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'Tomei água para enganar a fome': sem clientes, engraxates sofrem em SP

Fernando Augusto Guimarães, que trabalha como engraxate no centro de São Paulo - Flavio Florido/UOL
Fernando Augusto Guimarães, que trabalha como engraxate no centro de São Paulo Imagem: Flavio Florido/UOL

André Bogart

Colaboração para o TAB

05/05/2021 04h00

Em uma manhã cinzenta de quinta-feira, o engraxate Joel Augusto Fernandes, 38, aborda com rapidez qualquer transeunte que passa próximo ao coreto de madeira onde trabalha, na Praça Antônio Prado, centro histórico de São Paulo. "Quer engraxar?" é a pergunta que mais sai da sua boca desde o início da pandemia, há mais de um ano.

Na ausência de respostas positivas, Fernandes devora uma mexerica enquanto vê a chuva fina acentuar a temperatura fria. Às 10h, os paulistanos se espremiam nas calçadas para descer até a Rua 25 de Março, depois de um mês de comércio fechado no estado. Mas a praça que reunia não mais do que quatro engraxates era uma paisagem desértica em meio ao formigueiro humano visível a 100 metros dali.

Joel inicia mais um dia de trabalho com o gosto ruim da frustração na boca — e não é por causa da fruta cítrica. Na tarde anterior, o governador João Doria (PSDB) participou de um leilão de concessão de linhas da CPTM (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos) à iniciativa privada na B3, a Bolsa de Valores.

O que num passado recente significava uma oportunidade única de lustrar sapatos de homens engravatados, naquele dia, serviu apenas para quebrar o marasmo ao ver dezenas de policiais fazerem a segurança do político.

Para o engraxate, o lema "fique em casa", usado à exaustão como medida efetiva para conter o avanço do coronavírus, significa menos atendimentos e, consequentemente, menos dinheiro para uma profissão desassistida de direitos trabalhistas.

Joel Augusto Fernandes trabalhando no coreto dos engraxates - Flavio Florido/UOL - Flavio Florido/UOL
Joel Augusto Fernandes trabalhando no coreto dos engraxates
Imagem: Flavio Florido/UOL

Quando a fome machuca

Referência para engraxates há décadas, a Praça Antônio Prado é uma região privilegiada do centro antigo, cercada por escritórios de advocacia, órgãos da Prefeitura e bancos, além da própria Bolsa. Depois que o home office virou realidade, é difícil ver o entrelaçamento de sapatos pretos e marrons pelo chão de pedra.

Joel não engraxa mais do que quatro pares por dia. Com muita sorte, consegue tirar R$ 1.000 em um mês para pagar algumas dívidas em atraso. "Eu estou com meu INSS atrasado, não consigo pagar. Moro sozinho e ainda ajudo minha mãe. Meu pai tem as casas dele lá em Minas, mas não quero nada que não seja meu."

Nascido em Caratinga (MG), Joel buscou a vida em São Paulo aos 17 anos para trabalhar como engraxate, por recomendação de um tio especialista no ramo. Após duas boas décadas no ofício, como faz questão de dizer, agora o autônomo se vê obrigado a fazer malabarismos para garantir o mínimo para sobreviver.

Quando faltam os R$ 4,40 da passagem de ônibus, o jeito é pedalar durante uma hora e meia entre sua casa na Vila Castelo, zona sul, e o centro histórico. Para incrementar o faz-me-rir, Joel levanta parcos R$ 50 aos fins de semana, fazendo bicos como ajudante de pedreiro. Ele se desdobra porque já chegou a passar fome.

"Eu passei um dia sem comer, o estômago roncando, fiquei com vergonha de pedir ajuda para minha família. Eu tomei água para enganar a fome. Foi foda, viu? Me desculpe por chorar", diz ele, enquanto enxuga as lágrimas com o dorso da mão.

Joel Augusto Fernandes chora dizendo que passou por dificuldades - Flavio Florido/UOL - Flavio Florido/UOL
Joel Augusto Fernandes chora dizendo que passou por dificuldades
Imagem: Flavio Florido/UOL

Mais jovens resistem

As habilidades manuais de um engraxate são passadas de geração a geração. No coreto do outro lado da praça, Fernando Augusto Guimarães, 43, iniciava o conserto de uma bota feminina. Primo de Joel, ele dá brilho e polimento aos sapatos há 28 anos, também por indicação do tio.

O mineiro ocupa uma das setes cadeiras, enquanto as outras servem como penduricalho para jaquetas surradas e pilhas de caixas de sapato. Em ambos os locais, era comum ver de 10 a 12 trabalhadores sujarem a roupa de graxa diariamente. Com a pandemia, os profissionais idosos se recolheram por medo da contaminação e os mais jovens resistem solitariamente.

"Se está todo mundo aqui, brother, não vou falar que a gente ia brigar pelo cliente, mas ninguém ia trabalhar. No máximo, [engraxaria] um par de sapatos por dia e olhe lá", afirma, enquanto retira o couro descascado do calçado na unha.

Fernando é dono do assento com couro avermelhado após ter comprado o ponto em definitivo por R$ 15 mil. Ele, porém, passa mais tempo na rua do que sentado, porque agora a modalidade que salva as contas no fim do mês é a retirada de calçados nos escritórios ou até mesmo nas residências dos clientes, sem custos de entrega.

Na Praça Antônio Prado, uma engraxada custa R$ 12 há mais de quatro anos. Nem mesmo a crise fez o preço subir, por temor de que a clientela se afastasse ainda mais. Naquela quinta, Fernando ainda comentava o aniversário dos gêmeos Pedro e Miguel, que completaram 11 anos no dia anterior. Mas a expectativa era agradar mais os caçulas.

Tabela de preços da engraxataria - Flavio Florido/UOL - Flavio Florido/UOL
Tabela de preços da engraxataria
Imagem: Flavio Florido/UOL

"Eu queria ter feito um bolinho, mas não deu, fiz um almoço legalzinho. Se tivesse trabalhando como antes, ia até ao McDonald's para fazer a farra que a molecada gosta. Eu trabalho para eles, é o que me dá força, né?", declara, sem perder o riso, com a bota em mãos.

Época de ouro

Aos 40 anos, Josué Silvério Batista já diz ter vivido a época de ouro da graxa. Eram os tempos de pregão da Bolsa de Valores, no início dos anos 2000, quando as portas do prédio imponente abriam para pessoas e empresas negociarem ações. Em um dia, o engraxate chegava a lustrar mais de 20 pares de sapatos.

Aquele período, no entanto, ficou para trás. Às 11h da manhã, ele dividia o coreto com uma amiga que assistia a vídeos no celular para todo mundo ouvir e com um vira-lata que se aconchegava na altura de seus pés. Joel, que divide o espaço com ele, tragava cigarros de meia em meia hora e andava de patinete elétrico no chão de pedras molhado para matar o tempo.

O ordenado da semana de Josué provavelmente estava garantido em uma bolsa esportiva que guardava uma dezena de calçados masculinos. Nas horas de aperto, o WhatsApp tem sido a salvação para perguntar a um banqueiro ou advogado se estão precisando de graxa -- ou de algum serviço extra para os pisantes de couro.

"O cliente não pode vir aqui e gastar só R$ 12, senão estamos perdidos. Tem que inventar uma coisa a mais para vender: sapatos de Franca, cadarço, calçadeira, palmilha?", explica, aos risos.

Josue Silverio Batista posa para foto no coreto dos engraxates - Flavio Florido/UOL - Flavio Florido/UOL
Josue Silverio Batista posa para foto no coreto dos engraxates
Imagem: Flavio Florido/UOL

Segundo ele, a pandemia veio apenas para consolidar seu pensamento: o ofício de engraxate está com os dias contados. O movimento começou a despencar na década passada, após empresas trocarem o centro pelas avenidas Berrini e Faria Lima, que reúnem profissionais descolados do mercado financeiro e advogados que combinam camisa azul clara com tênis de lã.

Na realidade de Josué, não é nada cool ter que esperar o relógio marcar 19h para tomar o trem mais vazio para sua casa — em Ferraz de Vasconcelos, município ao leste de São Paulo — para passar algumas horas com a esposa e a filha de 9 anos. "Só vou quando estiver mais tranquilo", diz ao TAB enquanto ajusta a máscara no rosto.

Descrente com o futuro da profissão, o engraxate afirma que quer olhar para a frente e ver um futuro promissor, possivelmente longe da graxa. Ele explica que concluiu o ensino médio e não fez curso superior porque precisava pôr comida na mesa, mas pretende voltar aos estudos após o fim da pandemia. Outro sonho é abrir uma loja de sapatos com marca própria. Enquanto este dia não chega, Josué olha de um lado para o outro da praça à procura de um freguês.