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Michel Alcoforado

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Nosso recado está dado: na ExpoDubai, Brasil é coisa de outro mundo

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Michel Alcoforado

Michel Alcoforado Doutor em Antropologia, Michel Alcoforado se especializou em Antropologia do Consumo pela University of British Columbia, no Canadá, onde trabalhou prestando consultorias para agências especializadas em pesquisa de mercado, comportamento do consumidor e tendências de consumo. No Brasil, fez pesquisas sobre comportamento de consumidor on e off-line, especializou-se em Planejamento Estratégico de Comunicação e trabalhou como estrategista para grandes marcas. É pós-graduado em Comunicacão Integrada na ESPM e em Brand Luxury Management na London College of Fashion. Palestrante no Brasil e no Exterior, é membro do Instituto Millenium - um dos maiores think tanks brasileiros, colunista da revista Consumidor Moderno e Sócio-diretor da Consumoteca, uma boutique especializada no consumidor brasileiro. Atualmente, cursa um MBA na Berlin School of Creative Leadership/ Steinbeis University.

Colunista do TAB, em Dubai

19/10/2021 04h01

Cheguei a Dubai.

Depois de meses sem viajar por conta da pandemia, decidi correr o risco de me aglomerar nas alturas por mais de 15 horas para descobrir o que será o futuro.

Há mais de 170 anos, a exposição universal mais antiga da História voltou em mais uma edição. Pela primeira vez no Oriente Médio, a ExpoDubai reúne pavilhões de 192 países em um enorme parque no meio do deserto para mostrar o que as nações esperam do amanhã.

O Brasil está entre os participantes, mas é como se não tivesse vindo.

A exposição universal foi criada nos rastros da Revolução Industrial. O avanço tecnológico e a invasão das máquinas no cotidiano, o investimento pesado em inovação, aliado à dificuldade de comunicação de antigamente, obrigaram os principais países a se reunir periodicamente para compartilhar feitos e, juntos, discutirem o futuro da humanidade.

Ainda hoje, convivemos com alguns marcos de edições passadas. A Torre Eiffel foi construída para a exposição de Paris de 1889. Àquela altura, era um símbolo de modernidade, não só por se tratar do monumento mais alto de todo o planeta, mas pela capacidade de transmitir ondas de rádio por toda a cidade. O telefone, invenção de Alexander Graham Bell, foi apresentado na edição de 1876, na Filadélfia, nos Estados Unidos. A pujança criativa estava tão em alta naqueles tempos que os visitantes ainda tiveram a chance de ver pela primeira vez uma máquina de escrever e imaginar a potência trazida pela nova traquitana para a circulação das ideias. Gourmands de então puderam se deliciar com sanduíches devidamente temperados com ketchup, criação que a Heinz apresentou ao mercado em uma Feira Mundial.

Hoje, com o desenvolvimento dos canais de comunicação digitais, ninguém precisa mais esperar cinco anos para mostrar ao mundo suas próprias criações. Um vídeo no YouTube ou um post numa rede social substituiria a necessidade da feira. Porém, nos últimos anos, o encontro se transformou mais numa celebração da "aldeia global". Em pavilhões enormes, cada país tem a chance de construir uma narrativa, a partir de suas próprias perspectivas, sobre os rumos da humanidade.

Pavilhão do Brasil ExpoDubai2020 - Agência Brasil - Agência Brasil
Pavilhão do Brasil ExpoDubai2020
Imagem: Agência Brasil

As histórias contadas sobre nós para os outros são importantes porque definem contornos identitários, criam pontes de diálogo e posicionam as nações na arena global. Em um planeta marcado por contínuas transformações, é fundamental que, por meio de um intenso contato, os países atualizem as próprias narrativas de acordo com novos contextos e, com isso, mantenham relevância e protagonismo no debate. Cada pavilhão dá "lugar de fala" a um país nas principais arenas internacionais (política, econômica, cultural, entre outras).

O Brasil da ExpoDubai2020 é um tiozão pesado — daquele que visitamos por costume ou por educação. Amigo de todo mundo, gosta de fazer novas amizades, mas logo deixa todo mundo entediado pela repetição enfadonha de velhas piadas ou frases clichê ("É pavê ou pá cumé?").

Ao lado do moderno prédio de madeira da Suécia, o projeto do arquiteto José Paulo Gouvêa, ganhador do concurso para a exposição, ocupa mais de 4 mil m², é imponente e chama a atenção dos visitantes. Um cubo metálico, apoiado sobre poucos pilares, pesado como as velhas indústrias do século passado, dá imponência ao espaço, aliviada por um enorme espelho d'água que invade o pavilhão.

No calor extenuante do deserto dos Emirados Árabes, a água é um convite à visita. Sem portas e com passagem aberta, o pavilhão brasileiro faz os pais correrem atrás das crianças que vão de encontro às águas como se estivessem em um parque aquático ou na Disney. Até mesmo os adultos mais sisudos deixam de lado os calçados para molhar os pés ou relaxar nas seis redes penduradas em um canto do cubo gigante.

E só.

O que há de forma no pavilhão brasileiro falta em conteúdo. Tanto os vídeos projetados nas paredes quanto os poucos painéis da área de exposição não cativam ninguém, porque não têm o que dizer. É como se, pressionados a falar sobre diversidade, inclusão e sustentabilidade, tivéssemos trocado os velhos lugares comuns da cultura brasileira (carnaval, samba e futebol) por outros (Amazônia, agronegócio e paisagens idílicas). O tiozão fala, fala, fala e não diz nada, mas diverte os outros com o laguinho que oferece a todos, de braços abertos. Não podemos reclamar.

O edital do concurso que levaria um projeto a ExpoDubai previa que os arquitetos e curadores marcassem o "valor da sócio-diversidade brasileira" e exaltassem a multiplicidade étnica e criativa da população, contribuindo para a conexão das mentes e a construção do futuro — tema central da feira. Sorte a nossa que os visitantes estão a olhar mais para as águas do que para o conceito do pavilhão.

Eu não sei o que seria de nós se os turistas entendessem que o laguinho refrescante é alusão a um rio do país no qual crianças indígenas são engolidas e cuspidas por dragas de garimpeiros dentro das suas reservas. Não imagino o que aconteceria se soubessem que as imagens da floresta amazônica, logo logo, serão vídeos de arquivo, dado que o desmatamento acelerou em um ritmo jamais visto. Sou incapaz de prever a reação dos pais das crianças se soubessem que a alegria dos brasileiros dos telões é sustentada por uma alimentação à base de carcaças, feijão quebrado e arroz cozido em latas de álcool, enquanto uma comitiva de 69 deputados vem passear em Dubai a peso de ouro. É duro imaginar o que pensariam os organizadores da feira se imaginassem que, no Brasil, o presidente é contra qualquer diversidade, luta por um único modelo de família e sugere que compremos armas quando não houver dinheiro para comprar comida.

Assim como o Brasil de Bolsonaro não cabe mais no Fórum de Davos, na reunião da ONU, no encontro do clima e em nenhum outro fórum internacional, acredito que o melhor caminho era o país abrir mão de participar da feira universal pela primeira vez na História.

Se a ExpoDubai foi feita para dar recados, o nosso está dado: o Brasil é um país de outro mundo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL