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As travessias de Ian Matos, brasileiro no pré-olímpico pandêmico de Tóquio

O atleta brasileiro Ian Matos, 32 - Arquivo pessoal
O atleta brasileiro Ian Matos, 32 Imagem: Arquivo pessoal

Juliana Sayuri

Colaboração para o TAB, de Toyohashi (Japão)

13/05/2021 04h00

"Que dia é hoje?" foi o primeiro pensamento do atleta brasileiro Ian Matos, 32, ao despertar num luminoso 26 de abril e ver da janela o Monte Fuji despontando entre as nuvens, enquanto aterrissava no Aeroporto Internacional de Tóquio.

Não era para menos: Ian embarcou na noite fluminense de 24 de abril, marco de suas "32 translações ao redor do sol", nas suas palavras, e atravessou 12 fusos horários — e mais de 18 mil km — num trajeto Rio de Janeiro, São Paulo e Frankfurt rumo à capital japonesa para a Copa do Mundo de Saltos Ornamentais, a disputa pré-olímpica para a Tóquio-2020. "Pensa num menino feliz", escreveu o atleta no Instagram, um dos oito integrantes da seleção brasileira.

Natural de Muaná, no interior do Pará, Ian viveu dias de sonho olímpico ante o pesadelo pandêmico que já provocou 3,3 milhões de mortes mundo afora (423 mil delas no Brasil). "Nós, atletas, muitas vezes vivemos em uma bolha. É treino, treino, treino, performance e é isso o que importa. Nos últimos tempos, tudo mudou: não dá para fechar os olhos para a pandemia. Todo mundo conhece alguém que perdeu alguém que perdeu alguém por covid-19", disse o saltador à reportagem de TAB, na manhã de sua sexta-feira de folga, 30 de abril, um dia antes do início do torneio, que se estendeu de 1º a 6 de maio.

Foi uma prévia do que esperar para a Tóquio-2020: Ian e demais atletas passaram dias de aclimatação e competições entre o hotel e o Tokyo Acquatics Center, um complexo no parque Tatsumi construído especialmente para a Olimpíada, cuja abertura está marcada para 23 de julho. Desde que pisaram no arquipélago asiático, eles fizeram exames para covid diariamente, disse. Ficaram no 9º andar do hotel, e de lá só saíam para treinar.

Para Ian, viajar e competir atualmente não está sendo muito diferente dos tempos pré-pandemia. Habituados a concentrações antes das provas, a rotina dos atletas já é regrada: horário marcado para café, ônibus, treino. "A única diferença é que relaxávamos no fim das competições. Hoje, isso é impossível."

O atleta brasileiro Ian Matos, 32 - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
O atleta brasileiro Ian Matos, 32
Imagem: Arquivo pessoal

Tóquio, Buenos Aires, Belém

Uma das apostas brasileiras nos saltos ornamentais, Ian viajou no fim de março para Buenos Aires, onde a equipe brasileira foi campeã geral do Sul-Americano de Esportes Aquáticos. "Tóquio, pelo que vi, está fazendo o possível. Já Buenos Aires lembrou o Rio, tudo aberto como se não tivesse pandemia", relatou. Ian aposta que é possível realizar jogos seguros, com testes, todos de máscaras, distanciamento social, sem aglomerações. "O mínimo que, até hoje, não é compreendido no Brasil."

Ian representou o país na Rio-2016 e nos Jogos Pan-Americanos de Guadalajara (2011), Toronto (2015) e Lima (2019). Desde que despontou na modalidade olímpica, o atleta também se destacou por assumir sua homossexualidade publicamente, "um ato político", como ele definiu na campanha Livres & Iguais, das Nações Unidas.

Vivendo no Pará, ele aprendeu a nadar muito pequeno e, por volta dos 11 anos, se interessou por saltos. Participou de competições juvenis e, em 2007, se mudou para Brasília para treinar. Em 2014, migrou para o Rio, para uma vaga aberta para salto sincronizado.

Desde então, especializou-se na prova individual do trampolim de 3 metros no clube Fluminense, iniciou um bacharelado em educação física no Centro Universitário IBMR e, um tipo de "ovelha desgarrada", segundo sua expressão, passou a visitar a família apenas nas raras férias.

Viria então a pandemia. Com campeonatos cancelados por conta das restrições de mobilidade mundo afora e treinos anulados no Rio, Ian decidiu aproveitar o tempo livre para visitar Belém, onde ficou entre abril e junho de 2020.

"Fiquei quase 100% parado no treino técnico", lembrou. Para salto ornamental, o treinamento é bastante específico na piscina e na academia, aos quais os atletas brasileiros não tiveram acesso quando os portões dos centros de treinamento, no Rio, se fecharam.

Em maio de 2020, Ian perdeu a avó para a covid-19. Foi por aí que a ficha da pandemia caiu de vez para o atleta. Isolado dentro de casa junto à família, ele decidiu dar um gás nos estudos de educação física e fazer "vários nadas". "Depois precisei buscar o balde que tinha chutado e que estava lá longe", relatou ele, que na época pulou dos 72 para 78 kg.

Em julho de 2020, com a volta dos treinos, Ian voltou ao Rio. Ele que lute, ele lutou: recuperou a ótima forma, aperfeiçoou as técnicas, apostou, mas não conseguiu a sonhada vaga. Nos seus seis saltos na eliminatória de 5 de maio, somou 309.85 pontos, o que lhe rendeu o 44o lugar entre os 54 melhores do mundo - eram 18 vagas. Dos oito brasileiros nas disputas, quatro conseguiram se classificar: Luana Lira, Ingrid Oliveira, Kawan Pereira e Isaac Souza.

O atleta brasileiro Ian Matos, 32 - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
O atleta brasileiro Ian Matos, 32
Imagem: Arquivo pessoal

De volta ao Rio

Ian viveu dias dentro de uma bolha pré-olímpica, mas com um olhar lá fora. "Minha irmã e minha amiga estão trabalhando na linha de frente. Meus olhos estão aqui e ali", disse ele ao TAB, dias antes de se lançar aos saltos decisivos.

A irmã é Naiandra Matos, 30, intérprete de libras e assistente social, que tem trabalhado em um hospital de campanha contra covid-19 e em um centro de inclusão social em Belém. "Passamos por momentos muito difíceis. Tivemos duas perdas, nossa avó e nosso tio-avô, que abalaram muito a família. Também tive covid no ano passado. O lado bom é que estávamos juntos, lado a lado, pra dar força um para o outro", relatou ela. "Apesar de todos os pesares, a ida de Ian a Tóquio me deixou muito feliz, é uma alegria no caos."

A amiga é Mayra Ramos, 29, também assistente social, que praticou salto ornamental na juventude e parou para se dedicar aos estudos. Ian e Mayra não se viram na recente temporada dele no Pará: respeitando o isolamento social, eles só têm conversado digitalmente na pandemia. Mayra está trabalhando há mais de um ano (marcado no calendário, 23 de abril de 2020 foi o primeiro dia) em um hospital de campanha na capital paraense, montado no Hangar Centro de Convenções, às vezes junto a famílias quando alguém é internado, outras no acolhimento após a notificação da morte do paciente.

"É muito difícil ver o amor de alguém partir", disse ela, nitidamente abalada. "O que está acontecendo é surreal. Tantas mortes, tantos sonhos adiados. É uma realidade muito triste."

Voltando ao Rio depois da miragem de Tóquio, uma longa travessia que se iniciou na sexta-feira, 7 de maio, Ian deve retomar treinos no Fluminense. Imagina "ver a cidade cheia, os bares lotados no Leblon [no Rio]", lamentou. "De volta à realidade."