PUBLICIDADE
Topo

Quando a internet era só mato, 'O Guia dos Curiosos' mobilizava gerações

O escritor Marcelo Duarte, autor de "O Guia dos Curiosos" - Fernando Moraes/UOL
O escritor Marcelo Duarte, autor de 'O Guia dos Curiosos'
Imagem: Fernando Moraes/UOL

Edison Veiga

Colaboração para o TAB, de Bled (Eslovênia)

30/07/2021 04h01

O dia se perdeu na agenda, mas era comecinho de 1994. Não chovia em São Paulo, disso ele se lembra — embora, a cada segundo, 16 bilhões de litros de água sejam despejados em forma de chuva sobre a Terra. O jornalista Marcelo Duarte, na época com 29 anos, não se recorda se o sol estava forte. A propósito, é preciso acender 4 octilhões de velas para brilhar feito ele.

Quando saiu da reunião na sede da editora Companhia das Letras, que ficava na Rua Tupi, no bairro do Pacaembu, em São Paulo, a cabeça de Duarte fervilhava de ideias e empolgação. Seu coração batia mais forte, muito mais acelerado que as 72 vezes por minuto tradicionais, enquanto procurava onde havia estacionado o seu Gol prata. Acertara a publicação de seu primeiro livro, "O Guia dos Curiosos", um almanaque de capa laranja que acabaria marcando toda uma geração de brasileiros (talvez, mais de uma geração).

Controlando-se para não demonstrar aos passantes o tamanho de sua emoção, entrou no carro e, ao girar a chave, refletiu: teria um ano para escrever a obra com que sonhava. Seu coração precisava se acalmar.

Lançado em 10 de maio de 1995, O Guia dos Curiosos mudou a vida do jornalista. Na noite de lançamento, foram vendidos 116 exemplares. No dia seguinte, ele deu entrevista no programa "Jô Soares Onze e Meia", talkshow então exibido tarde da noite pelo SBT. "Era o auge do programa. Comecei a ouvir as pessoas falando do meu livro na rua. No fim de semana, fui almoçar com a família em um shopping e, na mesa atrás da gente, sem que ninguém me reconhecesse, percebi que o assunto era minha entrevista ao Jô", recorda-se ele, em conversa com o TAB via Skype — ao fundo de seu escritório, era possível ver a estante apinhada de livros de referência sobre os mais variados temas, acumulados nesses 25 anos (são mais de 4 mil títulos).

O jornalista e escritor Marcelo Duarte e a nova edição de 'O Guia dos Curiosos' - Fernando Moraes/UOL - Fernando Moraes/UOL
O jornalista e escritor Marcelo Duarte e a nova edição de 'O Guia dos Curiosos'
Imagem: Fernando Moraes/UOL

Em 1995, Duarte entrava na livraria do shopping e via as pessoas comprando seu livro. Na escada rolante tinha gente com o Guia na mão.

Os 3 mil exemplares se esgotaram em poucos dias. Até hoje, o livro já vendeu mais de 300 mil cópias — desde 2005, ele é publicado pela Panda Books, editora fundada por Marcelo Duarte em 1999. O título virou franquia, com edições temáticas, de esportes a sexo.

"Os números não são precisos, mas calculo que devo ter vendido até hoje 700 mil exemplares dos nove livros da coleção", estima o escritor. Se fossem empilhados, dariam quase duas vezes o tamanho do monte Everest — os livros subiriam e desceriam o pico mais alto da Terra. O décimo volume acaba de sair, e é justamente uma edição comemorativa, chamada de "O Guia dos Curiosos - Edição Fora de Série". "Os 10 livros têm um total de 4.752 páginas", conta o autor. A coleção toda pesa 6,1 quilos.

Velocidade de lesma

O ponto zero que transformaria o jornalista Marcelo Duarte em um especialista das curiosidades foi a publicação de uma reportagem na revista Veja São Paulo, onde trabalhou de 1991 a 1994. Em 8 de abril de 1992, assinou a reportagem de capa da publicação sobre as agruras do paulistano na hora de buscar atendimento bancário. Isso de resolver tudo por aplicativo de celular é muito, muito recente.

"Tudo começou com a velocidade da lesma", comenta Duarte. Logo no primeiro parágrafo, ao citar o tamanho da fila de uma agência do antigo banco Banespa (70 metros), o jornalista relatou que uma cliente tinha levado 2h10 para conseguir vencê-la. "Para percorrer essa distância, uma tartaruga daquelas gigantes demoraria 16 minutos. Uma lesma, 87", escreveu ele.

O autor Marcelo Duarte e a coleção de 'O Guia dos Curiosos' - Fernando Moraes/UOL - Fernando Moraes/UOL
A coleção de 'O Guia dos Curiosos'
Imagem: Fernando Moraes/UOL

Foi um sucesso. "Todo mundo na redação gostou muito da maneira com que comparei. Vi que era uma receita que funcionava. E, numa era pré-Google, comecei a colecionar essas informações aleatórias, para usar em meus textos", recorda Duarte. "Colegas começaram a me consultar quando queriam usar alguma comparação do tipo em suas matérias."

Reservou uma gaveta de sua mesa para colocar recortes e anotações que podiam ser úteis. Da área de um campo de futebol à temperatura mais baixa já registrada na cidade de São Paulo, tudo podia servir. Qual é o tamanho do pescoço de uma girafa? Quantos degraus havia na forca de Tiradentes? Qual é a velocidade do espirro?

(Essas três últimas perguntas, aliás, foram as enviadas por Duarte em sua carta à editora Companhia das Letras para tentar emplacar o livro. Deu certo. A propósito, o pescoço da girafa chega a medir 3 metros, a forca de Tiradentes tinha 21 degraus e um espirro voa a 160 quilômetros por hora).

Se a história da lesma foi o empurrãozinho para que Duarte criasse o guia, a inspiração veio de uma coleção de 1960, "Curiosidades - Como se Aprende, Distraindo-se". Ele encontrou os livros na estante da casa de uma tia, em Olímpia, a 431 quilômetros de São Paulo. Duarte foi de ônibus à cidade. Curtiu uma festa, viu os livros na estante, pediu emprestado e voltou, no mesmo fim de semana.

O jornalista Marcelo Duarte, em sua casa, e o livro que inspirou seu 'O Guia dos Curiosos' - Fernando Moraes/UOL - Fernando Moraes/UOL
O jornalista o livro que inspirou seu 'O Guia dos Curiosos'
Imagem: Fernando Moraes/UOL

Pesquisar a.G, Pesquisar d.G

Marcelo Duarte teve um ano de prazo para pesquisar e escrever o primeiro "Guia dos Curiosos". Deve ter perdido 18.250 fios de cabelo no processo.

Pesquisar naquela época era mais difícil ainda do que hoje. Não que o método tenha mudado: Marcelo Duarte é jornalista, afinal. "Quando me perguntam se eu sei de tudo, respondo que não, mas tenho o telefone de quem sabe", comenta. O xis da questão, na era pré-internet — e também na era da internet — era encontrar as fontes certas.

"Quando quis descobrir os nomes dos filhos de todos os presidente da República, descobri uma sociedade chamada Colégio Brasileiro de Genealogia, no Rio de Janeiro", recorda-se. "Só tinha um endereço. Procurei na lista telefônica pelo endereço e descobri um telefone de um escritório de advocacia que funcionava no mesmo prédio. Expliquei meu problema. A pessoa que me atendeu falou: 'me manda um fax com o que você precisa e eu coloco embaixo da porta, é um pessoal que só vem à noite aqui, só uma vez por mês...'"

Depois de um mês, Duarte recebeu, pelo correio, a lista com todos os nomes de que precisava.

O jornalista e escritor Marcelo Duarte e a primeira edição de 'O Guia dos Curiosos', de 1995 - Fernando Moraes/UOL - Fernando Moraes/UOL
O escritor e a primeira edição de 'O Guia dos Curiosos', de 1995
Imagem: Fernando Moraes/UOL

Para o Guia, seguiu um método que acabou se tornando recorrente: depois de escrito, pedia a um especialista para revisar cada um dos capítulos, com o objetivo de corrigir erros. "Alguns passaram, porque erro é que nem saci, se esconde, né?". Ele conta que, a cada reimpressão, os erros detectados eram corrigidos. E as atualizações do que ficou obsoleto e eventuais acréscimos de assuntos novos foram feitos nas reedições — "O Guia dos Curiosos" original teve três: (1995, 2005 e 2015).

O mundo mudou muito, desde a década de 1990. Plutão foi rebaixado a planeta-anão. Um atentado terrorista derrubou as duas torres do World Trade Center. Uma pandemia viral alterou o rumo da humanidade.

A internet se popularizou. Surgiu a Wikipedia.

Com a criação do Google, o sabichão onipresente criado em 1998, o método de pesquisa de Duarte segue o mesmo: consultar fontes bibliográficas e, principalmente, conversar com especialistas. "O que facilitou foi encontrar as fontes. Hoje, consigo contatar muita gente pelo Facebook, por exemplo", afirma.

O jornalista e escritor Marcelo Duarte, em sua casa, em São Paulo - Fernando Moraes/UOL - Fernando Moraes/UOL
Marcelo Duarte e uma de suas girafas -- tem mais de uma centena
Imagem: Fernando Moraes/UOL

Não são raras as vezes em que a provocação também chega via redes sociais. Quando a skatista Rayssa Leal ganhou a prata nas Olimpíadas no Japão, com apenas 13 anos, muitos atentaram para o fato de que ela era a mais jovem medalhista brasileira da história — e a sétima mais jovem da história dos Jogos Olímpicos. Duarte foi atrás de descobrir os nomes dos outros seis. Publicou no Instagram. "Então me perguntaram: e o mais velho? Fui pesquisar para responder", relata ele, que frequentemente posta curiosidades, além de no Instagram, no Facebook, no YouTube (mantém um canal com um programa semanal) e no TikTok.

Ao analisar as vendas dos seus livros curiosos, Duarte percebeu que, mesmo que os números se mantenham na casa de 1 mil exemplares por mês, o público anda se renovando. "É uma geração de 30, 40 anos, que cresceu com 'O Guia dos Curiosos' e agora tem filhos e quer mostrar para eles isso", afirma.

Só que as crianças não querem um livro, assim, cheio de listas e sem cores, Elas estão em outro mundo. O novo conceito nasceu com um livro que não pretende mais responder coisas que estão a um clique do Google. Mas, sim, apresentar questões que as pessoas sequer pensariam em procurar no Google. Este é o mote por trás desta edição chamada de "Fora de Série", com um projeto gráfico assinado pela premiada Casa Rex.

Hoje, Marcelo Duarte não precisa mais reservar uma gaveta para colecionar curiosidades, afinal.