerônimo de Sousa, deu uma entrevista dizendo que "a maioria do povo português não era racista". Dias depois, um ator negro foi assassinado aqui -- um escândalo. O fato é que aqui há uma coisa mal explicada. O António Costa (primeiro-ministro), quando vai ser criticado, é chamado de indiano. Por conta da ascendência e da cor da pele, é um estrangeiro.

(Dois meses depois, uma nova conversa):

Como foram esses dois primeiros meses de Brasil? Sentiu falta de algo?
Falta de Lisboa? Nenhuma. Mas a minha vida não é exemplo de nada. Nas últimas semanas, viajei para as Guianas, Suriname, passei alguns dias no festival de Montevidéu, cheguei agora a Paris para uma projeção especial do meu filme e nas próximas semanas será um sem-fim de viagens de trabalho: Lisboa, Sevilha, Belgrado, Barcelona, Varsóvia, Cracóvia, Paris, Vêneto.

Conseguiu perceber algo do Brasil?
Nessas idas e vindas, o que mais me deixa doente é sempre ver que, diante de tanta monstruosidade, injustiça social e um governo imundo, classes de profissionais ligadas ao social -- como os médicos, por exemplo -- ainda sejam bolsonaristas. No Brasil, sempre fico com dor de barriga quando vejo que os crimes de Estado são respaldados pela burguesia, que não quer perder seus privilégios. Isso me entristece demais.

E vai continuar por aí mesmo sabendo que é muito difícil mudar isso?
Sim. Os eleitores do Bolsonaro são como os sulistas da Guerra de Secessão norte-americana. Perderam a guerra. Mas o racismo nos EUA ainda existe. Eles vão continuar, mas é seguir lutando por justiça social, justiça tout court [simplesmente] e lucidez.

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