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Daniela Pinheiro

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Diretora de cinema fala sobre nu de Cauã Reymond em novo filme

A diretora Laís Bodansky roda seu longa no navio veleiro Cisne Branco, da Marinha brasileira - Biônica Filmes/Divulgação
A diretora Laís Bodansky roda seu longa no navio veleiro Cisne Branco, da Marinha brasileira
Imagem: Biônica Filmes/Divulgação
Daniela Pinheiro

DANIELA PINHEIRO foi bolsista John S. Knight na Universidade de Stanford e do Reuters Institute for the Study of Journalism, em Oxford. Trabalhou na Folha de S.Paulo, Jornal do Brasil e nas revistas Veja e Piauí. Foi diretora de redação da revista Época. Ganhou quatro vezes o Troféu Mulher Imprensa e duas vezes o Prêmio Comunique-se como melhor repórter de mídia impressa do país. Mora em Lisboa, de onde escreve um livro sobre um dia no Brasil em 1999.

Colunista do TAB

28/05/2022 04h01

Esta é parte da versão online da edição de sexta-feira (27) da newsletter de Daniela Pinheiro. Na newsletter completa, a colunista fala sobre os passeios de um ex-ministro português por SP, explica por que Portugal se tornou destino de produções cinematográficas e mais. Você pode ler o conteúdo completo aqui (apenas para assinantes). Para se inscrever e receber o boletim semanalmente, clique aqui.

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Um Dom Pedro 1º sem poder, sem potência e sem estudo

Estreou em 19 de maio, em 18 salas de cinema em Portugal, o filme "A Viagem de Pedro", da cineasta brasileira Laís Bodansky. Aos 52 anos, ela dirigiu "Bicho de Sete Cabeças", de 2001, "Chega de Saudade", de 2007, e "As Melhores Coisas do Mundo", de 2010. O novo longa é produzido e estrelado pelo galã Cauã Raymond, que interpreta Dom Pedro 1º durante a viagem entre Rio e Lisboa — para onde o monarca, depois de anos como imperador do Brasil, retornava com o intuito de brigar com o irmão Miguel pelo trono português.

O ano era 1831, o Brasil era independente, e Pedro vivia o pior momento de sua vida. Era esnobado pelos brasileiros e considerado um traidor pelos compatriotas. No meio do Atlântico, a bordo de uma fragata inglesa, misturavam-se membros da Corte, oficiais, criados e escravos rumo a um futuro incerto. Ele penava com uma doença (provavelmente síflis), que o deixara sexualmente impotente. No filme, entre o delírio e a lucidez, ele revive momentos do auge da monarquia e dos romances que teve, e elocubra sobre a própria vida apátrida. Em algumas cenas, Cauã Raymond aparece nu.

Em abril, o longa foi exibido ao final da cerimônia de premiação do festival Indie Lisboa — quando, em meio a gritos de "Fora Bolsonaro", Bodansky subiu ao palco segurando uma camiseta vermelha estampada com o rosto do candidato do PT à Presidência, Lula.

No dia seguinte, num café em frente à estátua de Dom Pedro 1º na praça do Rossio, em Lisboa, conversamos sobre a nudez de Cauã, a linha entre ficção e não-ficção no registro histórico, a experiência de filmar na Europa e as perspectivas para o Brasil. No primeiro fim de semana de exibição, o filme teve 687 pagantes, segundo o Instituto do Cinema e Audiovisual de Portugal. O lançamento no Brasil está previsto para o fim do ano. A entrevista foi editada e condensada para melhor compreensão.


Daniela Pinheiro: Nunca mais vou conseguir olhar para essa estátua de Dom Pedro aqui à nossa frente sem pensar na impotência sexual do ex-imperador, retratada no seu filme, e na frase berrada por ele: "Como vou governar de pau mole?"
Laís Bodansky: Quem bom! Te tirei de um lugar confortável onde as verdades são absolutas. Nenhuma verdade é absoluta. São pontos de vista.

O que é verdade no filme?
Sobre a viagem do Rio a Lisboa em si, há poucos registros. Só há um diário escrito por ele mesmo, ao qual não tive acesso, que está trancado a sete chaves no Museu Imperial de Petrópolis. Eu não consegui, tentei de tudo. Acho que é porque se trata de um documento muito frágil, que não pode ser manipulado. Chegou a um ponto que eu também não queria mais saber. Aproveitei justamente a deixa: uma viagem da qual se sabe o antes e o depois, mas não o meio. Sabe-se do estado de espírito dele, que ficou dois meses atravessando o Atlântico, pensando na vida, tinha a doença. Vi que eu tinha o espaço perfeito para imaginar e convidar o público a imaginar o que poderia ter acontecido.

No cinema, a história da realeza portuguesa no Brasil é contada pelo "Independência ou Morte", com Tarcísio Meira, um filme feito durante a ditadura e exibido ad nauseam na TV; o "Carlota Joaquina", da Carla Camurati, onde Dom João 6º é um porco que come frango com a mão e Carlota é uma piolhenta; e agora o seu. O que aprendemos com eles?
A historiadora Lilia Schwarcz me disse que o filme do Tarcísio, dos anos 1970, é correto do ponto de vista dos fatos históricos. O que está no filme aconteceu de verdade. O diretor [Carlos Coimbra] nunca foi ligado à ditadura. Os militares se apropriaram do filme de um ufanista, assim como o governo Bolsonaro está tentando trazer o coração de Dom Pedro 1º (que está num museu na cidade do Porto) e levá-lo para os festejos do bicentenário da Independência. É querer se apoderar de algo não feito para aquilo.

E no seu caso?
"A Viagem de Pedro" é o oposto porque o filme factual já foi feito. No meu, o que não é verdade poderia ter acontecido. Por exemplo, sabe-se que ele não gostava do beija-mão, dos rapapés da monarquia. Ele gostava de ficar na cozinha, no meio dos empregados, era onde ficava à vontade. Gostava de ficar em casa. Há documentos com relatos de que ele abria a porta de pijama para as visitas. Ele era esta figura: vontade em excesso, meu prazer, meu desejo, as mulheres, um Narciso ao extremo. Nele, o sexo flertava com o vício. Pelo que eu leio das histórias dele, desde muito menino ele tinha uma fissura. Ele tinha uma necessidade para além.

Acha que pode haver alguma apropriação ufanista do seu filme pelo governo?
Se conseguirem, vou ficar impressionada. Porque é um filme que traz outros personagens, os que ele oprimiu. E não sei se isso interessa ao governo. São as mulheres com quem se relacionou, as tantas pessoas pretas que estavam ali escravizadas naquela embarcação. Através dele, conhecemos outras dores, outros nomes que não estão nos livros de história. Se derem luz ao personagem já fico feliz, porque acho que uma obra de arte pode ser observada, comentada e debatida por várias visões políticas.

No momento em que se exige uma postura das artes mais engajada em causas, seu filme não me pareceu ter essa preocupação em, no caso, revelar um predador sexual ou tratar disso com uma lente do feminismo ativista atual. Concorda?
Quando escolhi esse momento da vida dele, claro que isso passou por um filtro que é meu. Me surpreendi ao saber como foi a partida dele do Brasil. Ele estava isolado politicamente, sem qualquer força política, não tinha mais como seguir como monarca. Vai embora, praticamente expulso, na calada da noite, xingado pelos brasileiros.

Na escola, a gente é apresentado a um Dom Pedro 1º poderoso, que fez a Independência, que era muito viril, muito bonito, que tinha muitas mulheres e muitas amantes. No entanto, ele era alguém que abusou do seu poder viril, do seu poder como monarca. E isso está no filme."

Sua escola era certamente melhor do que a minha. Não estudei nada sobre o lado mulherengo dele. De fato, fiquei com a imagem do filme do Tarcísio Meira da Sessão da Tarde.
Isso está muito presente nos livros da nova leva de historiadores contemporâneos. Da mesma maneira que ficamos sabendo que ele não era um intelectual, como depois virou o filho dele, Dom Pedro 2º, que não ligava de ser rei, mas sonhava que o Brasil fosse uma potência científica. Não quer dizer que não fosse inteligente, mas não sabia escolher seus pares, não tinha um projeto de país. Tinha uma paixão por Napoleão, mesmo sendo ele quem varreu com a família real de Portugal. Ele também se sentia muito mais um estrategista militar do que um monarca. Tanto que partiu dele essa coisa de orientar que guardassem o próprio coração no Porto depois de sua morte, em homenagem aos combatentes que lutaram com ele numa guerra totalmente quixotesca.

Por que falar desse tema e desse personagem agora? Foi o bicentenário da Independência?
Não, nada a ver. A ideia do filme veio do Cauã. Ele me trouxe o livro "Dom Pedro I - a Luta pela Liberdade no Brasil e Em Portugal 1798/1834", do Neill Macaulay, e me disse para eu contar aquela história do ponto de vista que eu quisesse. Foi um homem que viu a história de outro homem, mas chamou uma mulher para fazer. E achei tudo fascinante: ele, um fiapo humano, sem dinheiro, sem apoio político, ainda bancando um ideal de ter dois impérios. Também era muito orgulhoso, ambicioso. Eu, como brasileira, nem sabia direito o que tinha acontecido com a vida dele quando ele voltava para Portugal.

As mulheres no filme aparecem em nu frontal. Já Dom Pedro aparece nu de costas e há uma ceninha capciosa e rápida de um quase imperceptível frontal. A nudez masculina ainda é um tabu?
É, mas o cinema está mudando isso. E eu acho até que neste filme, para o Brasil que é hoje, já avançamos. Isso também foi muito conversado com o Cauã.

Cauã Reymond em filme sobre D. Pedro 1º - Fábio Braga/Divulgação - Fábio Braga/Divulgação
Cauã Reymond, em cena do filme 'A viagem de Pedro'
Imagem: Fábio Braga/Divulgação

Era ele mesmo ou se usou um dublê?
A nudez é a do personagem.

O que quer dizer com "acho que para o Brasil de hoje, até já avançamos"?
O nu frontal masculino, independentemente do governo brasileiro que está lá, ainda é uma questão, mas já mudou. Como você mesma disse há pouco, a "bunda está lá". Isso é diferente. É um passo e depois outro passo. Eu queria muito o nu frontal. Era uma questão justamente de respeito. De equilíbrio.

De justiça. (Risos)
De fato, é a primeira vez que me perguntam sobre o nu no filme. E, pensando aqui, não sei se o nu masculino ajuda ou atrapalha.

Por que o quase nu frontal era importante?
Olha, não é quase nu. O nu frontal está lá. Dentro do contexto da personagem, na cena certa, as cenas de sexo estão todas lá. Acredito que foi tudo na medida para que isso não virasse o tema do filme porque senão...

Todo mundo só ia falar disso?
Sim, e eu não fiz o filme para isso. Está lá de forma natural. Daqui a dez, vinte anos, talvez alguém ache o filme muito conservador porque não mostrou mais. Mas, para os dias de hoje, ele não é. Foi estudado milimetricamente o que dava e o que não dava para mostrar. Não posso fazer um filme contemporâneo e não trazer valores da minha época ao revisitar a história. Mas eu também tenho que saber medir isso para não me aproveitar disso, ser apelativo. E seria apelativo ser diferente.

Qual é o limite para o nu feminino?
A mesma coisa. Tudo foi conversado antes com as atrizes em detalhes. E todas aceitaram e concordaram com a relevância da nudez no contexto. Vou dar o exemplo do convite para a Rita Wainer (artista plástica, neta de Danuza Leão, que faz a Domitila, a Marquesa de Santos, amante de Dom Pedro 1º). Ela é toda tatuada, passava duas horas apagando a maquiagem do corpo. E mesmo o próprio nu frontal dela era maquiagem. Ela me disse que se sentia de biquíni porque ela não era daquele jeito.

É um filme politizado?
Acho politizado na medida em que provoca uma ressignificação, um novo olhar, para essa estátua, por exemplo. Um novo olhar que não é só sobre a impotência sexual (risos). É sobre aquele homem, o que ele passou voltando para Portugal. E ele chegou aqui e virou uma estátua. Eu não tinha pretensão de falar sobre fatos históricos. Meu cinema é de personagem, e eu queria manter isso. Olhar a história do ponto de vista da intimidade é muito mais interessante do que as explicações acadêmicas. Tanto que o filme não é sobre a viagem de Dom Pedro. É a viagem do Pedro. É sobre a pessoa física e não jurídica.

Durante o discurso de agradecimento na estreia do filme em Lisboa, você disse achar que "o Brasil nunca deixou de ser colônia". O que quis dizer com isso?
É o bicentenário da Independência do Brasil, mas será que o Brasil ficou realmente independente? Ele deixou de ser colônia? Eu acho que o Brasil nunca deixou de ser colônia. Ele pode não ser colônia de Portugal, mas ele se comporta como um país colonial. No sentido de que ainda não se preocupa com seu povo, mercado interno, sua indústria, ou que olhe pra dentro, que cuide de seu povo. Que dê a possibilidade pra que todos tenham saúde, tenham escola, tenham uma moradia decente, tenham vacina. Essa é uma característica de um país que quer demonstrar que ele é independente. Que olhe pra dentro, que cuide de si. E não para poucos, uma elite econômica, que quer a garantia dos seus direitos e de seus privilégios, sem se preocupar com o país continental que é o Brasil.

O Brasil tem jeito?
Às vezes, eu me acho um pouco otimista demais, mas eu gosto de ser otimista, eu preciso ser otimista para poder acordar. Por mais que a gente tenha um governo de extrema direita que não esteja preocupado em que todos tenham estudo, acesso à saúde, uma vida decente, há parte da população que tem consciência, sabe que não pode desistir."

A tomada de consciência faz muita diferença, e é o primeiro passo para uma mudança. Nesse sentido eu acredito. Não é fácil? Não é fácil. Uma curiosidade: os melhores países que lidaram com a pandemia foram os governados por mulheres. Quando estamos em um posto de liderança, temos uma maneira diferente de lidar com a equipe.

Dilma Rousseff é usada para defender o contrário.
Havia muito preconceito com ela. O que ela falava, como se comportava, perto do Bolsonaro, que fala palavrões, ela é uma lady. Aliás, não quero falar o nome dessa pessoa.

Como se refere a ele?
Eu falo desgoverno. Vivemos num desgoverno. Estou aguardando, por favor, que chegue logo um governo. Estamos desgovernados. Não há diretrizes claras, encaramos a pandemia com um discurso esquizofrênico. Uma hora fala uma coisa, noutra outra, em todos os assuntos. É um barco à deriva.

Como é para um brasileiro fazer cinema na Europa?
É preciso admitir que aqui ainda há um eurocentrismo, e o Brasil também ainda se comporta como se precisasse que o estrangeiro dissesse o que é bom. É uma visão colonialista por parte daquele que é oprimido, no caso o Brasil, e por parte daquele que oprime porque mantém esse discurso de superioridade, de raça, de que o outro é que é ruim, de não reconhecer a cultura do outro, a linguagem do outro.

Como você percebe isso?
Lembro-me de que, quando fiz "Bicho de Sete Cabeças", no começo dos anos 2000, eu o finalizei na Itália. Era meu primeiro longa, eu era uma diretora mulher, naquele momento o Brasil ainda era visto como Terceiro Mundo. Eles não acreditavam que tínhamos uma indústria de audiovisual que era melhor do que a italiana. Me tratavam como se eu não soubesse. A gente tem equipamentos melhores, eu estava lá porque tinha dinheiro italiano pra finalizar o filme lá, mas não porque não era possível fazer isso no Brasil. Era possível.

E como foi agora?
Tinha uma equipe muito criativa, muito multifunção. Como nos Estados Unidos, a indústria do audiovisual brasileira é muito especializada. O maquinista é só maquinista, o colorista é só colorista. E aqui na Europa tem uma outra linha de cinema, em que você pode acumular funções. Você sabe fazer outras coisas também. Isso para uma produção como a nossa fez toda a diferença, não seria possível mesmo. Eu adorei, para falar a verdade.

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