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Matheus Pichonelli

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Restaurante hype, casa abandonada: por que brasileiro adora uma fila?

Entorno d"A Casa do Porco Bar, no centro de São Paulo - Reinaldo Canato/UOL
Entorno d'A Casa do Porco Bar, no centro de São Paulo
Imagem: Reinaldo Canato/UOL
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Matheus Pichonelli

Matheus Pichonelli é jornalista reincidente e cientista social não praticante. Trabalhou em veículos como Folha de S.Paulo, portal iG, Gazeta Esportiva, Yahoo e Carta Capital. Araraquarense, desistiu de São Paulo após 12 anos e voltou a morar no interior, de onde escreve sobre comportamento, cinema, política e (às vezes) futebol.

Colunista do UOL

26/07/2022 04h00

Se você andar pelo centro de São Paulo e tiver a chance de almoçar num pé-sujo qualquer ou no sétimo melhor restaurante do mundo, certamente não estará diante de uma escolha muito difícil.

Sua mãe provavelmente já disse que você não é todo mundo, mas a chance de todo mundo ter a mesma ideia poucas horas após A Casa do Porco Bar aparecer no top dez do "The World 's 50 Best Restaurants", o Oscar da gastronomia mundial, seria considerável.

No último fim de semana, quem estivesse ali à caça do sushi de papada encontrou uma fila defumada com o cheiro de bacon onde era preciso esperar cerca de 4 horas por um assento, segundo o relato da repórter Claudia Castelo Branco.

Dava tempo de matar o próprio porco e assar com paus e pedras. Ainda assim, ao que parece, algum instinto de sobrevivência dos tempos da caça e da coleta seguia intacto na multidão em linha reta de bermudas e sapatênis espalhados pelas calçadas do centro da capital.

A experiência é tipo um teste de resistência ao estilo "No Limite", mas com torresmo de panceta no pódio de chegada.

A cauda da produção econômica ali em breve pode se desdobrar entre ambulantes dispostos a entreter a fila com sombrinhas, capa de chuva, água gelada, minigames, baralho, cerveja e, ironia das ironias, torresmo ou espetinho de linguiça.

É isso ou conseguir uma reserva para outubro.

A fila em frente ao restaurante da vez prova uma coisa: a humanidade está polarizada e ela se divide entre quem não perde a chance de entrar numa fila e mostrar sua arte em termos de socialização, e quem olha o renque, vira as costas e vai fazer outra coisa da vida — tipo viver.

A divisão pode ser observada no restaurante da moda, na lotérica da esquina ou em frente a uma casa abandonada.

Não muito longe dali, em Higienópolis, é tecnicamente uma fila a aglomeração humana formada diariamente a poucos metros da mansão sinistra retratada no podcast "A Mulher da Casa Abandonada". Ali encontra-se de tudo. Menos a paz entre vizinhos.

O sucesso do seriado documental tem levado pessoas de passagem por São Paulo a colocar a atração turística na rota de qualquer passeio pela maior cidade do país.

O prêmio ali não está no cardápio. É a chance de emplacar uma selfie, como um endosso de materialidade, e ter a sorte de flagrar a atração principal descer para se alimentar em seu pomar. Se tiver polícia e helicóptero por perto, o circo em forma de fila estará automaticamente armado.

Como na fila do cinema, o espectador tem sempre a possibilidade de escolher o filme que quer ver e/ou fazer figuração. Do drama ao terror.

Não faz muito, a Companhia de Engenharia de Tráfego precisou entrar em campo para organizar a fila (ou o caos) de motoristas que desaceleravam para ver os últimos momentos antes da demolição de um prédio de dez andares incendiado dias antes no centro da capital paulista.

"Virou ponto turístico, né? É o dia todo assim", comentava uma vendedora ao ver a selfie de uma mulher sorrindo para o palco da tragédia. "Fazem isso porque o prédio vai sumir e vira história", resumiu ela para o repórter Lucas Veloso. Touché.

Não é de hoje que o brasileiro faz jus à fama contida no ditado de que é um povo que não pode ver uma fila e já vai entrando. O comportamento já era descrito por Renato Russo na música "Metrópole", do álbum "Dois", lançado no distante ano de 1986.

Na canção, os personagens, diante de um atropelamento, se aglomeram satisfeitos com o sucesso do desastre que vai passar na televisão. A fila seguinte é para a contratação de quem vai limpar o sangue.

A impressão é que o hábito tem se aprofundado em tempos pandêmicos. Em alguns casos, por razões óbvias. O Brasil da pandemia é um Brasil na fila para receber auxílio emergencial, parcela do INSS e do FGTS. É também um país na fila de emprego. Tudo o que falta no país sobra em fila. Inclusive para detentos posicionados em linha reta na frente do fórum para assinar a condicional. Tudo muito ordenado e vigiado.

Fica por conta dos estudiosos de políticas públicas a análise dos efeitos do desmonte dos serviços públicos para esse afunilamento social. E dos estudiosos da alma humana a explicação para ansiedade daqueles que passaram os últimos meses trancafiados e agora, como herdeiros de São Tomé, acompanham a fila (qualquer fila) da manada (qualquer manada) para não perder nenhum registro dos delírios e experiências das coisas reais — ou do hype.

Da mesma forma em que todos somos chamados a opinar ao sabor dos trending topics, também somos chamados a testemunhar o que amanhã pode ser lembrado como evento histórico. Tem maior prova de que não estamos nessa vida a passeio?

A selfie, para o sujeito contemporâneo, é quase um atestado de vitalidade: "Se eu fui, existe. Inclusive eu".

A pira do brasileiro pela fila é caso de estudo (mesmo) e não se delimita a uma ou outra praça.

Outro dia, no Rio, uma pessoa viu uma fila se formar a partir de uma portinha na esquina da rua Ator Jayme Costa e da praça Marechal Floriano, na Cinelândia. Não tinha ideia de que ali existe uma bonbonnière desde 1928. Entrou apenas pela movimentação. Saiu de lá com duas tortas.