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'Tem quem conversa com planta, eu tenho meus bebês', diz 'pai' de reborn

Tiago Dias

Do TAB, em São Paulo

04/08/2021 04h00

O dia do consultor de vendas Cleber Alves só começa mesmo quando ele entra no quartinho anexo ao seu para dar bom dia aos seus bebês. "Eu falo: 'o pai vai trabalhar e você fica aí que já já eu chego'. Quando eu chego, eu grito: 'Theo, o pai chegou'", conta, orgulhoso.

A rotina se repete todos os dias, mas Theo, sempre com o cabelo liso quase repartido ao meio e olhos castanhos bem abertos, nunca responde. Apesar de muitas vezes confundir algumas pessoas num primeiro momento, Theo é um bebê reborn, como são chamados os bonecos hiperrealistas que se tornaram febre entre o público infantil.

Nos últimos anos, a arte, antes dedicada a colecionadores, bombou no YouTube por seu conteúdo lúdico. Com visualizações na casa dos milhões, os vídeos mostram lojas de reborns simulando uma maternidade e crianças registrando suas rotinas com os "bebês" adotados. Com o passar do tempo, alguns adultos colecionadores assumiram também a postura de "pai de reborn", registrando e vivendo a fundo a experiência de ter filhos de corpo de pano ou silicone.

"Tem pessoas que têm planta e conversam até com uma calopsita, com um hamster. Eu converso com meus bebês, falo que vou deixar de castigo. A gente dá vida própria para eles", Cleber explica ao lado de Theo, no quarto devidamente decorado como um quarto de criança, onde ele guarda mais oito bebês reborns: Arthur, Livia, Manu, Sofia, Gael, Bruno, Mel e Alice.

Edvaldo e Cleber com os "filhos" Gael e Theo, bonecos reborn - Raquel Arriola/MOV.doc - Raquel Arriola/MOV.doc
Edvaldo e Cleber com os "filhos" Gael e Theo, bonecos reborn
Imagem: Raquel Arriola/MOV.doc

A rotina é compartilhada com o marido e a sogra, que passou a morar com o casal. No celular, ele mostra a senhora ninando um dos "netos". "Ela adora, ajudou muito ela nesse período", diz.

Naquele dia, o casal preparava a malinha com fralda e mamadeira com leite de verdade para um passeio no condomínio onde moram, em Campinas, na região metropolitana de São Paulo.

Há dois meses, a família cresceu com a chegada de Gael, um boneco com corpo miúdo, bracinhos retraídos e olhos fechados em um eterno adormecer. Feito num molde que simula um bebê prematuro, o recém-chegado surpreende pelos detalhes que vão da marca de vacina no braço às pequenas bolinhas brancas perto do nariz, como é comuns nos recém-nascidos de verdade. "É a cara do meu pai", diz Edvaldo de Souza.

Operador de máquina da área de tecnologia, Edvaldo nem sempre se sentiu à vontade para compartilhar daquela experiência com o marido, com quem vive há 18 anos. Hoje, ele conta que leva Theo até num posto de saúde perto de casa. "Chego dizendo que ele está gripadinho quando vou com minha mãe. Ele já é conhecido por lá", diz. Nos gestos cotidianos, passou a fazer reflexões da própria infância. "O Cleber é mais coração, eu sou mais razão. A gente se lembra como foi criado. Então a gente faz a mesma coisa, dá amor e carinho que muitas vezes a gente não teve", explica.

O casal conta que tentou ter um filho de verdade, através de uma barriga de aluguel, mas por problemas de saúde da amiga voluntária, o plano não saiu do papel. Eles, no entanto, não desistiram da ideia, e um Theo de carne e osso pode surgir em breve. Edvaldo diz esperar apenas sua aposentadoria sair. "Aí vou atrás. A gente já está pronto pra isso."

Nas "maternidades", muitos vendedores simulam pacto para atrair público infantil - Raquel Arriola/MOV.doc - Raquel Arriola/MOV.doc
Nas "maternidades", muitas vendedoras simulam parto para atrair público infantil
Imagem: Raquel Arriola/MOV.doc

As cegonhas

Cleber e Edvaldo são uns dos protagonistas do mini-doc "Pais de Reborn", produzido pelo TAB e pelo MOV.doc, que investiga a forma como os bebês reborns têm conquistado crianças e adultos e joga luz numa produção que tem mudado a vida de muitas artesãs, chamadas, neste universo, de "cegonhas".

"Eu não me sinto uma criadora de um ser. Muita gente tem até uma idolatria por quem é artista reborn, dizem que parece uma obra de Deus. O que encanta é o realismo, é o que gera esse laço", diz Monickie Urbanjos, uma das pioneiras na arte no Brasil. Apaixonada por bonecas desde criança, ela deixou um emprego numa multinacional nos anos 2000 para se dedicar a uma arte que até então pouca gente conhecia no país.

Hoje, muito por causa da pandemia, ela viu o pequeno quarto de sua casa entrar num ritmo quase industrial. O marido, que trabalhava num salão de cabeleireiros, aproveitou a crise para ajudar a mulher na produção artesanal. Cada bebê demora alguns dias pra ser feito, a depender do molde utilizado e dos detalhes solicitados pelos clientes.

O boom fez Monickie multiplicar as aulas de arte reborn que ministra online, para dar conta de muitas mulheres que querem ingressar no universo, onde o valor de um boneco pode chegar a R$ 10 mil.

Ela atende colecionadores, crianças e até casais que se preparam para a chegada de um filho (ou que perderam um). "Podem ser ferramentas para tratamentos terapêuticos, como o caso de idosos com Mal de Alzheimer", explica.

"É uma relação muito benéfica, muitos desenvolvem empatia, o cuidado com o próximo", acredita. "É algo que vai no emocional de cada pessoa. Quando você sabe lidar com isso, você só tem o lado bonito."