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Resistindo à pandemia, restaurante distribui marmitas para moradores de rua

Para não fechar as portas, restaurante paulistano cria campanha de doação de marmitas para moradores de rua na região central - Reinaldo Canato
Para não fechar as portas, restaurante paulistano cria campanha de doação de marmitas para moradores de rua na região central
Imagem: Reinaldo Canato

Marie Declercq

Do TAB

10/05/2021 04h00

Assim que o carro estaciona ao lado da Praça Marechal Deodoro, na região central da capital paulista, dezenas de pessoas que dormem nos bancos e no chão da praça já se levantam. Alguns cutucam os companheiros de rua. É cedo para almoçar, mas o horário é o de menos quando não se sabe quando será a próxima refeição.

O porta-malas é aberto por Eduardo Minoru Adaniya, 47, e Elson Novaes, 34, que se posicionam para entregar as 51 quentinhas preparadas no restaurante em que trabalham, a poucos quarteirões dali. Uma fila se forma e as quentinhas desaparecem do porta-malas em menos de 10 minutos. "É a parte mais rápida do processo", comenta Novaes, entre os "bom dia" e "obrigado" de quem veio buscar a refeição.

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Em menos de dez minutos, Adaniya e Novaes distribuem todas as 51 marmitas do dia. A ação começou em março para salvar o restaurante e continua devido ao sucesso da campanha
Imagem: Reinaldo Canato/UOL

Três horas antes, no Restaurante e Lanchonete Mais Sabor, a cozinha estava a todo vapor no preparo da comida. O cardápio costuma ser o mesmo, com algumas variações: arroz, feijão, macarrão, frango e um pouco de farinha. Um prato-feito robusto.

Com o cheiro agradável de comida temperada invadindo o salão, a cozinha começa também a preparar os pratos do self-service. "Usamos o mesmo ingrediente para as marmitas e para o almoço dos clientes", diz Adaniya. "Não é porque é doação que a gente não vai fazer direito, né?"

Na praça, vem o veredito. Debruçados nas marmitas, alguns mandam de longe um sinal de joinha em direção a Adaniya e Novaes. Almoço aprovado. Grande parte passa reto pela equipe do TAB, na pressa de almoçar e começar o dia.

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Elson Novaes, 34 anos, trabalha no Restaurante e Lanchonete Mais Sabor e ajuda na distribuição de marmitas para moradores de rua na região central de São Paulo. Na foto, ele entrega uma refeição para uma senhora que já o conhece
Imagem: Reinaldo Canato/UOL

A distribuição de marmitas começou em março e estava prevista para durar um mês. Fechando as contas no vermelho desde o começo da pandemia, o casal e o tio de Eduardo, donos do restaurante, uniram o útil ao agradável: arrecadam doações para produção de marmitas e, com isso, conseguem manter a lanchonete em funcionamento.

Altos e baixos

A localização do restaurante é boa e a comida faz sucesso — dois aspectos cruciais para a prosperidade de um estabelecimento. Em tempos pandêmicos, as vantagens são mero detalhe, quase irrelevantes. O Restaurante e Lanchonete Mais Sabor foi aberto há 13 anos por Adaniya, em sociedade com sua esposa, Mary, 50, e o tio, João Kouka Shiroma, 72. "Claro que passamos por altos e baixos durante esse tempo, mas nada se compara a isso", explica Adaniya.

Localizado a menos de 200 metros do metrô Santa Cecília, o restaurante tem proposta simples. Self-service, prato feito, salgados e café fresco. A comida boa fez do local um point de almoço para funcionários da Santa Casa de Misericórdia e trabalhadores de crachá da região.

O restaurante é um dos milhares na capital paulista que estão desde março de 2020 tentando sobreviver. Com o abre e fecha constante das medidas restritivas, o home office de trabalhadores e poucas políticas econômicas efetivas para estancar o sangramento do comércio de rua, a família do Mais Sabor termina todo mês com dívidas. O receio maior, entretanto, é o local ter o mesmo destino de outras centenas de estabelecimentos que fecharam as portas.

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A produção das marmitas começa pontualmente às 7 da manhã, a partir de quarta-feira. Na foto, funcionários e uma das sócias do restaurante preparam o prato feito do dia: arroz, feijão, macarrão, legumes, frango e farinha
Imagem: Reinaldo Canato/UOL

O fechamento de restaurantes e bares mais badalados costuma ganhar espaço em colunas gastronômicas ou até reportagens, mas pouco se sabe da história de estabelecimentos que oferecem comida do dia a dia, especialmente na hora do almoço.

Eduardo Adaniya pensou em abrir uma linha de crédito oferecida para estabelecimentos como o dele, mas desistiu quando fez as contas e viu que acabaria mais endividado do que gostaria. O jeito foi enfrentar o momento cortando até o necessário. "Tivemos que demitir seis funcionários porque simplesmente não dava pra pagar", conta, com a voz abafada pelas duas máscaras cirúrgicas no rosto.

Aí veio a ideia das marmitas. No caso, de um amigo de Adaniya, dono de um supermercado. "Coloca aí que a ideia foi dele, do Celso Massayuki Gushiken", pede timidamente ao TAB. A ideia de Gushiken foi simples: arrecadar dinheiro suficiente para preparar 600 marmitas em um mês para distribuir à população de rua na região, garantindo, ao mesmo tempo, que as contas do restaurante fechassem para que pudesse seguir em funcionamento.

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Eduardo Minoru Adaniya (centro), 47, junto com sua esposa Mary Adaniya, 50 e seu tio, João Kouka Shiroma, 72 (de óculos) são sócios do Restaurante e Lanchonete Mais Sabor, localizada no bairro da Santa Cecília
Imagem: Reinaldo Canato/UOL

Antigo ponto de encontro

A linha de montagem das marmitas toma parte do salão, que mal recebe clientes há mais de um ano. Se fosse em outra época, o dia começaria cheio para o café da manhã, seguido do almoço. Alguns fregueses ainda passam pelo local, pedindo um salgado e um café açucarado. A maioria conhece a família e cumprimenta os donos na base do primeiro nome.

O salão que enchia de manhã, onde se formavam filas para o self-service, fechava às 21h30. Agora, o horário de funcionamento foi cortado quase pela metade, fechando às 16h.

"É uma tristeza ver tudo isso vazio. Aqui era um ponto de encontro", comenta Adaniya. Dos 300 almoços vendidos por dia, o número reduziu drasticamente: agora, são de 50 a 80 refeições. Delivery? Só cobre uma parte. "Pensamos várias vezes em fechar as portas de vez, porque é um trabalho sem retorno."

Repassando a campanha das marmitas entre conhecidos, a meta foi logo atingida na primeira semana. O plano, previsto para terminar em um mês, se estendeu. Desde o final de março, 2 mil refeições já foram entregues — e R$ 29 mil arrecadados.

As doações trouxeram alívio, mas também não fizeram milagre. "Conseguimos manter o restaurante, pagar os salários e não fechar as portas. Mas há muito tempo estamos sem lucrar", conta Adaniya.

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"Nós usamos os mesmos ingredientes e produtos para as marmitas. Não é porque é doação que você tem que fazer de qualquer jeito", conta Eduardo Minoru Adaniya.
Imagem: Reinaldo Canato/UOL

'Não temos que aceitar qualquer coisa'

Mesmo trabalhando todos os dias em contato com o público, ninguém pegou covid-19. Shiroma está vacinado e prefere continuar trabalhando. "Ficar em casa não dá", comenta, atrás do balcão. Todos os funcionários, incluindo a família, fazem o básico: máscara e higiene das mãos.

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Luna de Oliveira, 29 anos, mora na rua há nove anos com seu marido e depende de doações para conseguir comer
Imagem: Reinaldo Canato/UOL

Durante a entrega das marmitas, alcançando uma das últimas unidades, Luna de Oliveira, 29, que vive embaixo de uma marquise próxima à praça, aprecia as doações — e, principalmente, o sabor das refeições. Com duas quentinhas na mão, ela nos leva até seu canto, que divide com o marido e um casal de idosos. Todos dormem no chão, embrulhados em poucos cobertores.

"Tem muita gente ajudando aqui no centro, e o pessoal da marmita é um deles. É boa de verdade, sabe? Não é porque a gente mora na rua que temos que aceitar qualquer coisa", conta.

Morando na rua há 9 anos, Oliveira e o marido chegaram a alugar um pequeno quarto de pensão durante cinco meses. Vendendo brigadeiros, conseguiram bancar o aluguel de R$ 700 mensais, mas o trabalho acabou na pandemia e ambos retornaram às ruas. "Você se acostuma rápido em ter um canto só seu, sabe? Retornar às ruas fica mais difícil." Preparada para almoçar, Oliveira se despede de nós, deixando para trás mais uma história passageira de um dos milhares que enfrentam chuva, frio e fome nas ruas da cidade.

Observando dezenas de pessoas fazendo a primeira refeição do dia, Adaniya e Novaes tiram uma selfie para registrar o dever cumprido, antes de voltarem ao batente. Pergunto se ele está postando a iniciativa no Instagram, mas Adaniya diz que prefere contar com o boca a boca para divulgação. "Fiquei com receio de postar na página do Instagram e parecer oportunista."

Mesmo resistindo a uma justa divulgação, a campanha segue circulando pelo WhatsApp para salvar o restaurante e matar a fome de quem vive na rua.