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Michel Alcoforado

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Fofocas edificam famílias, cidades, sociedades e inventam o mundo

Nelson Rubens está há 20 anos à frente do "TV Fama" - Reprodução TV Fama / Internet
Nelson Rubens está há 20 anos à frente do 'TV Fama' Imagem: Reprodução TV Fama / Internet
Michel Alcoforado

Michel Alcoforado Doutor em Antropologia, Michel Alcoforado se especializou em Antropologia do Consumo pela University of British Columbia, no Canadá, onde trabalhou prestando consultorias para agências especializadas em pesquisa de mercado, comportamento do consumidor e tendências de consumo. No Brasil, fez pesquisas sobre comportamento de consumidor on e off-line, especializou-se em Planejamento Estratégico de Comunicação e trabalhou como estrategista para grandes marcas. É pós-graduado em Comunicacão Integrada na ESPM e em Brand Luxury Management na London College of Fashion. Palestrante no Brasil e no Exterior, é membro do Instituto Millenium - um dos maiores think tanks brasileiros, colunista da revista Consumidor Moderno e Sócio-diretor da Consumoteca, uma boutique especializada no consumidor brasileiro. Atualmente, cursa um MBA na Berlin School of Creative Leadership/ Steinbeis University.

Colunista do TAB

29/05/2021 04h01

É dura a vida de um jovem que não tem ideia do poder da fofoca.

Foi em 1978 a clássica entrevista de Nelson Rodrigues a'O Opiniático, um jornaleco de quinta categoria famoso em Minas Gerais. Sem nem imaginar que se tratava da sua última entrevista, o dramaturgo, então aos 66 anos, discorreu sobre a própria vida e nos brindou com uma dezena de bons aforismos para nos deixar certos da sua grandiosidade. É de lá o famoso conselho: "Jovens: envelheçam rapidamente".

Nelson morreu em 1980. Antes de o computador pessoal chegar ao Brasil, da internet ter se enfiado em tudo quanto é coisa e as redes sociais se expandirem de tal maneira que já há gente que viva só disso. Sorte a dele.

Não precisou ver de perto os jovens sem experiência virarem produtores de conteúdo e acreditarem que qualquer opinião ou experiência precisa ser compartilhada. Não tivemos a mesma sorte.

Há tempos, a jornalista Mariana Uhlmann, 29, se aproveita da conta pessoal no Instagram para compartilhar com seus mais de 700 mil seguidores detalhes da sua rotina. Casada com o ator Felipe Simas, mãe de três filhos, abandonou a carreira para cuidar da família, está feliz e passa bem.

Na última semana, num post na rede social, nos brindou com uma pérola. Decidiu contar para o marido uma história, mas foi interrompida no começo. Quando li, pensei que estava diante de mais uma denúncia de manterrupting (hábito masculino de interromper as mulheres). Estava enganado. O problema era moral.

Simas, inconformado, mandou: "Isso que você quer me contar vai edificar a minha vida? Edificou a sua? Da nossa família?"

Numa epifania, Mariana se deu conta que não. Fofocas não são de bom-tom, não devem ser compartilhadas, não edificam a família. A descoberta foi um divisor de águas em sua vida (palavras dela).

Aproveito o espaço, a maturidade e décadas de estudos antropológicos de outros autores que, de tão velhos, já até morreram, para discordar do casal.

Fofocas existem em toda e qualquer sociedade e são instrumentos importantes de controle social, contribuem para definição dos limites do grupo, atualizam crenças e comportamentos. Em geral, os fuxicos surgem em grupos coesos, com senso de identidade, e ajudam na definição dos limites entre o nós e eles. Geram reflexão sobre o que podemos fazer ou como reorganizar as relações de poder em jogo. Sendo assim, não é exagero dizer que fofocas edificam famílias, cidades, sociedades e inventam o mundo.

Na maioria das vezes, os personagens centrais de uma boa fofoca são pessoas com destaque, hierarquicamente superiores e, devido à distância social que mantêm com os outros, trazem uma aura de silêncio, mistério e segredo em torno de si. Abrem espaço para que nós, reles mortais, percamos nosso tempo conjecturando onde vivem, o que comem, porque sofrem e por aí vai.

Os fofoqueiros se valem do jeito jocoso, por vezes, depreciativo para exaltar ou diminuir os feitos e as conquistas dos outros. E, com a força da narrativa e o impacto que geram na sociedade, conseguem içar alguns ao topo de uma sociedade ou os transformam em párias. Não por acaso, as celebridades mantêm uma relação de amor e ódio com o entretenimento de fofoca. Uma notícia sobre a intimidade de um artista tem o poder de colocá-lo em ainda mais destaque no showbiz (com muito poder) ou acabar com suas carreiras.

A consolidação dessa indústria de informações mirabolantes sobre a vida alheia ocorreu dos anos de 1980 para cá, mas se mantém firme e forte sem quaisquer sinal de crise.

Com o passar dos anos, os fofoqueiros profissionais e os programas especializados ganham ainda mais audiência e nos fisgam com discussões que, à primeira vista, parecem não nos levar a lugar nenhum. "Não edifica", dizem os críticos. Eles esquecem que é também falando da vida dos outros que definimos nossos próprios rumos.

Não podemos também esquecer que o ritmo intenso das transformações sociais tem deixado muita gente perdida. É com a ajuda das fofocas, dos rumores de bastidor e da revelação dos segredos que podemos parar, refletir e discutir se algo é socialmente possível ou moralmente inaceitável.

Afinal, quando sei que Ronaldinho Gaúcho manteve um casamento formal com duas mulheres, na mesma casa, tenho a chance de discutir sobre as perdas e ganhos da monogamia ou da bigamia. É com a informação de que Fiuk, o herdeiro, abandonou seus cães num abrigo porque andava sem tempo que temos a oportunidade de discutir sobre os cuidados com os animais. Ou ainda: só com a recusa de Sabrina Sato em estrelar uma campanha publicitária com o marido e a filha que podemos pensar sobre os limites da rentabilização dos afetos. A fofoca abre arenas de debate e nos ajudam a modular os rumos da sociedade. E ainda há gente acreditando que fofoca não edifica...

Jovens, envelheçam rapidamente e que sobre tempo para fofocar.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL