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Matheus Pichonelli

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Óculos Juliet, ícone do funk ostentação, entram em campo pelo voto jovem

Lula de óculos Juliet, em evento em Heliópolis, zona sul de São Paulo - Ricardo Stuckert/Divulgação
Lula de óculos Juliet, em evento em Heliópolis, zona sul de São Paulo Imagem: Ricardo Stuckert/Divulgação
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Matheus Pichonelli

Matheus Pichonelli é jornalista reincidente e cientista social não praticante. Trabalhou em veículos como Folha de S.Paulo, portal iG, Gazeta Esportiva, Yahoo e Carta Capital. Araraquarense, desistiu de São Paulo após 12 anos e voltou a morar no interior, de onde escreve sobre comportamento, cinema, política e (às vezes) futebol.

Colunista do TAB

27/04/2022 04h01

Antes de ser levado a sério como candidato a presidente, Jair Bolsonaro foi convertido em "mito" pelas lentes ampliadas e editáveis das redes sociais.

Dos tempos em que aparecia nos programas de auditório pré-eleições de 2018, pipocavam nas redes imagens, gifs e vídeos curtos em que uns óculos escuros mal desenhados brotavam no rosto do então deputado. Os óculos thug life (expressão que por aqui corresponde ao nosso "vida loka"), hoje à venda em qualquer e-commerce, escaparam da esfera contracultural do hip-hop e foram parar nos rostos de todo tipo de lacrador meio malandro. Fizeram a festa da extrema-direita na internet.

Um desses vídeos, que reunia lacradas do futuro presidente ao som de "Turn down for what", hit daquele momento, foi postado no dia da votação, em 7 de outubro de 2018. Somava até ontem mais de 10 milhões de visualizações.

O trabalho de formiga dos produtores voluntários de conteúdo em apoio ao ex-capitão, alguns deles hoje bem empregados em gabinetes do ódio, foi fundamental para estender uma ponte entre o então candidato e o público jovem, que já na época andava desiludido com a política e a fábrica de escândalos escancarada pela Lava Jato.

Os óculos presentes no meme transformavam um deputado sem gingado, sem expressão e com poder de oratória reduzido em figura descolada, capaz de refletir rebeldia e alguma espontaneidade pelas lentes dos dispositivos ópticos.

Foi com esse figurino virtual que Bolsonaro cruzou a rampa real do Planalto. Quase quatro anos depois, a taxa de desemprego na população entre 18 a 24 anos segue acima de 20%. O número de jovens que nem estudam nem trabalham supera 12 milhões de pessoas. E, por onde se olha, não tem nada naqueles óculos que hoje inspire qualquer brecha de iluminação.

A crise ampliou o desencanto e levou políticos, artistas, influencers e até o TSE (Tribunal Superior Eleitoral) a entrar em campo para engajar meninos e meninas que já podem votar a tirarem o título de eleitor. Foi o que fez a cantora Anitta, em campanha aberta contra o presidente Bolsonaro, ao postar em suas redes que só faria foto com fãs de 16 anos que apresentassem o documento.

Nas pesquisas de intenção de voto, o ex-presidente Lula leva vantagem sobre o atual governante, o que pode não fazer diferença alguma se o apoiador for inapto a votar. Para fidelizar esse público em potencial, o petista tem levado a campo um aliado improvável: os óculos estilo Juliet.

Foi em um encontro com jovens de Heliópolis, zona sul de São Paulo, onde mais da metade dos possíveis eleitores entre 16 e 18 anos (55%) não possuem título, 94% querem regularizar a situação até 4 de maio, data-limite para poder votar ainda este ano, segundo os organizadores do evento.

O ícone do funk-ostentação estava no rosto de apoiadores que discursaram e também do pré-candidato petista, que entre selfies e poses tentava mostrar intimidade com a peça de armação metálica e lentes avermelhadas.

A imagem de Lula com seu Juliet foi compartilhada nas redes, onde Bolsonaro e seus oclinhos da lacração têm nadado de braçada desde que os dispositivos eletrônicos, assim como os óculos escuros, se popularizaram no Brasil.

Lula manifestou, em um jantar com senadores, preocupação com a falta de entusiasmo da militância petista para fazer frente ao "exército bolsonarista" nas redes, como noticiou a coluna de Lauro Jardim, do jornal O Globo, no fim de semana. Hoje o petista reúne pouco mais de 1.000 pessoas em um grupo de apoiadores no WhatsApp, enquanto o canal oficial de Bolsonaro no Telegram possui mais de 1,3 milhão de integrantes.

Desde que foram arremessados em direção ao estrelato por Tom Cruise no filme "Missão Impossível 2", de 1999, os óculos Juliet já apareceram nos rosto de jogadores de futebol, como Neymar e Gabriel Jesus, de dirigentes esportivos (o volante Danilo, do Palmeiras, emprestou o seu par ao chefe da Conmebol ao ganhar a Libertadores), modelos, atores, ex-BBBs e cantores - principalmente do funk.

"A sua falsidade reflete na lente do meu Juliet", canta MC Japa na música homônima do modelo.

Mais que um adereço ou item básico do rejuvenescimento político, esses óculos representam a travessia, cantada no funk dos jovens periféricos, pelas vias do mercado de consumo. Em tempos em que riqueza é poder comprar tomate a R$ 10 o quilo, a disputa por um símbolo do funk ostentação, a trilha sonora da mobilidade social do início dos anos 2000, virou peça-chave de uma batalha eleitoral que terá na economia e no poder de compra das famílias o seu front principal.