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Lidia Zuin

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Aos 19, Billie Eilish já nos ensina a ignorar a voz do transtorno alimentar

Billie Eilish  - TodaTeen
Billie Eilish Imagem: TodaTeen
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Lidia Zuin

Jornalista e pesquisadora em futurologia. Mestre em semiótica, doutoranda em artes visuais, palestrante, professora e escritora de ficção científica.

Colunista do UOL

11/08/2021 04h00

Aviso de gatilho: Transtornos alimentares

Quando assisti ao filme "Party Monster", fiquei com aquela música "Money, success, fame, glamour" na minha cabeça por um bom tempo. Eu tinha 18 anos no máximo, e achei incrível a cena clubber retratada no filme — mesmo que ele também abordasse um lado sombrio. Millennials (isto é, nascidos no final dos anos 1980 e começo dos anos 1990) cresceram circundados pelo imaginário da "heroin chic" (heroína chique, aqui sendo trocadilho tanto para o feminino de herói quanto para a droga) e, no caso das meninas, de revistas para adolescentes que falavam sobre temas como sexo, menstruação e também dicas para ter o corpo perfeito e magro. O lado negativo e pesado nunca foi exatamente um problema para a minha geração, afinal, ouvimos a Kate Moss dizendo que "nada é mais gostoso do que ser magra."

Mesmo tendo sido publicado nos anos 1970, o livro "Fat is a Feminist Issue" (também conhecido como FIFI) de Susie Orbach não era uma leitura popular entre meu círculo de amigos. Na Cásper Líbero, era antes mais importante assistir ao filme "O Fabuloso Destino de Amélie Poulain" e "Pulp Fiction" do que necessariamente ler livros sobre feminismo. Aquela figura do jornalista decadente e que vivia à base de cigarro e café era a meta, algo que fazia sentido naquela época em que eu ainda fazia alguns bicos como modelo. Lembro que um dos professores mais respeitados da faculdade me deu uma dura num dia de prova que cheguei atrasada: "Você quer ser jornalista ou modelo?"

Eu nunca quis ser modelo. Nunca liguei para fama, sucesso, glamour. Mas tendo crescido como a menina-gótica-gorda-estranha-nerd da escola, eu decidi que, para ser amada e aceita, precisava mudar minha aparência em primeiro lugar. Eu não lia revistas para adolescentes, mas me sentia totalmente inadequada. O que resolvi fazer foi me forçar a comer menos e praticar exercícios físicos extenuantes. Emagreci, e a primeira coisa que me sugeriram foi: por que você não vira modelo?

Fiz curso, participei de desfiles, fiz algumas fotos e uns "jabás", como diziam. Se ganhei dinheiro, foi no máximo R$ 100, então nunca foi um estímulo financeiro, mas totalmente uma provação de autoestima. Eu dizia a mim mesma que a meta era sair numa revista ou em um outdoor para que as pessoas (os bullies, no caso) vissem que eu era bonita a ponto de ser validada pela mídia e pela indústria da moda.

Não durou muito tempo. Logo desisti e comecei a trabalhar com jornalismo mesmo. Abri meu próprio blog de moda — outra tentativa de validar minha aparência através de uma narrativa vigente. Durou uns cinco anos talvez, até que fiquei sufocada pelo ritmo do trabalho e do blog. Foi também nessa época que percebi que tinha engordado. Estava morando na Inglaterra, sem familiares, em uma casa com mais sete pessoas. Uma delas era uma garota anoréxica e bulímica que tinha rachado a testa desmaiando na rua.

Ao voltar para o Brasil — e ainda nos últimos meses de vida do blog —, resolvi que precisava emagrecer e decidi procurar ajuda profissional. No momento em que as roupas ficaram largas, esqueci completamente daquele mês sem açúcar, sem carboidrato, quase desmaiando nos treinos de muay thai e quase vomitando na hora de tomar whey. Nada mais gostoso do que ser magra, não é?

Acontece que, naquela época, eu não sabia que dietas restritivas têm altas chances de falha — isto é, cerca de 95% das pessoas ganham o peso perdido em até três anos ou até engordam mais. Com o tempo, essas restrições e exageros acabam bagunçando o metabolismo e eu não sei até que ponto meu hipotireoidismo tem a ver com isso.

Então, resolvi fazer uma pesquisa no Google: é possível viver sem fazer dieta? Porque, para mim, não existia outra opção. Foi aí que conheci a linha da nutrição comportamental e comecei a me tratar com profissionais especializadas em transtornos alimentares. Eu não sabia que eu tinha esse problema, afinal, somos ensinadas a comer pouco, justificar por que estamos comendo um doce, fazer piada de que está treinando para poder comer pizza, entre outras coisas.

Eu só aprendi isso com 29 anos. Nesse meio tempo, sem saber necessariamente que tinha transtorno alimentar e de imagem corporal, acabei enveredando pelo tema do transumanismo por conta da minha iniciação científica. A partir dali, fiquei encantada com a ideia do upload de consciência e a possibilidade de se viver sem corpo — só como avatar numa simulação em realidade virtual ou então como um corpo robótico, por exemplo.

O medo da morte junto à falta de controle do corpo me faziam crer que o melhor seria me livrar "dessa mixórdia" (lembro bem desse termo usado numa reportagem da Wired) que é o corpo físico, porque ele só nos atrapalha na hora de conquistar nosso ideal supremo enquanto indivíduos (seja lá o que isso for para cada pessoa). Essa é principalmente a premissa da linha do transumanismo singularitariano: pouco importa o que faço com o meu corpo, porque a meta é se tornar tecnologia.

Só depois de um tempo de terapia, reflexão, leitura e a defesa de doutorado, comecei a conectar os pontos em relação à minha própria história. Porém, o que me chamou a atenção essa semana foi uma entrevista que a cantora Billie Eilish deu após seu mais recente lançamento: a música "OverHeated", que fala justamente sobre celebridades e pessoas que vivem a vida perseguindo o corpo ideal e perfeito. Já no curta "Not my Responsibility" (vídeo acima), ela desmente a ideia de que não ter o tal corpo ideal seja culpa da pessoa e mostra como os julgamentos feitos são absurdos. Sempre achei curioso ver aquela menina "padrão" usar roupas largas e disformes, até que descobri que ela tinha dismorfia corporal. Fez sentido.

Então, veio a quarentena e todo um novo surto de piadas e medos gordofóbicos. Foi divulgada uma foto da Billie andando na rua feita por um paparazzo. Descobriram que ela tinha um corpo e que ele não era exatamente magro (isto é, subnutrido) como celebridades deveriam ter. Billie sempre falou em entrevistas que ela queria desviar o foco de seu corpo para que as pessoas prestassem a atenção na sua música — que foi o que fez algumas pessoas torcerem o nariz depois que ela apareceu num editorial vestindo lingerie. Billie só tem 19 anos, mas já dá declarações como essa:

"Enquanto isso, Eilish odeia que sua carne distraia a atenção para sua música. 'Quero dizer, nós só precisamos de corpos para comer, andar por aí e defecar. Nós só precisamos dele para sobreviver. É ridículo que alguém se importe com corpos', ela argumentou. 'Todo mundo é culpado de olhar para celebridades e não entender que elas são só pessoas. Mas elas são.'"

Não é o que diria Edgar Morin em seu livro "Stars" e através do conceito de novos olimpianos: celebridades são os novos deuses da contemporaneidade, reproduzidos e reduzidos a um produto reprodutível como nas serigrafias de Andy Warhol. Já comentei sobre como essa ideia da fama é uma cilada aqui na coluna, mas agora queria concluir o raciocínio focando no depoimento de Billie Eilish. Mais adiante, na matéria:

"A superestrela sabe que ela não é imune a esse tipo de pensamento: 'Eu vejo as pessoas online, parecendo-se de um jeito que eu nunca pareci e imediatamente eu penso, meu Deus, como eles conseguem ter essa aparência?', confessa Eilish. A ilusão da perfeição é insidiosa. 'Eu sei os prós e contras dessa indústria e o que as pessoas realmente usam nas fotos, e eu sei como o que parece real pode ser falso. Mesmo assim, eu vejo e penso, meu Deus, isso me faz muito mal."

Eilish diz que não julga quem recorre a procedimentos estéticos, mas é o argumento "basta você querer, se esforçar, que você também consegue" que a irrita. A meritocracia ultrapassa o nível econômico para atingir a camada estética — afinal, não existe mulher feia, existe mulher pobre. Foi o que descobri escrevendo essa matéria sobre transumanismo aqui para o TAB. Assim, criando consciência de que esse tipo de amplificação é algo elitista e dificilmente sustentável — tanto do ponto de vista financeiro quanto psicológico. Nos últimos anos, o transumanismo está muito mais próximo da linha extropiana, que busca a amplificação e transcendência através do corpo biológico do que o foco no "eu" enquanto mente do singularitarianismo.

Brinquei no Twitter que Eilish era a mais nova transumanista, porque ela percebia que o corpo é algo "inútil" em última instância. Hoje, a neurociência já traz uma outra perspectiva sobre a consciência corporificada e a importância do corpo como um todo na formação do nosso "eu". Mas, até pouco tempo atrás, e principalmente entre os singularitarianos, bastava sobreviver até o ponto de virada em que se descobrisse a maneira de transferir sua mente para um computador e então você não precisaria mais se preocupar com o corpo biológico — ou com sua degeneração, suas necessidades fisiológicas (algo que Freud e Becker estudaram) e seus impulsos "animalescos", como a sexualidade. O ciborgue é um ser pós-gênero, como defendeu Donna Haraway, mas pode acabar também caindo na armadilha de pensar que tudo aquilo que é humano, em um sentido biológico, é falho pela sua perecibilidade.

Se, por um lado, desejar viver como um avatar constantemente atualizável e sequer humano pode ser uma forma de transcender certos moralismos e convenções, por outro, isso pode acabar sendo uma armadilha perigosa em que não se almeja necessariamente seguir em frente, mas, na verdade, renegar e reprimir tudo aquilo com o que não conseguimos lidar — e que faz parte de nossa condição biológica e entrópica.

Ser magro, musculoso, ter o rosto harmonizado, não exalar cheiros desagradáveis, não ter pelos, conquistar formas do corpo modificadas com enxertos e lipoaspirações: tudo isso é uma forma de tentar alcançar essa perfeição manipulável que dá segurança ao nos enganar que temos controle sobre as coisas e sobre nosso próprio corpo.

O preço da fama ainda é seguir essa cartilha da perfeição — que Billie recusa e repudia. Mas é incrível ver como essa nova geração de celebridades tem trazido uma outra perspectiva sobre a imagem e o corpo da mulher famosa. Eilish, Lizzo, Jameela Jamil, Backxwash ou mesmo Rihanna são bons exemplos disso.

É claro que ainda predominam os corpos tecnológicos das Kardashians e afins, mas dá esperança ver que uma garota tão jovem quanto Billie já está oferecendo esse "atalho" para que meninas adolescentes não precisem esperar tanto tempo até entender a cilada em que se metem ao acreditar que o objetivo é ser perfeita. Na verdade, uma grande conquista seria romper com essas crenças falsas e aprisionantes.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL