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Jovem larga emprego fixo para vender no farol e faz coaching da atividade

O vendedor Marvin Pereira Farias, 22 - Arquivo pessoal
O vendedor Marvin Pereira Farias, 22 Imagem: Arquivo pessoal

Giacomo Vicenzo

Colaboração para o TAB

12/05/2021 04h00

Nos cruzamentos próximos ao Shopping Itaguaçu, em São José (SC), um rapaz disputa o espaço entre os carros que param nos semáforos. Se aproxima dos vidros e oferece o drops refrescante ou a paçoca, a depender do dia. Mesmo quando faz um sol escaldante, ele não perde o ritmo e leva placas com as frases escritas que chamam a atenção: 'Meu negócio vai dar certo nem que seja marra' ou 'Meu curso de marketing será pago com muito suor'.

Mas é sem marra que Marvin Pereira Farias, 22, natural de Pelotas, explica ao TAB que a própria criação das placas já é parte dos ensinamentos dos cursos online de marketing que começou a frequentar. "Segurar as guloseimas numa mão e a placa na outra ajuda a fazer o troco. Em semáforos com muitos pedintes ou ambulantes, não dá dinheiro. Tem que procurar outros". São as regras do jogo em que está inserido há dois anos.

Suas vivências debaixo do sol também são narradas na página de Instagram @marvinfariasoficial, onde deixa dicas e cria séries de conteúdos como "R$ 1.000 em oito dias". Elas são destinadas a outros ambulantes ou a pessoas que, assim como ele, querem encarar as rotinas do farol para ganhar uma grana extra. "Marvin | Negro ambulante", como se apresenta, age com um coaching. Mas é entre as frases provocativas que posta em suas redes — tais como "ganho mais que você no farol enquanto você está no emprego fixo'' —, que o ambulante manda a real. "O farol não pode ser para sempre. Você precisa ter um outro objetivo além desse, o farol precisa ser só um degrau que vai te ajudar."

Sinal verde

Marvin viveu até os 20 anos em Santa Cruz do Sul (RS), cidade com menos de 132 mil habitantes em que teve seus primeiros empregos formais — como jovem aprendiz e, simultaneamente, motoboy. Mesmo com jornada dupla, o dinheiro ainda era pouco e não passava dos R$ 1.200 mensais. "Tive a ideia de ir para Florianópolis porque alguns amigos estavam estudando e trabalhando por lá. Achei que teria mais oportunidades", explica.

À primeira vista, os planos deram certo — e logo conseguiu um emprego como uma espécie de faz tudo numa loja de variedades. Mas os saltos para viver em uma cidade grande também trouxeram custos de tempo e dinheiro que Marvin não conhecia. "O salário era R$ 1.700, mas as contas chegaram e eu percebi o quanto era difícil pagar o aluguel que dividia com uma amiga. Sobrava R$ 1.000, e eu queria mais", lembra.

Em meados de 2019, Marvin fez o que muita gente já fez ou pensou em fazer em algum momento de desespero financeiro. Buscou no Google "como ganhar dinheiro rápido". Os resultados variaram entre os praticáveis e os mirabolantes, e trouxeram desde alguns planos de carreira até o empreendedorismo.

"Ou eu fazia uma faculdade ou começava numa empresa e iria subindo aos poucos, fazendo cursos, mas tudo envolvia faculdade. Como ganhar sem a faculdade e rápido? Conheci o youtuber Tiago Fonseca, que fala sobre marketing e empreendedorismo. Ele dá uma dica para levantar uma grana rápida, literalmente vendendo paçoca no farol", comenta Marvin.

Para Marvin, se ver naquele youtuber negro — que também é empresário e tem mais de 2 milhões de inscritos em seu canal — foi uma espécie de esperança. "Onde cresci, via muitas pessoas em cargos de liderança nas empresas, como empreendedores, mas todos eram brancos. Para os negros eu sentia que sobrava mais o trabalho de chão de fábrica e sempre quis ser líder, empreendedor, mas por lá ser uma região colonizada por alemães, essas vagas ficavam com eles e entre eles", comenta.

Ainda tímido por começar a vender algo por contra própria, Marvin apostou em brigadeiros que fazia ao chegar do trabalho. Foi um sucesso — e logo levou o jovem a refazer as suas contas dos ganhos diários. Ganhava R$ 67 por um dia inteiro de trabalho formal e, em um almoço vendendo brigadeiros para os outros funcionários, ganhava mais R$ 22. Em uma semana, começou a vender 50 brigadeiros por dia.

Apesar dos ganhos — que o fizeram usar a hora do almoço para vender no farol — Marvin trocou a venda de brigadeiros por doces industrializados que comprava em atacados. "Comecei com as pernas tremendo, ainda tinha muita vergonha. As pessoas da própria empresa em que eu trabalhava tiravam sarro nas minhas costas", lembra. "Cansei de me esconder e decidi mostrar que era um trabalho como outro qualquer. Passei a postar os conteúdos mostrando o meu dia a dia nas redes sociais", completa.

Marvin conversa com clientes no farol - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Marvin conversa com clientes no farol
Imagem: Arquivo pessoal

O farol fez o lucro que tinha com os brigadeiros dobrar, e chegou o momento de fazer uma escolha mais difícil. Chamou o chefe para conversar e abriu o jogo. "Quando cheguei, ele disse que eu nem precisa terminar de falar e que ele já sabia que eu conseguia tirar até R$ 300 por dia no farol, que nunca conseguiria me pagar isso. Me mandou embora com todos os direitos, disse que eu estava no caminho certo", lembra.

Um homem de negócios

Sem emprego fixo, Marvin passou a se dedicar ao semáforo por cerca de três a quatro horas diárias. O preconceito dos pais logo veio à tona: eles demoraram um pouco para aceitar a ideia de que o filho havia deixado o trabalho formal para se arriscar nas vendas no farol.

Seguindo firme, o comerciante viu sua renda mais que dobrar, e agora consegue até R$ 3.500 mensais só com o comércio entre os carros. Dienifer Schmidt Nunes, 20 — a namorada com quem agora divide o aluguel — embarcou na aventura e também encara as vendas no semáforo após sair de seu emprego fixo. "O primeiro contato dela com o farol foi difícil, ela não conseguiu desconstruir esse negócio do ego", comenta.

O vendedor Marvin Pereira Farias, 22 - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Marvin em mais um dia de jornada
Imagem: Arquivo pessoal

Há quatro meses, o casal trocou a capital de Florianópolis pela cidade de São José, também em Santa Catarina. O aluguel mais barato fez com que Marvin pudesse começar a ativar seu sonho com o dinheiro do farol. Comprou uma moto, que custou pouco mais de R$ 4.000 e investiu junto com Dienifer em um negócio próprio: uma lanchonete que vende hot-dogs por delivery. "Aplico tudo que aprendo no Hot Dog do Silvio, dei esse nome inspirado no apresentador, que começou da rua e hoje é milionário", diz ao TAB.

Marvin revela que a venda de lanches rende cerca de R$ 1.300 mensais, mas que a ideia é justamente usar o dinheiro recebido no farol durante à tarde para impulsionar o seu empreendimento, que funciona das 18h às 00h. A homenagem a Silvio Santos rendeu comentários de Rebeca Abravanel, apresentadora de televisão e filha do dono do SBT, que parabenizou a iniciativa.

Mesmo com outros negócios, o maior lucro de Marvin ainda chega na corrida entre os carros. Ele frisa que o sinal pode ser uma saída, mas também pode ser uma prisão. "Digo aos meus seguidores que, para vender no sinal, você precisa ter data para começar e parar. Não pode ser um escravo do dinheiro e ficar vendendo bala o tempo todo", conta.

A meta do jovem é conseguir mais clientes e se tornar um gestor de tráfego online reconhecido, bem longe do tráfego de carros em que corre hoje com balas e placas com o seu Pix anotado. Ele revela que escolheu seu aniversário, 08 de junho, como data-limite para abandonar as vendas no farol. Estudando marketing e gestão de tráfego há cerca de um ano em cursos online, Marvin é acima de tudo um vendedor — seja nas redes ou entre os carros.