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Michel Alcoforado

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Millennials, os 'cringe', são os primeiros a negar os marcadores da adultez

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Imagem: @affthehype/Instagram
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Michel Alcoforado

Michel Alcoforado Doutor em Antropologia, Michel Alcoforado se especializou em Antropologia do Consumo pela University of British Columbia, no Canadá, onde trabalhou prestando consultorias para agências especializadas em pesquisa de mercado, comportamento do consumidor e tendências de consumo. No Brasil, fez pesquisas sobre comportamento de consumidor on e off-line, especializou-se em Planejamento Estratégico de Comunicação e trabalhou como estrategista para grandes marcas. É pós-graduado em Comunicacão Integrada na ESPM e em Brand Luxury Management na London College of Fashion. Palestrante no Brasil e no Exterior, é membro do Instituto Millenium - um dos maiores think tanks brasileiros, colunista da revista Consumidor Moderno e Sócio-diretor da Consumoteca, uma boutique especializada no consumidor brasileiro. Atualmente, cursa um MBA na Berlin School of Creative Leadership/ Steinbeis University.

Colunista do TAB

25/06/2021 04h01

O termo do momento é cringe.

Você não precisa ter tido aulinhas de inglês no cursinho do bairro, feito intercâmbio no Canadá, Austrália ou Irlanda com outras centenas de brasileiros, ou ter formado vocabulário com os episódios legendados de "Friends" ou com os calhamaços de Harry Potter para entender do que se trata.

Néli Pereira, jornalista, mixóloga e pesquisadora de brasilidades, já traduziu. Trata-se de uma nova gíria, vinda do inglês, usada pelos jovens da geração Z, para dizer que os millennials já não ditam mais moda, estão velhos e pagam micos.

Até aqui, nenhuma novidade. Com os passar dos anos e com a apropriação do território da juventude por uma nova geração, os mais novos ditam o que é démodé, cafona ou uóóó - outra definição possível para o termo em inglês. Dessa vez, são os nascidos entre 1995 e 2010, os Zs, que enquadram os millennials (os de 1980 até 1995).

Há tempos a expressão andava na boca da garotada, mas só com a viralização de uma conversa de uma voz sem rosto com uma marionete fajuta, muitos se convenceram de que os tempos áureos da juventude ficaram para trás. Desde então, um exercito de millennials em apartamentos com piso de taco, vasos de plantas espalhados pela sala, fotos com filtro californiano das iguarias matinais ou xícaras de café com frases inspiradoras sofrem por terem sido obrigados a aceitar o óbvio: eles viraram adultos.

Devemos ao mundo pós-1950 a invenção da juventude — esse intervalo entre a infância e a vida adulta no qual os indivíduos, ainda em formação, têm a licença da sociedade para viver a vida em modo beta. Isto é, sem fazer escolhas que perdurem pela eternidade, sem assumir as consequências dos próprios atos e, sempre que possível, contando com a ajuda dos mais velhos para resolver os problemas cotidianos. Ser jovem é como andar de patins com todo paramento de segurança, mas ainda acreditar que as paredes, o chão e o teto contam como proteção extra contra a queda.

Mas o que é bom dura pouco. Em algum momento, a sociedade cobra que os indivíduos enfrentem rituais de passagem que os coloquem na vida adulta. Aqui, começam os calafrios dos millennials. Trata-se da primeira geração da História a negar todos os marcadores de adultez como se, fazendo assim, tivessem a chance de permanecerem jovens para sempre.

A negação da instituição do casamento em nome de encontros nos aplicativos de relacionamento, a fuga de relações de trabalho estáveis como uma carreira em uma grande empresa ou um cargo público em prol de vida freelancer, a substituição de filhos humanos pela paternidade pet e o desprezo por bens de consumo duráveis, de alto valor, como casa e carro, são reflexos dessa busca pelo congelamento da juventude. Mesmo que, a cada dia, o corpo mostre os sinais do tempo.

Os rituais de passagem são importantes na vida social porque comunicam para a sociedade a nossa identidade, mas, ao tempo, ensinam a cada um de nós como nos comportarmos de maneira adequada no novo momento da vida. Sem eles, nós e os outros, ficamos perdidos dentro da própria vida, sem saber como agir ou pensar.

Não à toa, a recusa dos millennials em aceitar os marcadores de adultez explica boa parte dos conflitos da geração. É como se vivessem na eterna liminaridade, no "entre", presos a um vácuo, entre a juventude e o amadurecimento que, apesar dos ganhos aparentes, trazem mais problemas que soluções. O viral do cringe resolve o imbróglio.

Gírias, expressões e rótulos carregam dentro de si uma dupla capacidade performática. De um lado, levam consigo um conjunto de significados capazes de comunicar uma determinada visão de mundo. De outro, têm o poder reorganizar o sistema social, redefinir parâmetros e identidades. Assim como os rituais de passagem, eles nos ensinam quem precisamos ser.

O viral do cringe coloca os millennials no devido lugar, informa sobre a passagem do tempo e forma uma nova lente para auto-percepção de toda uma geração. Aqueles que lutaram pesado contra a chegada da vida adulta são obrigados a aceitar que o tempo passou, não são mais os únicos promotores de novos comportamentos, não interessam às marcas como antes, perderam a licença da experimentação descompromissada e precisam assumir que liberdade e autonomia cobram um preço.

Em um mundo no qual as novas tecnologias redefiniram tudo (dos afetos ao trabalho), era de se esperar que os rituais também se transformassem. Se para os meus avós, o casamento era a porta de entrada para a vida adulta; para os baby boomers, a passagem se deu através do trabalho e da independência financeira; os da geração X se agarram aos itens de sucesso para dizer a todos quem manda e quem obedece; os millennials precisaram de um vídeo viral para se compreenderem no novo estágio. Cada geração tem a virada que merece.

O viral do cringe é um ritual de adultez 3.0.

PS: Dito isso, cringe é a vovozinha.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL