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Filha de pais surdos, Coda transita entre mundos dos sons e dos sinais

 Andrea Venancino, 42, fazendo o sinal de "união" em libras - Keiny Andrade/UOL
Andrea Venancino, 42, fazendo o sinal de "união" em libras Imagem: Keiny Andrade/UOL

Claudia Castelo Branco

Colaboração para o TAB

09/05/2021 04h00

As mãos de Andrea criam gestos que comunicam de um jeito tão natural que parece fácil. Ela é uma mulher ouvinte de uma família de surdos de várias gerações. Sem palavras, vemos seu domínio da língua de sinais. Ela estava com Téo, um shih tzu agitado, quando recebeu a reportagem de TAB em seu apartamento, na Zona Leste de São Paulo.

Aos 42 anos, Andrea Venancino é tradutora-intérprete de Língua de Sinais e coordena uma equipe de 80 intérpretes em todo Brasil. O papo foi interrompido por dois telefonemas. "Desculpa, meu dia é assim". Ela, a irmã e a namorada são conhecidas como Codas (sigla para Children of Deaf Adults, ou Filhos de Pais Surdos). Naturalmente exposta a dois mundos diversos -- o dos surdos e o dos ouvintes -- Andrea transita em meio a duas culturas, duas línguas, e no contato com muitas experiências visuais. "Já escutei muito aquelas expressões de 'ai, coitadinha'. Como se fosse um problema ser filha de surdos. E nunca foi um problema".

A tradutora se comunica com extrema segurança, olho no olho. "Eu preciso desse contato visual pra escutar. Não sei se isso tem a ver com a língua de sinais, acredito que sim".

Infância e responsabilidade precoce

Andrea cresceu entre duas culturas e numa família que usava e estimulava a língua de sinais. A responsabilidade começou cedo. "É muito louco transitar entre esses dois mundos — um que é visual e outro oral". Isso acontece com a maioria dos Codas que vivem entre o mundo ouvinte e o mundo surdo e viram o elo dos pais com o mundo externo. Ela conta que eles não iam às reuniões de escola, por exemplo. E que, em casa, traduzia novelas e telejornais, sem muita oportunidade para se concentrar nas cenas mais emocionantes.

Andrea lembra do bullying na adolescência. "Escutava as piadas e ofensas quando o surdos oralizavam com sons diferentes. Esse preconceito foi algo me perturbou".

A tradutora é a filha do meio. Alexandra, a mais nova, morreu em 1991, aos 19 anos, vítima de feminicídio. Foi assassinada pelo ex-namorado e o corpo só foi encontrado três dias depois. Adriana, a irmã mais velha, na época com 24 anos, tomou à frente de tudo, enquanto Andrea teve que contar para a mãe. O avô faleceu logo depois, e o pai partiu há quatro anos.

Com três sobrinhas, todas ouvintes, sua família é constituída por mulheres. Mas foi na faculdade de letras e libras que Andrea percebeu alguns olhares diferentes por ser Coda. "De fato, temos um privilégio, mas em nenhum momento esse rótulo me fez pior ou melhor". Para um surdo, Andrea não consegue cobrar por uma tradução. "Para uma instituição, aí tudo bem". E reforça nem todo Coda sabe libras e trabalha como tradutor intérprete — alguns mal sabem falar a língua de sinais — bem como nem todo surdo é alfabetizado em português.

A perspectiva sobre a diferença linguística e cultural que os ouvintes têm dos surdos é superficial. "Já me perguntaram se surdo pode dirigir. Claro que pode. Surdo também transa. Surdo faz tudo". Estudos apontam que pessoas surdas têm visão periférica aprimorada e dirigem melhor do que ouvintes.

Três gerações de mulheres

A avó, Maria da Silva, 92, embora esteja vacinada contra a Covid-19, não se sentiu segura para visitar a neta naquele dia. Ela mora com Neuza, 68, mãe de Andrea, que aguarda para tomar a segunda dose. A interação entre as três mulheres aconteceu por vídeo com a reportagem no apartamento de Andrea.

Sua mãe gosta muito de conversar. "Quando eu vi que minhas filhas eram ouvintes, fiquei muito feliz", diz Neuza ao ser questionada sobre o preconceito contra mães surdas. Ela conta que muitas famílias de surdos foram impedidas de ter ou de criar seus próprios filhos. "Quando perguntam como eu escutava o choro das meninas, respondo simplesmente: eu sou mãe. Sentimos como os outros".

Andrea complementa explicando que existem muitos mitos, como o de uma mãe surda não conseguir cuidar de um filho sozinha. Ela conta que tinha até suas vantagens na adolescência: podia chegar tarde em casa, fazer o barulho que fosse. Só não podia acender a luz.

Por causa da pandemia, e pensando em manter a comunidade ativa, Neuza criou um grupo no WhatsApp para surdos da terceira idade. "Falamos de tudo. Troca de receita, sinais novos. Hoje tem eliminação, inclusive (BBB)".

Mas nem sempre foi assim. A avó de Andrea lembra que na década de 1940, a libras era proibida em sua escola, o que a obrigou a oralizar desde os 9 anos de idade. No Brasil, a libras foi instituída como meio de comunicação legal das comunidades surdas brasileiras através de uma Lei do ano de 2002. "Vejo alguns avanços, mas sou contra o comodismo", opina Neuza. "Ela não para", comenta Andrea.

A avó de Andrea responde com um sinal de "força" que personifica as três gerações, enquanto a mãe pergunta quando sai a matéria. "Quero mostrar para meu grupo de idosos". Andrea lembra, na infância, das Testemunhas de Jeová. "Sempre tinha alguém que sabia libras".

Gays e Codas

Como biculturais, Codas também pensam em outra língua. "Penso muito em libras e às vezes esqueço a palavra. Eu e Simone discutimos usando sinais, coisa que sempre quis fazer em outros relacionamentos". Nesse momento Andrea faz um gesto, como se estivesse brigando. "Esse movimento aqui é tipo o "Brasil tá lascado" (veja na foto abaixo).

Andréa Venancino, 42 Na foto, Andrea faz um gesto para dizer que alguma coisa deu/está muito errada - Keiny Andrade/UOL - Keiny Andrade/UOL
Andréa Venancino, 42 Na foto, Andrea faz um gesto para dizer que alguma coisa deu/está muito errada
Imagem: Keiny Andrade/UOL

Andrea e Simone namoram há três anos. Quando apresentaram as famílias, foi a primeira vez em que Andrea não precisou ficar traduzindo a conversa para os pais. Ela também sente acolhimento e segurança quando encontra os familiares da namorada. "Outro ponto positivo é que a Simone entende quando fico até mais tarde com minha família, porque temos esse hábito de encontrar para conversar somente com a língua de sinais".

A história das duas começou num casamento de Codas, onde começaram a flertar. No Brasil, os encontros de Codas são uma oportunidade de socialização de experiências e sentimentos, onde passam a conhecer e se reconhecer no outro. Segundo a tradutora, a relação mãe e filha Coda é um pouco dependente, e Simone compreende. É mais fácil falar das minhas dificuldades sem medo de julgamentos.

Andrea não conhece nenhum outro casal homoafetivo de Codas.

Andrea Venancino e a namorada, Simone Tretele dos Santos - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Andrea Venancino e a namorada, Simone Tretele dos Santos
Imagem: Arquivo pessoal

Rotina pesada

A sede da ONG onde Andrea trabalha há sete anos fica a 15 minutos, de moto, da sua casa. Por conta da pandemia, resolveu desacelerar em 2021 e vai três vezes por semana. Nos outros dias, trabalha de casa e, depois, se dedica à meditação.

Para entender o trabalho de Andrea, simulamos uma ligação para a central de libras que faz tradução simultânea por meio de uma videochamada. O serviço triangula a comunicação entre o intérprete, o surdo e o ouvinte. Fomos atendidas pelo Everton. "Ela está com apendicite e será operada agora. Avisa para a família que é uma urgência", explicou a reportagem, ao passo que Everton traduzia para Andrea, que simulou ser surda.

Everton é rápido e bem-humorado. Ele lembra que recentemente lidou com uma surda com problemas de comunicação no trabalho que estava se automutilado dentro da empresa. "Ontem, um casal de surdos foi ao ginecologista e foi tenso, porque o médico falou que ela não poderia ter filhos. Por mais que a gente tente não se envolver, não tem como não se emocionar" conta ao TAB.

Casos de violência doméstica também aparecem, assim como as histórias de amor. "Tem a de um surdo e um ouvinte que se conheceram na internet e se apaixonaram. Acontece sempre, mas é sobre isso. Dar acessibilidade para o maior número de pessoas". E porque usar pessoas ao invés de chats? Andrea complementa que alguns surdos não sabem escrever em português, que não é igual libras — e nem todos serviços dispõem de chats acessíveis. "Vai de pedir uma pizza a mediar um surdo preso numa enchente que precisa se comunicar com bombeiros ouvintes". O fator humano também conta.

Andrea Venancino, sua mãe, sua avó e seu cão Téo - Keiny Andrade - Keiny Andrade
Andrea Venancino, sua mãe, sua avó e seu cão Téo
Imagem: Keiny Andrade

Representatividade

Em janeiro, Apple e Amazon entraram numa disputa pelos direitos de distribuição de "CODA", filme escrito e dirigido por Siân Heder, com a primeira saindo vitoriosa. Foi aquisição mais cara do festival de Sundance (US$ 25 milhões, cerca de R$ 134,1 milhões). Andrea conta que assistiu ao longa num encontro de Codas e chorou do começo ao fim, de tanta identificação.

A adaptação é forte candidata ao Oscar 2022 e conta a história a história de pais surdos tentando apreciar o talento musical da filha, que não podem ouvir. A tradutora recomenda também "Crisálida", a primeira série brasileira de ficção em libras e em português, que conta com mais 20 atores surdos no elenco.

Na arte ou na vida, Andrea define a vivência dos Codas como um "terceiro espaço". "É onde a gente consegue transitar entre essa cultura ouvinte e a cultura surda, e aí a gente tem as nossas dores, conquistas, semelhanças. Ser Coda é poder ter uma identidade própria, entender e respeitar muito isso."