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Por que o famoso 'soft power' do Japão está à prova na Olimpíada

Shinzo Abe, primeiro-ministro do Japão, apareceu como Mario Bros. - Luis Acosta/AFP
Shinzo Abe, primeiro-ministro do Japão, apareceu como Mario Bros. Imagem: Luis Acosta/AFP

Juliana Sayuri

Colaboração para o TAB, de Toyohashi (Japão)

05/06/2021 04h00

Pré-pandemia, era de se imaginar que, às vésperas da Olimpíada, estaria aberta a temporada de textos idealizando o Japão, frequentemente retratado como um "modelo" de país que combina tradições e tecnologia graças a um povo, a priori, disciplinado e inteligente. Em uma palavra, "admirável".

Foi assim que, historicamente, o Japão construiu sua imagem internacional. Entretanto, patinando na pandemia a 48 dias da abertura da Tóquio-2020, alvo de diversas pressões para cancelar os jogos, 2021 pôs à prova o "soft power" do arquipélago.

O que é soft power. Termo consagrado pelo cientista político norte-americano Joseph Nye Jr., soft power é o poder de influência e atração de um Estado sobre os demais - soft quer dizer brando; nesse contexto, pode indicar ideologia e itens culturais, sem o uso da força física. No último The Soft Power 30 Report, um estudo realizado desde 2015 pela consultoria Portland junto ao centro de diplomacia pública da Universidade do Sul da Califórnia, o Japão ficou em 8º lugar entre os países mais poderosos do mundo em termos de soft power - no ranking de 2019, a França ficou em 1º lugar. Esse poder começou a ser construído desde a década de 1960, lembra o cientista político Alexandre Uehara, coordenador do Grupo de Estudos sobre Ásia da USP (Universidade de São Paulo): em 1968, o Japão se tornou a segunda maior economia global e, nas décadas seguintes, o soft power japonês se propagou com o sucesso de empresas como Toyota e Sony, símbolos do desenvolvimento tecnológico e econômico da época; depois, foi a vez de ícones pop como Super Mario (Nintendo), Sonic (Sega), Godzilla, Hello Kitty, Pokémon e Sailor Moon, que marcam o imaginário até hoje.

Sonic nas Olimpíadas - Reprodução/YouTube - Reprodução/YouTube
Sonic, um dos ícones pop japoneses
Imagem: Reprodução/YouTube

JP? Aliado da Alemanha nazista na Segunda Guerra Mundial (1939-1945), o Japão foi desmilitarizado e perdeu seu "hard power" no pós-guerra; assim, o soft power caiu como uma luva. "Imagine um país que, derrotado na guerra, alvo de bomba atômica, conseguiu se reerguer e se tornar uma potência mundial. Foi assim que foi se construindo a ideia de um Japão 'admirável', o que se tornou um instrumento poderoso de relações internacionais", diz Uehara. Isso se desdobraria em duas estratégias: nation branding e Cool Japan. O nation branding se refere à construção de uma marca e marketing para promover positivamente a imagem de uma nação pelo público estrangeiro, envolvendo diferentes esferas - Estado e instituições públicas, indústria e iniciativa privada, imprensa e a própria sociedade. "Um exemplo é o próprio projeto da Tóquio-2020 para renovar a imagem internacional do Japão como uma nação moderna, focada na tecnologia e na sustentabilidade, um país 'do futuro'".

E o Cool com isso? Já o Cool Japan é uma estratégia que vem sendo fomentada desde a década de 2000 deste lado do mundo. Em 2012, um departamento de indústria criativa do Ministério da Economia publicou o documento Cool Japan Strategy destacando o potencial dos produtos da cultura pop (como animes, games, mangás e o fenômeno kawaii) para reforçar uma impressão "legal" do arquipélago. Livros e filmes contribuíram para "limpar" o histórico japonês de guerra e colonização na Ásia. Se na década de 1940 se imaginou um povo japonês desnutrido e sujo, um "perigo amarelo" para o mundo ocidental, o boom econômico a partir da década de 1960 foi esculpindo um novo discurso, o retrato de um povo produtivo, dedicado, limpíssimo e saudável. "O corpo japonês foi 'purificado'", analisa a acadêmica Janete Oliveira, professora do setor de japonês do Instituto de Letras da UERJ (Universidade do Estado do Rio de Janeiro) e coordenadora do projeto EloNihon: Estudos Midiáticos. "Isso se deu com a fixação de uma identidade japonesa, o 'nihonjinron'".

Made in Japan. Nihonjinron se refere a uma série de publicações e estudos sobre a identidade nacional e cultural japonesa pós-guerra. Dentro do Japão, isso impactou na idealização da sociedade japonesa como homogênea racial, social e culturalmente, como se japoneses fossem especiais, diferentes do resto do mundo, "frutos de uma sociedade singular, inigualável; para expressar esse caráter ímpar, japoneses usam diversas palavras como dokutoku, dokuji, tokuyu, tokushu, tokusei e koyu", exemplifica Oliveira - o leque de expressões dá dimensão do quão importante para uns e outros é frisar essa japonicidade como algo original e, no limite, "superior". Uma homogeneidade que não gosta muito de ser lembrada da diversidade étnica no país, do passado imperialista ou do presente marcado por desigualdades de classe e de gênero. Fora do Japão, também se impregnou a idealização dessa identidade made in Japan, invocando estereótipos elogiosos como disciplina, honra e hábitos de higiene como produtos tipo exportação, "vendidos" para o mundo.

Mascotes dos Jogos Olímpicos sendo apresentados para a disputa das Olimpíadas Tóquio 2020 - GettyImages - GettyImages
Mascotes dos Jogos Olímpicos sendo apresentados para a disputa das Olimpíadas Tóquio 2020
Imagem: GettyImages

O soft power na covid-19. No fim da Rio-2016, o então premiê japonês Shinzo Abe surpreendeu ao surgir no palco vestido de Super Mario, uma referência direta à cultura pop do país. Desde então, o governo passou a instrumentalizar o Cool Japan surfando a onda da Tóquio-2020, avalia a acadêmica Mayara Araujo, pesquisadora vinculada ao MidiÁsia da UFF (Universidade Federal Fluminense): um exemplo é o mascote estilo mangá, batizado de Miraitowa, que simboliza a junção entre tradições e tecnologia, inspirado num provérbio japonês que diz algo como "aprenda com o passado e desenvolva novas ideias". "A Olimpíada seria um privilegiado palco global para projetar a marca Japão", diz. Mas viria a covid-19, que provocou o adiamento dos jogos para 2021. Apesar do revés, ao longo da pandemia não foram poucas as cartadas do soft power japonês. Em maio de 2020, quando o Japão encerrou primeiro estado de emergência e declarou o surto do novo coronavírus "sob controle", Abe atribuiu o sucesso ao "poder do modelo japonês"; Taro Aso, ministro das finanças, chegou a se referir ao "mindo", que pode ser traduzido como "nível superior cultural". Proliferaram teses tentando justificar tal modelo, uns gabando-se dos hábitos de higiene e uso de máscaras, outros aventando hipóteses bizarras como a ausência de certas consoantes na língua japonesa, o que emitiria menos gotículas de saliva carregadas de vírus - o que nunca foi confirmado cientificamente.

E a Olimpíada? Em setembro de 2020, Abe renunciou por motivos de saúde e assumiu Yoshihide Suga, braço-direito do ex-premiê. O Japão não fez lockdown, dificultou o acesso a testes de covid-19, incentivou viagens na pandemia (na campanha Go To Travel), passou por outras ondas e estados de emergência, foi o último dos países do G7 a iniciar campanhas de imunização e, até agora, vacinou apenas 2,6% de sua população. Prestes a abrigar os jogos à revelia da maioria da população, o país é cada vez mais alvo de críticas. "Um megaevento esportivo que agora corre o risco de se tornar uma aglomeração super-disseminadora, diminuindo o 'appeal' [apelo] da Olimpíada em termos de soft power", escreveu Joyee Au Yeung, da Universidade da Pensilvânia, no Journal of International Relations. Para Alexandre Uehara, da USP, a Olimpíada pode ter dois saldos: se der tudo certo, pode deixar uma marca de vitória contra a pandemia, reforçando o poder simbólico do Japão; se degringolar, pode provocar abalos políticos consideráveis. Mayara Araujo, da UFF, concorda. "Para quem é de fora, ainda persiste certa idealização. Para quem vive lá, isso já levanta questões importantes, podendo abalar como a sociedade se vê e como vê as autoridades e as instituições", diz. "Vale lembrar que há outras indústrias culturais asiáticas entrando na disputa de soft power, como Coreia do Sul e Taiwan, que, aliás, estão se saindo melhor na pandemia. Além disso, o imaginário das tradições, da tecnologia e do pop do Japão pode repercutir positivamente no Ocidente, mas não tanto no leste asiático, onde há cicatrizes abertas pelo passado colonial. O pop não resolve nem o passado nem a pandemia."